UOL Notícias Internacional
 

08/01/2009

"Poucas pessoas fora de Gaza conseguem medir o horror da situação", diz John Ging, responsável pela ONU em Gaza

Le Monde
Soren Seelow
Do Le Monde
John Ging é responsável pelas operações da UNRWA (agência da ONU encarregada dos refugiados palestinos) em Gaza há três anos. Para as vítimas dos bombardeios, na terça-feira, de uma escola dirigida pela ONU, assim como para o conjunto de vítimas civis desse conflito, ele espera que um inquérito independente permita estabelecer as responsabilidades.

Le Monde: O sr. pode descrever a situação em Gaza?

John Ging:
A situação é atroz. Os habitantes acabam de viver doze dias de bombardeios incessantes. Ninguém está seguro, em nenhum lugar. Mais de 600 pessoas morreram e 3 mil foram feridas, e isso continua. Sem contar que faltam para a população todos os produtos de primeira necessidade, como comida ou água. Os hospitais estão lotados, faltam medicamentos. A situação é realmente desesperadora. Mas as pessoas mostram uma grande dignidade em uma situação das mais indignas.

Le Monde: Israel começou, na quarta-feira, a abrir corredores humanitários três horas por dia. Isso melhorou a situação?

John Ging:
Os pontos de passagem estão abertos hoje assim como eles estavam ontem e anteontem. O que mudou é que eles interromperam suas operações militares por três horas, para permitir às pessoas que saíssem de suas casas para procurar água e comida.

Le Monde: Isso não lhe permitiu então de atender às necessidades mais urgentes da população?

John Ging:
Nosso trabalho aqui não cessou durante os bombardeios. Mas o que você quer fazer em tão pouco tempo? Então nós temos três horas para fazer o que normalmente nos toma doze horas por dia, seis dias por semana, e que não pudemos fazer há doze dias. Os caminhões que trazem os bens de primeira necessidade devem ser carregados, dirigidos, descarregados... Para trazer esses caminhões até Gaza hoje nós começamos às 7 horas da manhã, e a operação só terminou esta noite, doze horas mais tarde. É uma operação logística muito importante. Não se pode deixar distrair por essa bonita palavra "corredor", essas belas imagens de comboios, não é assim que as coisas acontecem. Os soldados israelenses param suas operações durante três horas, é tudo, nada mais.

Le Monde: Um comunicado de sua agência relata as questões de médicos, segundo os quais 50% dos feridos desde o início do conflito são civis. O sr. confirma esses números?

John Ging:
Eu não posso confirmar esses números antecipadamente. Será preciso realizar um inquérito independente para estabelecer os fatos, e só então teremos o balanço exato. Mas é evidente que muitos civis foram mortos aqui e agora. Será preciso que as responsabilidades sejam estabelecidas, porque se a guerra não for regulada pela lei, como determina a Convenção de Genebra, é a lei do fuzil, e essa é a maneira como os extremistas e os terroristas conduzem suas operações. Nós devemos então garantir que, mesmo em tempos de guerra, a lei seja respeitada. A lei diz que os civis devem ser protegidos. Se eles morrem, é porque existe um problema. Será preciso determinar de quem é a responsabilidade.

Le Monde: O sr. pediu a abertura de um inquérito internacional após o bombardeio de uma escola dirigida pela ONU. O que aconteceu, exatamente?

John Ging:
Havia 350 famílias de refugiados lá dentro, e tiros em volta de toda a escola. Quarenta pessoas morreram, 55 foram feridas, quase exclusivamente civis. É preciso determinar o que aconteceu. Israel afirma que militantes atiravam a partir da escola. Mas nós, nas Nações Unidas, estamos convencidos de que não foi o caso, pois essas escolas estão sob nosso controle. Nosso pessoal é encarregado de verificar que nenhum combatente se abrigue lá e que não haja nenhum tiro saído da escola. Confio em nossa equipe, mas se aqueles que nos acusam têm provas daquilo que apresentam, que eles as mostrem e nós agiremos adequadamente.

Le Monde: Israel vai enviar ao Cairo, na quinta-feira, um emissário para discutir uma trégua aos combates. Um cessar-fogo lhe parece possível nos próximos dias?

John Ging:
Nós devemos manter a esperança de que ele intervirá o mais rápido possível. O problema é que poucas pessoas fora de Gaza conseguem medir o horror da situação aqui. Visto de fora, pode parecer razoável esperar dois ou três dias a mais, mas aqui, as pessoas morrem por nada a cada hora. Já que sabemos que tudo isso terá uma conclusão política, e não militar, por que não cessar as violências imediatamente?

Tradução: Lana Lim

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