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06/01/2009

Uma mesquita muito feminina em Istambul

Le Monde
Guillaume Perrier
Do Le Monde
Em Istambul
O domo em composto de alumínio e os minaretes realçados estão terminados, assim como o corredor pavimentado no meio do qual triunfa uma curiosa bola metálica na qual se reflete todo o edifício. "As escadas da entrada são pequenas demais, é preciso algo mais espaçoso, para oferecer uma recepção mais agradável", mostra Zeynep Fadillioglu, cuidadosa.

A surpreendente mesquita Sakirin, construída em um bairro comercial da parte asiática de Istambul, está quase pronta. "Ainda faltam alguns detalhes burocráticos para acertar", suspira a decoradora, uma elegante quinquagenária que construiu uma reputação internacional. Essa mesquita em gestação já chama a atenção: é a primeira na Turquia a ser concebida e decorada por uma mulher. "Até onde sei, não existem outras do tipo no mundo". Sua equipe também é feminina em sua maioria. Cartas de mulheres muçulmanas já chegam a ela de toda a Turquia, aplaudindo essa empreitada. O lugar de oração deve ser aberto ao público na primavera, depois que passarem as eleições municipais do mês de março. "Não quero que esse projeto seja utilizado politicamente por uns e outros", explica.

Até então, Zeynep Fadillioglu era conhecida, sobretudo, por ter reformado propriedades de famílias ricas de Istambul ou restaurantes da moda nos bairros chiques da megalópole que cavalga o Bósforo. A "Brasserie" de Nisantasi e seu interior todo em espelhos, ou ainda o Ulus 29, um restaurante com vista sobre o Bósforo, onde se cruzam homens de negócios e estrelas locais da música, figuram entre suas realizações.

Os dois estabelecimentos pertencem a seu marido, Metin Fadillioglu, um dos pioneiros da indústria da noite de Istambul. Há 25 anos o casal cria lugares sofisticados e exportou sua marca para a Europa. Em 2002, eles abriram um restaurante de cozinha turca em Londres, o Chintamani, que permitiu a Zeynep Fadillioglu que se tornasse conhecida e obtivesse vários prêmios reconhecidos na profissão.

Puro produto da aristocracia laica de Istambul, a sra. Fadillioglu admite ter chorado quando lhe confiaram o projeto de uma mesquita. Criada em uma yali, as luxuosas casas otomanas de madeira dispostas ao longo do Bósforo, neta de um colecionador de arte, ela estudou informática e design na Grã-Bretanha... Ela se diz "muçulmana em sua identidade", e passa de vez em quando em uma mesquita para se recolher.

Foi a riquíssima família turco-saudita Sakir, instalada em Londres, que encarregou a arquiteta de interiores de desenhar uma mesquita. Uma família de estetas, que reuniu um tesouro em telas impressionistas francesas, e uma das mais ricas coleções particulares de arte islâmica e de cerâmicas de Iznik. Em uma leilão na Sotheby's em Londres, ela adquiriu recentemente, por quase um milhão de dólares, um tecido precioso que recobria a Kaaba, em Meca. Um pequeno museu será vizinho da mesquita e abrigará algumas dessas peças.

"Eles haviam construído escolas, hospitais, asilos... As crianças queriam uma mesquita", conta a sra. Fadillioglu, que já trabalhara em uma de suas casas em Istambul. "Nós queríamos algo contemporâneo, sem ser, no entanto, audacioso demais e sem ser rejeitado pelo público", ela resume. Ela se informa, consulta o teólogo Hüseyin Atay, se cerca de artistas renomados, "associando sempre a escola clássica e a escola moderna". O britânico William Pye e o chinês Arnold Chan, especialista em iluminação, também trouxeram suas contribuições. O resultado é surpreendente.

A estética islâmica, ela lamenta, desapareceu desde Mimar Sinan, genial arquiteto imperial de origem armênia, e autor, no século XVI, de alguns esplendores otomanos como a mesquita de Soliman. "Gosto muito das mesquitas pela estética. Há muita criatividade no Islã, e as pessoas merecem um ambiente bonito", diz ela. Por trás de uma silhueta clássica, envolta por moucharabiehs modernos, o interior da mesquita provoca um choque visual. A mistura de metal e de vidro, de desenhos tradicionais e de formas vanguardistas maravilha o visitante. O mihrab, que indica a direção de Meca, é azul-turquesa, grande e arredondado, em forma de concha. Do lustre em espirais escorre uma cascata de versículos do Corão e de gotas d'água. "Os versículos correm ao longo das paredes e formam uma espécie de invólucro para as pessoas que estão no interior", descreve a sra. Fadillioglu, entusiasmada. Eu perguntei a um califa, ele me disse: "Por que não?"

"A administração das questões religiosas apoia o projeto" e "o mufti de Istambul apreciou muito", garante a decoradora, que confessa ter tido "um pouco de medo pelo mihrab". O califa calígrafo que foi consultado reconhece ter ficado surpreso de ver desembarcar "uma decoradora do jet-set", mas estima que "nenhum muçulmano pode criticar este projeto".

No balcão, a parte reservada às mulheres é arejada, menos isolada que na maior parte das mesquitas turcas. A separação com os homens será um pouco menos rígida. "Quando visito mesquitas, às vezes as mulheres ficam em um canto perto dos banheiros". Esse lugar de preces, mais "feminino", "pode dar um impulso à criação de novas mesquitas", segundo Zeynep Fadillioglu.

Tradução: Lana Lim Lana Lim

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