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08/01/2009

"O desenvolvimento acelera as migrações", diz especialista

Le Monde
Laetitia Van Eeckhout
Do Le Monde
Em entrevista ao "Le Monde", Catherine Wihtol de Wenden, do Centro de Estudos e Pesquisas Internacionais, afirma que o desenvolvimento acelera as migrações. No novo Atlas mundial das migrações que ela acaba de criar (Ed. Autrement), Catherine demonstra como os deslocamentos de população se globalizam e sobretudo mudam de natureza.

Le Monde: O que caracteriza hoje em dia as migrações?

Catherine Wihtol de Wenden:
O que espanta, agora, é a universalidade do fenômeno migratório. Todas as regiões do mundo se preocupam com a partida, a chegada ou o trânsito de migrantes. Com o aceleramento da globalização, a circulação de capital, o desenvolvimento das tecnologias da comunicação, a urbanização rápida de países do Sul, a mobilidade das populações cresce. Mesmo nos recantos mais isolados, as pessoas estão em uma realidade migratória forte, estando todas mais ou menos conectadas ao mundo pela televisão e Internet. Cada vez mais elas recusam o determinismo que consiste em permanecer nos países que eles consideram sem futuro. Porque eles sabem que se pode viver melhor, trabalhar, ter cuidados em outros lugares.

Os indivíduos são cada vez mais agentes de sua mobilidade, e mais simplesmente movimentados por empresas que procuram mão-de-obra. Eles tomam mais as rédeas das coisas, decidem não ficar a vida inteira esperando uma melhora hipotética. Fato novo, observa-se um distanciamento cada vez mais forte dos imigrantes em relação a seu Estado de origem, de quem eles sabem, hoje em dia, que não podem, por assim dizer, esperar mais nada, quando ele é corrompido e que a exploração das matérias-primas é feita por outros.

Le Monde: As migrações continuam sendo movimentos do Sul ao Norte?

CWW:
Não, as migrações Sul-Sul também são - se não mais - importantes. Presentes em todo o mundo, os asiáticos migram muito também dentro da própria Ásia, em direção à Coreia do Sul, ao Japão, à Malásia, a Taiwan e a Cingapura. Também na África, as migrações para os países do Golfo, principalmente, e vindos do Magreb ou do Egito, são crescentes. A atração da África do Sul é igualmente crescente. Antigos países de emigração se tornaram países de chegada: é o caso do sul da Europa, mas também do México, da Turquia, do Marrocos, que continuam sendo países de partida ao mesmo tempo em que se tornam países de trânsito, onde são obrigados a parar aqueles que não conseguem ir mais longe.

Le Monde: Essa realidade mudou a abordagem da migração pelos Estados?

CWW:
Os países de partida e de chegada mudaram sua visão sobre a migração e é outro novo elemento. Por muito tempo consideradas pouco produtivas, as transferências de fundos se tornaram um fator essencial do desenvolvimento dos países de origem. Em uma década, essas remessas triplicaram para atingir US$ 300 bilhões em 2007, ou seja, três vezes maior que o auxílio ao desenvolvimento (105 bilhões). Essas transferências são o único recurso verdadeiro que permite às pessoas em seus países que tenham água, eletricidade, escola, e acesso a um mínimo de consumo.

Le Monde: A visão dos Estados de chegada está evoluindo?

CWW:
A queda demográfica é um fator poderoso de tomada de consciência para as nações desenvolvidas: elas precisam ao mesmo tempo substituir sua população que envelhece e desenvolver empregos respondendo a esse envelhecimento. Daí a competição à qual se dedicam os países desenvolvidos para atrair os migrantes muito qualificados. Mas ao mesmo tempo, eles persistem na ideia de que é preciso fechar as fronteiras aos outros, mesmo que suas necessidades de mão-de-obra pouco qualificada também sejam, se não mais, importantes. Escassez de mão-de-obra existe em todo lugar na construção, na agricultura, nos serviços. A Europa ilustra bem essas contradições: ela procura ao mesmo tempo manter suas fronteiras fechadas a uns e entreabri-las a outros, tudo sob controle de uma opinião pública utilizada como árbitro da manutenção de medidas repressivas.

Le Monde: O desenvolvimento não freia a migração?

CWW:
Ao contrário do que continuam a pensar os países de chegada, o desenvolvimento não é uma alternativa à migração, ele não breca a migração: pelo contrário, ele a acelera, pois cria novas necessidades, as pessoas têm acesso à sociedade de consumo, a mais escolarização. O modelo da Espanha, de Portugal ou da Itália, cujo desenvolvimento parou a migração, não é um modelo mundial. Hoje, em muitos países de partida, na China, na África, na América Latina, o desenvolvimento e a migração funcionam paralelamente.

Para evitar a sedentarização, os países do Norte continuam desenvolvendo políticas de ajuda para o retorno e o codesenvolvimento. Mas a circulação funciona melhor à medida que os migrantes adquirem um verdadeiro status de residentes, com vistos de entradas múltiplas ou dupla nacionalidade. Quanto mais as fronteiras se abrem, mais eles circulam. A União pelo Mediterrâneo poderia ter sido a ocasião de criar um espaço de circulação euro-mediterrânea. Mas as migrações não foram inscritas como prioridade, ainda que os vistos sejam uma preocupação recorrente dos países de sua margem sul.

Tradução: Lana Lim

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