UOL Notícias Internacional
 

02/01/2009

No Burundi, albinos são mortos por superstição

Le Monde
Pierre Lepidi
Do Le Monde
Em Bujumbara
Naquela noite, as machadinhas estavam afiadas. "Sete bandidos invadiram minha casa", conta Nicodème Gahimbare, procurador de Ruyigi, província situada no leste de Burundi. "Três ameaçaram minha família com [fuzis] Kalashnikov, enquanto os outros quatro cortavam o albino, que ainda estava vivo. Eles começaram pelos braços, depois cortaram as pernas e finalmente a cabeça. Um deles recolheu o sangue em um latão... Depois foram embora, deixando no lugar o que restou do corpo." Desde setembro, os albinos do Burundi são vítimas de uma caçada terrível, sórdida e insensata. Cinco assassinatos, cada um mais abominável que o outro, já foram cometidos. Homens ou mulheres, meninos ou meninas, os albinos se tornaram alvo de um mercado muito lucrativo.

São incontáveis as lendas africanas que cercam os albinos, vítimas de uma doença genética que se caracteriza pela ausência de pigmentação na pele, nos pêlos, nos cabelos e nos olhos. Semi-homens, semideuses, conforme a região, sua "brancura" poderia encerrar todo tipo de poder, benéfico ou maléfico. Em Camarões, no Mali e em outros países do continente, atribuem-se forças sobrenaturais às "crianças brancas" nascidas de pais negros. "Aqui, na região dos Grandes Lagos, somos considerados os filhos do sol, da fortuna", explica com ar decepcionado Cassim Kazungu, presidente da Associação dos Albinos do Burundi. "Alguns feiticeiros, principalmente originários da Tanzânia, contam que se misturarem nossos ossos e nosso sangue em certas poções mágicas, serão capazes de confeccionar amuletos para obter ouro, sorte ou a eterna juventude. Somos assassinados por causa de histórias de feitiçaria..."

Foi nas margens do lago Vitória que essas lendas surgiram. Ao redor do maior lago africano, conta-se, por exemplo, que despejar o sangue de albinos em uma mina de ouro faria as pepitas aflorarem, sem necessidade de escavar a terra. Entre os pescadores, afirma-se que remexer a água com um braço ou uma perna arrancados de um albino permitiria apanhar grandes peixes, com a barriga cheia de ouro...

Enquanto isso, a isca do lucro atrai esses massacres humanos. "Um dos bandidos que foi preso depois de um assassinato disse que haviam lhe prometido 1 milhão de francos burundineses (650 euros)", explica Kazungu. "A pele dos albinos vale uma fortuna, e estamos em um país onde as pessoas têm fome... O governo deveria tomar medidas muito severas contra os matadores." Dois homens já foram condenados à pena capital, mas esta será abolida, o que aumenta a angústia dos albinos.

Nas margens do lago Tanganica, onde a expectativa de vida é de 43 anos, cujo índice de desenvolvimento humano (IDH) classifica o país no 169º lugar mundial (de 177), a guerra civil entre as etnias hutu e tutsi, entre 1993 e 2006, deixou cerca de 300 mil mortos. A tensão étnica hoje diminuiu e, dia após dia, a paz avança. Na quinta-feira (4), um acordo de cessar-fogo com todos os outros movimentos rebeldes de 2006 foi assinado entre o governo e as FNL (Forças Nacionais de Libertação), o último grupo em atividade. Mas os massacres étnicos deixaram seqüelas irreversíveis, imensuráveis, e uma economia em frangalhos. À noite, em alguns bairros de Bujumbura, a capital, conta-se que bastam "10 mil francos locais" (6,50 euros) para comprar a vida de um homem.

Foi na Tanzânia, país de 40 milhões de habitantes vizinho de Burundi, a leste, que se cometeram os primeiros assassinatos. Desde o início do ano já são cerca de 30, que alimentam redes dirigidas por alguns notáveis. O Parlamento Europeu aprovou em 3 de setembro uma resolução condenando "vigorosamente" o assassinato de albinos nesse país.

As autoridades tanzanianas tomaram medidas de proteção, como a instauração de um recenseamento e a implementação de um serviço de acompanhamento para crianças que vão à escola. O governo anunciou principalmente que sanções muito severas, que chegam à pena de morte, serão tomadas contra qualquer pessoa envolvida nesses crimes rituais. Alguns traficantes e cerca de 50 feiticeiros teriam sido detidos.

O surgimento dessa perseguição em Burundi poderia ser conseqüência das medidas adotadas na Tanzânia. As fronteiras são porosas, sobretudo quando os tráficos geram quantias colossais... "O governo tanzaniano agiu rapidamente e tornou o assassinato de albinos passível de pena máxima", declarou Olalekan Ajia, responsável pela Unicef em Burundi, em 19 de novembro. "Os feiticeiros e outros charlatães partiram imediatamente para Burundi." A volta de 100 mil refugiados burundineses que viviam em campos ao longo da fronteira, na Tanzânia, é outra hipótese apresentada.

Até então poupado, Burundi, que tem cerca de 150 albinos em uma população de 8 milhões, lamenta hoje cinco assassinados e um desaparecido. No início de dezembro, um homem em traje militar armado de uma machadinha tentou uma agressão. Ele foi detido pelo pai do albino, que ficou seriamente ferido. Linchado pelos moradores da aldeia, o agressor morreu no dia seguinte.

Os albinos de Burundi vivem com medo. "Eu não saio mais de casa, porque apesar de a capital estar livre disso por enquanto eu me sinto inseguro", afirma Pascal, 28 anos, morador de Bujumbura. "Mas sou obrigado a fazer compras... Na rua, as pessoas dizem ao me ver: 'Olhe o pacote de dinheiro ambulante!' Outras param o carro ao meu lado e me ameaçam: 'Você vale o equivalente a três caminhonetes, vamos picá-lo em pedaços...' Vivemos um verdadeiro pesadelo."

Algumas ruas depois, Nathalie, 25 anos, também não está tranqüila. "A situação é muito difícil e sinto medo", ela diz. "Mas tenho mais preocupação pelos que vivem fora da capital." Nada detém os assassinos. Para cortar os membros de uma adolescente de 16 anos, morta alguns dias antes, alguns chegaram a desenterrar seu cadáver duas vezes.

Quando os primeiros assassinatos foram cometidos, na região de Ruyigi, entre Bujumbura e a fronteira da Tanzânia, o procurador da província, Nicodème Gahimbare, percorreu a região para propor aos albinos que se abrigassem em sua casa. O homem assumiu riscos para garantir a proteção deles. Pagou do próprio bolso. "Realmente era preciso fazer alguma coisa por essas pessoas", ele diz. "As atrocidades dos ataques se propagavam pelas aldeias, e elas viviam cada vez mais angustiadas! Lembro que em uma mesma família houve quatro mortes! Mais adiante, um padre aceitou que eu lhe entregasse alguns... Durante uma semana hospedei oito. Logo chegamos a 20. Eles vinham de quase todas as aldeias ao redor..."

O governo então se dedicou a sua sorte. As ONGs, os poderes públicos e a comunidade internacional se mobilizaram. A embaixada da França foi uma das primeiras a reagir, enviando víveres e colchões para a residência. A UE mandou para Ruyigi roupas e chapéus para proteger sua pele, na qual se formam crostas depois de exposições prolongadas ao sol. "Eles viviam em condições de higiene deploráveis", afirma um francês que fez algumas visitas a Ruyigi com fins humanitários. "A casa, que não tinha água nem eletricidade, possuía apenas três quartos, onde contei 34 albinos..."

No início de dezembro, uma nova residência foi encontrada. Ainda não tem água nem eletricidade, mas é mais espaçosa, pois conta com dez quartos. Ali estão 39 "filhos do sol", de 6 meses a 62 anos, mais seis acompanhantes (pais, irmãos ou irmãs). O aluguel é pago pelo governo e não mais pela Associação dos Albinos, "cujas contas estão totalmente vazias", explica o presidente.

O Estado se comprometeu a pagar oito policiais, contra quatro anteriores, para garantir a segurança da casa. "Pensamos que a situação duraria alguns meses, mas ela continua", lamenta Nicodème Gahimbare. "Um jovem albino que voltou para sua aldeia foi atacado em sua própria casa. Os que estão sob nossa proteção têm tanto medo de voltar que não querem mais sair daqui..."

O governo burundinês, com o apoio da comunidade internacional, acaba de lançar várias campanhas de sensibilização através do país. Mas se vai levar tempo para ensinar tolerância, levará ainda mais para abolir as superstições. "Antigamente, diziam que um albino filho de pais negros era portador de infelicidade, pois era filho de uma mãe infiel", diz Kazungu. "Ele era rejeitado e vivia como um marginal, abandonado. Hoje as pessoas acreditam que trazemos sorte. Por isso nos massacram!"

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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