UOL Notícias Internacional
 

10/01/2009

Kaliningrado: os circuitos do âmbar

Le Monde
Piotr Smolar Enviado especial à região de Kaliningrado (Rússia)
Sabemos que não é mais noite, mas não se tem certeza se é dia. Um vento glacial ataca o vilarejo costeiro de Iantarny, à beira do mar Báltico. O cinza-algodão do céu cobre o cinza profundo do mar. Andrei Podvoiski, 39 anos, vai fazer algumas compras; ele tem o ar cansado e as pálpebras pesadas. Até as 3 horas da manhã, protegido por um macacão especial para enfrentar a água fria, esse operário da construção percorreu a beira do mar, com uma rede na mão, à procura de pedaços de âmbar. Nas noites favoráveis, são uma centena como ele que descem à praia de carro. Desta vez, infelizmente, os ventos não foram fortes o suficiente para dar a Andrei um complemento à sua renda.

Situada a 50 km ao norte de Kaliningrado, no enclave russo em pleno continente europeu - espremido entre a Polônia e a Lituânia - , Iantarny recebe seu nome de iantar, âmbar. Sabe-se pouco, mas 90% da extração mundial dessa pedra luminosa, resina fóssil de cores extremamente diversas, proveniente do vilarejo local. É feita em torno de uma enorme pedreira a céu aberto, vasta paisagem lunar úmida, revirada pelas escavadeiras.

Andrei trabalhou ali nos anos 1990 como joalheiro, transformando a matéria-bruta em belos objetos emoldurados em ouro ou prata. Seu pai fez ali toda sua carreira. "Naquele tempo, o conglomerado sustentava todo o vilarejo, explica Andrei Podvoiski. Você sabia que, na pior das hipóteses, você sempre poderia encontrar trabalho lá".

As coisas mudaram bastante. Nos anos 1990, o local se arruinou. Demissões. Redução da produção. Equipamentos deteriorados. Roubos generalizados. A imprensa local contou muitas vezes histórias de empregados furtando todos os dias pequenas quantidades de âmbar. Uma compensação pelos seus salários miseráveis, que eles atribuíam a si mesmos. Eles revendiam os pedaços a comerciantes locais ou para o exterior, na Polônia e na Lituânia, países com muito apetite pelo âmbar. As direções se alternaram no topo desse monopólio, criado em 1947, colocado sob a autoridade de Moscou, por meio do ministério das finanças. Um processo de privatização foi lançado, e depois contestado na justiça. O poder federal terminou por manter o controle sobre a preciosa resina.

Em 2003, um dos diretores, em um acesso virtuoso, decidiu empregar um serviço de segurança privada, cujos membros não deveriam jamais permanecer muito tempo no posto, por medo que sua vigilância enfraquecesse. Os controles nas fronteiras foram reforçados. Do ponto de vista geral, os tráficos diminuíram bastante, ao nível dos empregados. Eles ainda são em 870 a trabalhar no meio de três setores: a extração, a venda do âmbar bruto e a joalheria. Mas quem controla os controladores?

É impossível penetrar nos meandros financeiros do local. Sabe-se apenas, dizem várias fontes, que a produção oficial (280 toneladas em 2007) seria bem inferior à realidade. Mas o mais espantoso, até mais chocante, é o estado do vilarejo, ao qual sua posição monopolística deveria garantir receitas confortáveis e infra-estruturas modernas. Nada disso. Os equipamentos de joalheria, a ponto de serem trocados, datam de...1956!

A fachada do prédio administrativo parece saída de um filme soviético dos anos 1970. Cabos elétricos mal pendurados ao longo da fachada; ao subirmos a escada, cruzamos com uma mulher debruçada sobre um balde, que vende aos empregados pirojiki, os tradicionais pequenos pastéis recheados; nos escritórios, que parecem com celas, os telefones de discar não tocam, eles gemem. Em compensação, a prefeitura do vilarejo parece um laboratório de alta tecnologia.

Frente à essa desordem, o governador, Guiorgui Boos, quis reagir desde sua chegada a Kaliningrado, no final de 2005. Velho condutor da política russa, três vezes eleito deputado, Boos imprimiu rapidamente sua autoridade. Kaliningrado constitui uma declinação regional do "poder vertical" que Vladimir Putin se orgulha de ter restaurado em dez anos. Segundo o governador, tudo seria arranjado com o conglomerado; no entanto, ele não possui nenhum autoridade sobre ele. "Como todos os recursos naturais preciosos, o âmbar é um setor regulado pelo ministério das finanças, ele explica. Isso não nos causa nenhum problema. Há um ano, a direção do conglomerado, então à beira da falência, foi embora. Não havia diálogo construtivo. Atualmente, os iantarchiki têm acesso às pedras".

Os iantarchiki são os cerca de 300 empresários locais que transformam a resina bruta em joias e em objetos decorativos. Eles continuam sendo completamente dependentes do único fornecedor. Reagrupados no centro de um sindicato, os mais importantes dentre eles - cerca de trinta - se consideram roubados pela relação privilegiada que o conglomerado mantém com um punhado de grandes importadores no exterior. "A quantidade de produção que antes escapava para o exterior de maneira ilegal agora parte legalmente, por meio de vários negociantes, explica Vassili Simonov, diretor-geral de Lembranças do Báltico e um dos membros mais ativos do sindicato. Mas nem o conglomerado, nem os habitantes da região estão em situação melhor".

Como não se enfurecer, ao constatar que os três quartos das joias de âmbar vendidas no mundo são fabricadas na Polônia, e não no enclave, onde a pedra é extraída? "Não é prático transformar o âmbar bruto aqui, sorri Igor Roudnikov, editor do jornal de oposição Novyie Koliossa. Existem os impostos, a milícia, o tribunal... Esse setor é criminalizado porque o poder tem interesse nele". Esses famosos negociantes, no exterior, se beneficiam de condições financeiras muito favoráveis: eles não pagam o imposto de 18% na Rússia; além disso eles possuem um abatimento de 20% no preço total de suas compras, a partir de um determinado valor. Segundo o esquema detalhado por um empresário da região, eles comprariam o âmbar até três vezes mais barato do que os locais, reembolsando clandestinamente em seguida uma parte da margem na direção do conglomerado, como marca de reconhecimento. É difícil de provar, mas os especialistas estrangeiros se espantam. "O conglomerado é muito dependente da esfera política. Ele funciona com "um representante exclusivo na Polônia, na Lituânia, no Japão e em Taiwan, explica Michal Kosior, diretor do escritório de Gdansk, na Polônia, da Associação Internacional do Âmbar. Qual é o circuito financeiro, quais são as margens sobre as vendas? É seu segredo de fabricação".

Konstantin Stefankov, o diretor do setor joalheiro no conglomerado, não se abala mais com as críticas do sindicato. Ele procura banalizar os privilégios cedidos aos compradores estrangeiros. "São só negócios, garante ele. Para ter uma redução de 20% sobre o preço do âmbar, é preciso comprar no mínimo 20 milhões de rublos (quase € 511 mil). Se não pensarmos em nossas finanças, ninguém o fará por nós".

Os empresários locais denunciam esses circuitos privilegiados. No vilarejo de Kavrovo, Alexandre Imilianov e seus dois filhos dirigem uma empresa de fabricação de móveis de âmbar. Quase 85% de sua produção têm como destino o resto da Rússia. A crise econômica, que já atinge todas as classes sociais, vai estreitar seus escoadouros em 2009.

Aos 57 anos, Alexandre Imilianov fez muitos sacrifícios desde que se lançou no setor do âmbar, 16 anos atrás. Ele se enfurece com a impotência frente aos métodos do conglomerado. "É uma enorme bagunça, pela qual ninguém pode fazer nada, nem mesmo o governador", ele constata. Para ilustrar sua afirmação, ele apanha, dentro de um armário, um saco de âmbar branco em cubinhos, o mais caro de todos, adquiridos na véspera. "Eu comprei de um negociante polonês, por um preço menor do que o que me propuseram no conglomerado!"

Para as autoridades, o horizonte só possui os reflexos do âmbar. Alexandre Blinov, prefeito de Iantarny, trabalhou no conglomerado durante oito anos. O eleito possui projetos faraônicos: transformar seu vilarejo em zona turística. No país dos planos, não há por que ele não ter o seu: ele permanece até 2016, e prevê a construção de hotéis e equipamentos esportivos. Ele aposta no fato de que, a partir do dia 1º de julho de 2009, somente quatro zonas na Rússia, uma das quais a região de Kaliningrado, terão direito de receber estabelecimentos de jogo. "A melhor via econômica para nosso vilarejo de 6.500 habitantes consiste em atrair a cada ano 300 mil turistas", ele anuncia com veemência.

A filosofia do plano municipal consiste em diversificar as atividades, e a não contar unicamente com o local. "Hoje em dia, menos de 10% de nosso orçamento vem de seus impostos, contra 98% cinco anos atrás", nota o prefeito. "O âmbar representa uma parte miserável da economia de Kaliningrado, confirma Alexei Ziniviev, presidente do comitê para o desenvolvimento das infra-estruturas e da indústria na assembleia regional. Tornou-se sobretudo uma questão de imagem de marca".

Não para aqueles que se recusam a viver com um salário simbólico. Vivendo uma versão báltica da corrida do ouro, eles fazem furos em campo aberto, afastados das estradas, para quebrar, a vários metros de profundidade, pedaços do precioso "cristal". De tempos em tempos a polícia organiza prisões divulgadas na imprensa. Para lembrar que a extração de âmbar deve permanecer um monopólio".

Tradução: Lana Lim

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