UOL Notícias Internacional
 

31/12/2008

Entrevista: "Castro age como uma arma de dissuasão frente às mudanças"

Le Monde
Entrevista concedida a Jean-Michel Caroit*
Do Le Monde
Por que os jovens revolucionários conduzidos por Fidel Castro triunfaram em janeiro de 1959?

Fidel Castro estava determinado a derrubar Fulgencio Batista, um ditador e aliado próximo dos Estados Unidos. Desde essa época, Fidel Castro queria libertar a América Latina da dominação política e econômica dos Estados Unidos, da mesma maneira que Simón Bolívar a havia libertado do jugo espanhol. A revolução venceu, ainda que todas as condições parecessem desfavoráveis para Castro quando ele voltou para Cuba em dezembro de 1956 e começou sua luta nas montanhas à frente de uma pequena tropa. Fidel Castro se converteu então em um personagem colorido e romântico, cada vez mais popular.

Como a revolução cubana se tornou comunista?

Fidel Castro não era comunista quando ele chegou ao poder. Ele não tinha intenção de se alinhar com a União Soviética. O ponto crítico foi a tentativa de invasão da Baía dos Porcos, em abril de 1961. Para se defender da ação armada dos Estados Unidos, ele se voltou para a União Soviética. Enquanto a invasão estava em andamento, que os bombardeios haviam começado para prepará-la, ele pronunciou um discurso declarando "a revolução socialista".

Essa evolução era inevitável, no contexto da guerra fria?

As coisas poderiam ter se dado de outra forma. Após a tentativa da invasão da Baía dos Porcos, o dirigente soviético Nikita Khrushchev se perguntou que partido ele poderia tirar da situação. Foi então que ele começou a enviar mísseis a Cuba, o que conduziu o mundo à guerra nuclear em outubro de 1962. Para atenuar a crise, Kennedy e Khrushchev chegaram a um acordo. Mas foi a partir dessa data que as relações com a URSS se fortaleceram e Cuba começou a receber uma ajuda de Moscou estimada em 4 a 5 bilhões de dólares por ano.

O mundo mudou desde a vitória da revolução cubana. A União Soviética ruiu e Cuba não procura mais derrubar os governos do hemisfério. Por outro lado, as razões que os Estados Unidos tinham para derrubar Castro desapareceram. Cuba não constitui uma ameaça para os Estados Unidos ou outros países da região. Pelo contrário, a reunião de cúpula que acaba de acontecer no Brasil mostrou que os países da América Latina e do Caribe mantêm boas relações com Cuba.

Cinqüenta anos mais tarde, qual é o balanço da revolução cubana?

Um balanço muito moderado. Em relação aos objetivos que os jovens revolucionários haviam fixado, eles podem alegar os sucessos como os da educação e da saúde gratuita para todos. No que diz respeito a moradia e alimentação, há deficiências, não se pode dizer que as promessas tenham sido cumpridas. Sem dúvida alguma os cubanos querem mudanças, mas sempre existe uma certa lealdade em respeito à revolução, pois uma parte das promessas foi cumprida. No lado negativo, deve-se colocar a agricultura que não funciona e é incapaz de nutrir os cubanos. A ilha precisa importar grandes quantidades de alimentos, ao passo que ela deveria ser auto-suficiente. O sistema universitário forma diplomados, mas por causa do mau funcionamento da economia, eles não encontram oportunidades.

Maria Werlau, a diretora do Arquivo Cuba, com sede em New Jersey, estima em 5732 os casos de execuções e desaparecimentos desde 1959. E o respeito às liberdades?

Certamente houve graves violações dos direitos humanos. O regime cubano não é democrático. É um regime autoritário. Não existe liberdade de imprensa e sempre há em torno de 250 prisioneiros políticos. Mas a política dos Estados Unidos não ajudou a melhorar as coisas. A cada vez que Washington ameaça a revolução cubana, as autoridades reagem contra os opositores que eles acusam de ser agentes dos Estados Unidos.

Durante um período, anterior a 2003, as autoridades toleraram a atividade dos dissidentes. Oswaldo Paya pôde então recolher milhares assinaturas para o projeto Varela, uma petição por maiores liberdades. Mas a administração Bush anunciou que seu objetivo era de derrubar Castro. Ela desenvolveu a teoria do golpe preventivo que ela colocou em prática com a invasão do Iraque. As autoridades cubanas reagiram em março de 2003 com um golpe contra a oposição, detendo 75 dissidentes e pondo fim ao período de relativa tolerância.

Os Estados Unidos obteriam melhores resultados ao reduzir as tensões e indicando que eles não possuem intenção hostil. A política americana a respeito de Cuba nesses oito últimos anos foi contra-produtiva. Se nós realmente quisermos mudanças, teremos muito mais resultados por meio de diálogo. É o que desejam muitos cubanos e instituições como a Igreja católica que poderia exercer um papel importante.

Como a revolução sobreviveu ao desaparecimento do bloco soviético?

Muitos analistas previam que ela não sobreviveria ao fim da ajuda soviética. Cuba passou por um período muito difícil, mas o regime sobreviveu por duas razões, principalmente: a essência de lealdade em respeito à revolução e a vontade de muitos cubanos de se manterem independentes dos Estados Unidos. A vontade de muitos cubanos de não cair sob o domínio dos Estados Unidos teve um papel importante na sobrevivência do regime após o fim da União Soviética. A repressão também teve influência, mas não foi o fator determinante.

Apesar de sua doença e de sua retirada do poder, Fidel Castro continua muito presente nos veículos de comunicação oficiais. O sr. acredita, como expressou o economista dissidente Oscar Espinosa Chepe, que as esperanças de mudança desapareceram com o pronunciamento dia 26 de julho pelo presidente Raúl Castro?

As mudanças estão acontecendo, mas elas são lentas e provavelmente continuarão sendo enquanto Fidel Castro estiver vivo. Ele age como uma arma de dissuasão frente às mudanças. Como chefe das forças armadas, Raúl garantiu que elas tivessem um papel importante na economia cubana, principalmente no turismo. Ele quer confiar mais terras aos camponeses para aumentar a produção agrícola.

Como evoluirão as relações entre Washington e Havana após a posse de Barack Obama?

O presidente Obama agirá com prudência e lentamente. Ele disse que colocaria fim às restrições que limitam as viagens e as transferências dos cubanos-americanos até a ilha. Seria difícil fazê-lo sem também retirar as restrições sobre os intercâmbios universitários. Antes do endurecimento da administração Bush em 2003, existiam centenas de programas de intercâmbio acadêmico, que poderiam ser retomados. Poderiam ser concedidos novamente vistos a universitários cubanos para participar de conferências nos Estados Unidos.

E a retirada do embargo pedida por todos os países da América Latina e do Caribe?

A retirada do embargo levará mais tempo, pois ela requer a aprovação do Congresso e a negociação de acordos relativos aos bens que foram nacionalizados pelas autoridades revolucionárias. É uma questão complicada que não pode ser resolvida com uma simples anulação.
A evolução da comunidade cubano-americana, agora favorável ao fim do embargo, segundo recentes pesquisas, é um elemento que vai acelerar o processo. Mas não acho que o embargo será retirado antes do fim do primeiro mandato de Barack Obama, o que permitirá então haver relações normais entre Cuba e os Estados Unidos.

Raúl Castro se disse preparado a encontrar Barack Obama em um ambiente neutro.

Um encontro entre os presidentes Obama e Castro poderia acontecer rapidamente, mas ele não resultará na retirada do embargo.
Raúl Castro propôs libertar prisioneiros políticos em troca da libertação de cinco cubanos condenados por espionagem nos Estados Unidos e considerados como heróis na ilha. Obama poderia anistiá-los. Eles já passaram dez anos na prisão sob a única acusação de serem agentes de um governo estrangeiro.

A revolução cubana ainda possui um futuro?

Sim, se ela conseguir evoluir para uma sociedade mais aberta. Muitos cubanos gostariam de ter mais liberdades e menos restrições, sem sacrificar o acesso ao sistema de saúde e à educação. No plano político, o regime de partido único poderia evoluir para um sistema mais aberto após a morte de Castro.

* Wayne Smith é professor de estudos latino-americanos na Universidade Johns Hopkins (Maryland)

Tradução: Lana Lim

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