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09/01/2009

Traficantes, showbiz e telenovelas

Le Monde
Joëlle Stolz
Do Le Monde
Em Desierto de los Leones (México)
Uma vila de um luxo escandaloso, povoada com machos de ombros largos e loiras voluptuosas: trata-se de um cenário de telenovela, esses relaxantes folhetins mexicanos exportados para o mundo inteiro? Ou da residência de um traficante que aproveita a vida enquanto é tempo? Mas talvez o mesmo lugar sirva indiferentemente nos dois casos. A mistura de universos visuais opostos, o do sonho e do crime, sempre se torna mais inquietante para uma sociedade mexicana desnorteada pela violência.

Entre as duas, as fronteiras parecem se confundir. Há um ano a polícia federal mexicana vasculhou, no sul da capital, casas ocupadas por membros do cartel dos irmãos Beltran Leyva. Em uma delas, ela topou com um arsenal. O inquilino oficial era um testa-de-ferro do cartel - e o fiador do contrato, um ator de telenovelas. Uma outra vilasituada no elegante bairro de San Angel, oásis de uma burguesia esnobe, foi utilizada para a filmagem da novela "Cadenas de Amargura", antes de abrigar discretamente um bando de malfeitores armados até os dentes e seu laboratório de anfetaminas. "Se nós soubéssemos, teríamos mudado o roteiro e feito da tia Evangelina (um dos personagens principais) uma rainha da droga!", comentou o produtor da série, Carlos Sotomayor.

A novela "Rubi", interpretada por Bárbara Mori, uma das estrelas do gênero, foi filmada em uma vila dos Jardins de Pedregal - bairro chique do sul do México - , que foi habitada por um chefão colombiano, como se descobriu durante o verão de 2008. "A mistura de personagens do meio do show-business com os do tráfico de drogas começa a alarmar as autoridades policiais", relata Roberto Zamarripa, diretor da redação do jornal Reforma. Segundo ele, agora os investigadores especializados no crime organizado examinam as revistas de fofoca e artigos sobre eventos sociais - sempre muito ilustrados - , pois alguns desses convidados sorridentes podem passar para a categoria de réus em menos tempo do que é necessário para assistir a um episódio na televisão.

Ser rainha da beleza pode ser útil para fazer sua estreia na telinha. Mas em certas regiões do México, também leva a se expor para a tentação dos barões do crime, como prova a desventura da Miss Sinaloa 2008. Laura Elena Zuñiga sonhava com uma carreira de modelo: ela foi detida na véspera do Natal perto de Guadalajara, em companhia de nove homens armados, supostos membros do cartel de Juarez. Eles declararam que iriam "fazer compras na Colômbia".

A "miss" algemada perdeu sua coroa; suas antigas concorrentes se entregam a confidências anônimas sobre as circunstâncias suspeitas de sua eleição, e sua mãe confessa, consternada: "Em Sinaloa, de uma forma ou de outra, todos vivem às custas dos traficantes". Mas o jornal La Jornada revela que 12 advogados se ofereceram para defender a bela, cujo eventual processo certamente agitará a imprensa.

Na interminável série "Traficantes, seu universo impiedoso", a palmeira vem, contudo, da "narcomansão (narco-villa) do Desierto de los Leones", um cenário arrepiante para um roteiro de surpresas. O Deserto dos Leões é um parque nacional arborizado de pinheiros, na saída da capital, onde as famílias vão fazer piqueniques aos domingos. No dia 16 de outubro de 2008, homens das unidades de elite da polícia federal, de capacete e máscara, fizeram incursões em uma luxuosa casa de madeira esculpida, bem no meio de uma festa organizada pelo colombiano Harold Poveda, El Conejo (o Coelho), intermediário entre o cartel de Cali e o clã Beltran. A imprensa mexicana detalhou todos os charmes dessa residência: jardins exóticos, jacuzzi, spa em forma de gruta, salão de jogos, e sobretudo um incrível zoológico: cães de raça, chimpanzés, duas panteras negras, um leão e até um tigre branco.

Quinze pessoas foram então detidas. O filho da famosa atriz Silvia Pinal, o DJ Luis Guzman (cuja irmã, a cantora Alejandra Guzman, passa perto do mundo dos traficantes), se encontrava ali também para animar a festa, mas não está preocupado. Dois meses mais tarde, o jornal Reforma revela o que está por trás dessa espetacular operação: o chefe da polícia federal preventiva (PFP), Victor Garay, trabalhava, na verdade, para os Beltran Leyva e deixou escapar naquele dia o principal suspeito.

Uma vez fechado o local, ele aproveitou para furtar todo o dinheiro vivo e as jóias descobertas - uma colombiana afirma que havia mais de US$ 140 mil - , enviou seus homens para pilhar no centro da cidade os domicílios dos suspeitos, escolheu quatro mulheres entre as cerca de trinta prostitutas convidadas, e passou a noite inteira fechado com elas na gruta-spa, após ter exigido cocaína. "Chefe, não faça isso na frente de todo mundo!", suplicaram seus colegas, que acabaram contando sua "orgia" às autoridades. Desde então Victor Garay está na prisão. A novela continua.

Tradução: Lana Lim Lana Lim

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