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26/12/2008

Os novos migrantes chineses do Sudeste Asiático

Le Monde
Bruno Philip e Brice Pedroletti
No Camboja
Eles vêm de Hubei, Hunan, Sichuan ou Yunnan, províncias do interior da China, e são "xin yimin", os novos imigrantes chineses no Sudeste Asiático. Em pleno crescimento, o Laos, o Camboja e também o Vietnã recebem o grosso desses bandos motivados pelo gosto dos negócios e favorecidos por uma política de abertura comercial e de assistência generosa - e não desinteressada - da China para com seus vizinhos próximos.

Na fronteira entre a China e o Laos, A. Liu, 27 anos, originário de Wuhan, foi contratado pelo cassino de Boten, do lado do Laos, há dois anos: nas salas de jogo enfumaçadas do hotel, os clientes são na grande maioria chineses, assim como os funcionários e os pequenos comerciantes que abriram lojas nos arredores. Em um alegre tumulto, A. Liu, que vigia a roleta e o bacará, diz que seu salário não é muito alto, mas que ele economizou: "Eu quero me instalar em Vientiane, no Laos, para montar um negócio de roupas", ele diz, pois na China "há muita concorrência".

A uma centena de quilômetros ao sul da fronteira, o povoado de Oudomxai também foi tirado de seu torpor tropical pelo afluxo de "xin yimin". Assim que desce do ônibus chinês novo em folha que liga diariamente Kunming (Yunnan) a Oudomxai e depois a Luang Prabang, Tang Huei se instala diante de uma tigela de massas picantes no restaurante Chongqing (do nome da grande cidade chinesa situada perto da barragem das Três Gargantas).

Ele vem de Panzihua, em Sichuan, a conselho de um contato laosiano, para prospectar a região em busca de cobre e ferro. Em Oudomxai, os chineses abriram vários restaurantes, montaram uma loja de motocicletas e possuem no mercado barracas onde se vendem pequeno material eletrônico, geradores ou utensílios plásticos.

"A característica dessas novas migrações é que elas acontecem por via terrestre e que as pessoas vão e voltam. No Laos, são os chineses mais pobres que vêm tentar a sorte. Tanto homens quanto mulheres sozinhas como casais que muitas vezes fazem mais de um filho, que só legalizarão mais tarde na China. Eles deixam muitas vezes uma parte da família em sua região de origem, chegam com uma pequena economia para começar. Suas perspectivas no Laos não são mirabolantes, mas de todo modo são melhores que na China, onde a concorrência é feroz", observa Danielle Tan, doutoranda e no Centro de Estudos e de Pesquisa Internacional (CERI) da Sciences-Po, onde ela estuda a nova mobilidade chinesa no norte do Laos. A própria pesquisadora é originária da diáspora chinesa do Camboja - seus pais fugiram dos Khmer Vermelhos e chegaram a Saigon, onde ela nasceu, e depois à França.

"Antigamente, os huaqiao (emigrantes chineses) no Sudeste Asiático vinham essencialmente das províncias costeiras da China meridional, terra natal da maioria da diáspora chinesa no mundo. Eles se reagrupavam por grupo geo-dialetal - muito poucos falam o mandarim - ao redor de cinco congregações: os cantoneses, os hokkien, os teochiu, os hainanais e os hakka. O rompimento com a mãe pátria foi quando essas comunidades não puderam mais enviar seus mortos para a China comunista", explica a pesquisadora em Vientiane.

Há muito tempo mais modesta no Laos, um país encravado, essa diáspora chinesa prosperou amplamente na Malásia e na Tailândia, e o ex-primeiro-ministro chinês é, aliás, de origem teochiu. No Camboja, onde foi aniquilada ou expulsa pelo regime de Pol Pot com a bênção de Pequim, ela prospera novamente e se compõe tanto de profissionais chineses de empresas têxteis, como médicos, pequenos comerciantes e magnatas que voltaram do exílio.

Em um estudo recente do CERI sobre a presença chinesa no Camboja, a sinóloga e cientista política Françoise Mengin afirma que o primeiro-ministro cambojano, Hun Sen, consolidou em parte seu poder econômico graças a um grupo de oligarcas sino-khmer, muitas vezes ligados por aliança com os principais funcionários do regime (o vice-primeiro-ministro Sok An é de origem chinesa, como a própria mulher de Hun Sen) e hoje se tornaram os interlocutores privilegiados de uma China que outrora os baniu.

A China exportaria assim para o Camboja as estratégias de "especulação imobiliária" que alimentaram sua conversão espetacular à economia de mercado -, mas também o enriquecimento pessoal de um pequeno número -, jogando com a confusão de interesses privados e públicos.

Uma grande concessão fundiária da ordem de 3 mil hectares situada em uma zona protegida teria sido atribuída recentemente a um promotor chinês, a Yeejia Tourism Development. "É inegável que Hun Sen solicita e valoriza fortemente os projetos chineses", confirma um investidor estrangeiro em Phnom Penh. As exigências ambientais ou sociais dos doadores de ajuda ocidentais estão muitas vezes ausentes dos projetos chineses, em nome da rentabilidade imediata.

Esses novos movimentos migratórios são incentivados por Pequim, pois favorecem a exportação de produtos chineses provenientes das regiões desfavorecidas do Grande Oeste chinês e a implantação de empresas chinesas. "A política da China é garantir a estabilidade em suas fronteiras. Para isso, é preciso favorecer a economia dos países ao nosso redor", diz Xu Hui, um nativo de Xangai que investiu ao lado de um grupo de Chongqing em um projeto de cultura de arroz híbrido e de rosas em Khangan, perto de Vientiane, para exportação. O programa foi negociado pela vice primeira-ministra Wu Yi em 2005, financiado por empréstimos chineses e atribuído ao município de Chongqing, que incentivou as empresas locais a aderir.

Outras obras são ainda mais ambiciosas: o Banco de Desenvolvimento da China, que financia a construção por empresas chinesas de um estádio em Vientiane para os Jogos do Sudeste Asiático de 2009, obteve do governo comunista do Laos a concessão para uma sociedade chinesa de mil hectares de pântanos nas portas da capital para transformá-los em uma nova cidade, com lojas e fábricas, destinada a receber moradores e investidores chineses.

O anúncio provocou tumulto entre a população de Vientiane, embora bem disposta em relação aos recém-chegados chineses depois de anos de letargia econômica: alguns falam até no Laos como um "Tibete 2". "Você sabe por que os chineses vêm? Porque não podem comprar terras em seu país. Aqui eles se casam com uma laosiana e está feito!", resmunga Khamouen, um ex-funcionário de ONG que se tornou chofer de táxi. Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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