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10/01/2009

Cidade russa é apontada como a "maior lixeira da Europa"

Le Monde
Alexandre Billette Em Salarievo (Rússia)
Os subúrbios chiques da capital russa não estão muito longe, e as datchas semeiam a paisagem em torno da vila situada a alguns quilômetros da rodovia periférica de Moscou. Atrás do pequeno cemitério adjacente ao vilarejo, uma estranha colina aponta, no entanto, em direção ao céu, e o cheiro pega a garganta apesar da distância de algumas centenas de metros.

Bem-vindo a Salarievo, a "maior lixeira da Europa", segundo os ecologistas russos. Particularidade deste depósito: ele funciona sem licença, mesmo se os caminhões repletos de lixo viajam diariamente para esvaziar sua carga. À entrada do depósito, um guarda devidamente empregado deixa passar os pesos pesados e desencoraja o visitante pouco provável. Mais de 500 veículos efetuam esse balé todos os dias.

É um exemplo que ilustra a administração caótica dos resíduos da megalópole russa, que conta oficialmente 10 milhões de habitantes. Chacoalhada pela urbanização galopante, ultrapassada pelo consumo crescente de uma classe média cada vez mais numerosa, a administração municipal da capital, de quem desobriga a administração dos resíduos, não parece conseguir lidar com a situação.

"A questão do lixo é um dos problemas ambientais mais graves da Rússia pós-soviética", garante Oleg Mitvol, ele mesmo vice-diretor da Agência Federal de Proteção Ambiental, mas famoso pela sua franqueza. "A Rússia acumulou sobre seu território 70 bilhões de toneladas de resíduos, mas ainda não desenvolvemos uma estratégia coerente: as tecnologias empregadas são ultrapassadas, a administração se faz de maneira totalmente desorganizada, e a corrupção reina alegremente. (...) Por que quebrar a cabeça incinerando legalmente, e a um preço elevado, uma carga de lixo, se pagando um pequeno suborno os inspetores lhe deixarão descarregar onde você bem quiser?", pergunta Oleg Mitvol. Em 2005, segundo os números oficiais da região de Moscou, 158 descarregamentos ilegais foram registrados nos arredores da capital.

Um funcionário municipal também lembra, anonimamente, as condições opacas da gestão do lixo pela prefeitura de Moscou, "É um negócio muito rentável, o lixo... a administração municipal dividiu a cidade em 125 setores para coletar e transportar os resíduos. Foram lançadas em seguida o mesmo tanto de licitações, obtidas por mais de 75 companhias. Cada empresa responsável por um setor tenta em seguida dispensar seu lixo o mais rápido possível e ao menor custo.... Os depósitos selvagens ainda têm o auge pela frente", assegura ele.

E o volume de dejetos a serem tratados aumenta sem parar. "Os moscovitas produziram 3 milhões de dejetos domésticos no ano passado, e as empresas, 6 milhões de toneladas de dejetos, calcula Alexeï Kiselev, da associação ecologista Greenpeace Rússia. A quantidade aumentou em média 10% por ano nos cinco últimos anos, ao passo que a administração municipal se contenta em aumentar o número de usinas de incineração, é claramente insuficiente! É preciso também mudar os métodos e promover a reciclagem para não sermos soterrados pelo lixo daqui a cinco anos!"

A cidade de Moscou pretende de fato construir seis novas usinas de incineração até 2014. Em seus luxuosos escritórios do centro de Moscou, Igor Gergel, o presidente de Mosekostroï, a empresa estatizada responsável por essas usinas, apresenta as fotos das futuras instalações. Normas ambientais superiores, seguidas de basculantes de lixo com GPS para evitar os descarregamentos selvagens de dejetos...

"Esses ecologistas não viram nossas usinas, eles não entendem nada", se enfurece o diretor da usina. "Em 2008, mais de 2500 usinas de incineração foram construídas no mundo, então onde está o problema? O que é certo, é que em 2014 nós poderemos garantir o tratamento de 100% dos resíduos produzidos pelos moscovitas", garante Igor Gergel.

Um entusiasmo que não é compartilhado por todos. "Se a administração se contenta em construir essas seis novas usinas, nós podemos muito bem nos encontrar em 2014 na situação de Nápoles no ano passado, com ruas cobertas de lixo por falta de lugar onde enterrá-lo ou queimá-lo", avisa Alexei Kiselev.

A "síndrome napolitana"? Um exemplo preocupante evocado por diversas publicações especializadas e na Internet russa. A cidade de Moscou teria também subestimado o crescimento do volume de lixo da cidade, tornando nulas as estimativas para 2014. "Apesar dessas novas usinas, deverá haver um excesso de 1 milhão de toneladas de lixo em Moscou a partir de 2015", lança o militante ecologista. Ironicamente, talvez a crise econômica possa reabsorver parcialmente o problema... Se o consumo diminuir, o mesmo também acontecerá com a produção de lixo.

Tradução: Lana Lim

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