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07/01/2009

Boom imobiliário em uma favela argentina

Le Monde
Christine Legrand
Do Le Monde
A estrada com oito vias parecia uma fronteira intransponível entre ricos e pobres em Buenos Aires. No entanto, a maior favela da capital argentina, conhecida como Villa 31 ou Villa Retiro, não para de aumentar. Sua particularidade está em sua localização no centro da cidade, à margem da elegante avenida Libertador, aos pés do Hotel Sheraton. "É prático", explica Monica Bermejo. A jovial sexagenária vive ali há 30 anos com seus seis filhos e seu marido, pedreiro. Ela faz faxinas nos escritórios na cidade. Ela fica feliz por não ter de utilizar transporte coletivo.

Mais de 30 mil pessoas vivem nos 15 hectares em terra batida. Estima-se que há 20% mais habitantes do que há um ano. Apesar do crescimento espetacular da Argentina nos últimos anos, a pobreza não desapareceu. Essa demografia galopante acarreta um boom imobiliário sem precedentes. Novas construções precárias surgem a cada dia. Por falta de espaço, elas se erguem verticalmente, cada vez mais alto. Algumas atingem 4, 5, até 6 andares. Cada um é livre para construir o que quiser em seu terreno, desafiando qualquer regra de arquitetura.

Nos cômodos mal arejados, as camas estão jogadas no chão. Monica e seu marido alugam quartos para argentinos, mas também para imigrantes de países vizinhos, mais pobres. Bolivianos, peruanos e paraguaios que encontram trabalho clandestino, perto da Villa 31. O aluguel de uma simples cama custa entre 80 e 100 euros por mês. O salário mínimo é de 300 euros. "É caro, mas é o que eu gastaria em transporte se morasse fora de Buenos Aires", nota Mario Soto, um peruano que encontrou seu aluguel lendo os classificados de um jornal em Lima.

"Muitas pessoas deixaram os hotéis ou as pensões onde viviam por falta de meios, por causa do aumento de aluguéis e, em geral, do valor da propriedade em Buenos Aires", explica a antropóloga Maria Cristina Cravino. Esse mercado negro de aluguel de quartos e de venda de terrenos provoca regularmente brigas entre os representantes históricos da favela e os recém-chegados, acusados de se instalarem sem autorização.

O prefeito de Buenos Aires, Mauricio Macri, um empresário de direita eleito em 2007, denuncia esse crescimento desordenado e a insegurança que ameaça os habitantes. Ele não possui nenhum controle sobre a favela, pois o terreno pertence ao Estado e portanto ao governo nacional. "O problema é político", estima-se na prefeitura, onde as relações são difíceis com o governo peronista da presidente Cristina Kirchner.

"As construções se apóiam umas nas outras em um perigoso equilíbrio, e é suficiente que uma delas desmorone para desencadear um efeito dominó", adverte o arquiteto Juan Carlos Poli. A pedido do prefeito, este profissional renomado passou quase um mês na Villa 31. Ele conta, rindo, ter se disfarçado de desratizador - macacão cinza e bomba nas costas - para circular incógnito pelo labirinto de ruelas de terra que ficam inundadas em dias de chuva.

Tomando notas e tirando fotos, ele catalogou 56 conjuntos de casas, por volta de 600 construções, das quais umas 60 correm risco de desmoronamento. Ele constatou que em um mês surgiram 90 novas casas, se infiltrando sob os pilares da rodovia. Na seqüência de sua pesquisa, a justiça ordenou que a polícia militar e a prefeitura controlassem a favela para impedir a entrada de material de construção.

À tradicional Villa 31 veio se juntar, nos últimos anos, à 31 bis, ao longo dos trilhos da ferroviária de Retiro. As diferentes comunidades reagrupadas por nacionalidade vivem geralmente em paz. Ninguém quer deixar esse verdadeiro bairro, muito bem organizado, com suas pequenas lojas, suas cantinas comunitárias e seus campos de futebol. Um lugar estratégico é a capela onde está enterrado o mítico Padre Carlos Mujica, um padre operário que defendia os pobres e que foi assassinado em 1974 por grupos paramilitares.

Os moradores da Villa 31 estão em pé de guerra. Há algumas semanas, centenas deles fizeram uma manifestação bloqueando a estrada durante várias horas, provocando engarrafamentos monstruosos. Eles desconfiam que o prefeito de Buenos Aires queira despejá-los. "Mauricio Macri fala de insegurança, mas na verdade ele sonha em recuperar um terreno que potencialmente vale ouro por causa de sua localização", denuncia um representante. Ele acrescenta que "seria o projeto imobiliário do século para os investidores".

No passado, diversos governos tentaram em vão recuperar a favela, surgida durante a crise dos anos 1930. Às vezes de forma violenta, como durante a ditadura militar (1976-1983). "Os militares, ao cair da noite, obrigavam as pessoas a subirem nos caminhões que as levavam para fora da capital", recorda Miguel Soto, que mantém uma pequena mercearia. Em seguida vinham as escavadeiras. No entanto, cerca de 40 famílias permaneceram. Desde a volta da democracia, a favela não parou de se repovoar. A propriedade poderia atingir US$ 6 mil por metro quadrado, um recorde em Buenos Aires.

Tradução: Lana Lim Lana Lim

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