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10/01/2009

Preocupação com o emprego cresce entre chineses

Le Monde
Brice Pedroletti Em Pequim
Daniel Zhou sempre foi atraído pelo luxo e ele tinha, diz ele, "um emprego dos sonhos para um chinês": originário de Jiangsu (leste), ele trabalhava desde 2005 para a Louis Vuitton em Pequim, como encarregado de comunicações, e depois como diretor de operações em uma butique, a 6 mil yuans (€ 642) por mês.

Em julho, as vendas não foram boas - os novos-ricos olham duas vezes antes de comprar, diz ele - e seu salário caiu para 3.600 yuans . No dia 15 de outubro de 2008, cansado de empatar seu salário em aluguel, ele se demitiu: "Eu estava confiante, eu falo bem inglês, fiz uma boa universidade e tinha uma experiência bem incrível para um chinês. Há mais de dois meses enviei currículos pela Internet, procurei agências de head-hunters e utilizei todos meus contatos: nenhum resultado, estou em apuros. Ou não me respondem, ou querem me enviar para pequenas cidades, ou me oferecem um salário baixo", reclama ele".

Zhou faz parte dessa nova geração de jovens urbanos, para quem viajar, sucumbir às últimas modas e comprar um apartamento haviam se tornado objetos atingíveis a um prazo mais ou menos curto. Para eles, foi um balde de água fria.

Em algumas semanas, a perspectiva de uma crise econômica brutal faz soprar um vento de pânico sobre o emprego na China e preocupa também os trabalhadores migrantes, estudantes, jovens executivos de multinacionais, pequenos comerciantes ou aposentados.

Segundo Zhang Chewei, pesquisador da Academia de Ciências Sociais de Pequim citado no China Economic Weekly, o número de demissões "ultrapassa as estimativas iniciais": a taxa de desemprego urbano real seria de 9,4%, mais do que o dobro da taxa oficial.

"A situação do emprego é extremamente sombria", avisava há alguns dias o primeiro-ministro Wen Jiabao durante uma reunião do governo dedicada aos estudantes. Encontrar um emprego para eles deve ser "uma prioridade", declarou o primeiro-ministro. Cerca de 6,1 milhões de estudantes se formarão em julho, mas 1 milhão de diplomados de 2008 ainda estarão desempregados.

Vírus da crise americana
Os estudantes serão "incentivados" a trabalhar nas províncias mais pobres do oeste, com falta de executivos, mas também a entrar em programas de pesquisa. O número de formados aumenta mais rápido do que os empregos qualificados e cada nova onda de jovens no mercado de trabalho leva a ajustes inesperados: o Le Quotidien de Guangzhou (sudeste) relatou que uma agência que propõe serviços de babá e de faxineiras havia recebido milhares de candidatas universitárias.

O vírus da crise americana beneficia a China ao trazer de volta a intocável "supply chain", a cadeia de suprimentos entre a oficina do mundo e seus mercados além-mar: a americana KB Toys, cuja falência em dezembro de 2008 levará ao fechamento de suas 461 lojas nos Estados Unidos, teria deixado cerca de US$ 10 milhões (€7,3 milhões) pendentes junto a uma centena de fábricas de Guangdong (sudeste), detidas pelos capitais de Hong Kong e empregando quase 100 mil operários. Cerca de quarenta entre eles se reagruparam para fazer valer seus interesses junto ao grupo Li & Fung de Hong Kong.

Temores de desestabilização
Berço das exportações chinesas, Guangdong viu 600 mil trabalhadores migrantes voltarem para suas casas em 2008, segundo Huang Yunlong, seu vice-governador. No país como um todo, o ministério do emprego e das questões sociais estima que 10 milhões de migrantes entre os 130 milhões estimados teriam voltado para as zonas rurais em 2008, por falta de emprego nas províncias costeiras.

As cifras, a tomar com precaução, reavivaram os temores de desestabilização: em 2009, a China "conhecerá sem dúvida um ressurgimento de incidentes em massa" - eufemismo para designar as manifestações e os tumultos - , avisaram os chefes locais da agência Xinhua, em uma análise dedicada à explosiva situação social pela revista da agência, Outlook.

Muitos trabalhadores migrantes tomaram partido da desaceleração ao voltarem de maneira antecipada para as festas de fim de ano. Na rodoviária de Liuli Qiao em Pequim, Li, que procura uma passagem de ônibus barata para voltar a Fuyang, em Anhui, não tem mais contratos o suficiente por causa da "weiji jingi", a "crise econômica", diz ele.

Ele morava em um desses apartamentos mobiliados em um porão, onde ele divide um quarto por 150 yuans por mês. A equipe de operários à qual ele pertence faz reformas em apartamentos. Ele trabalha desde 2005 em Pequim, e economizou o suficiente para construir um segundo andar em sua casa em Fuyang. Ele não vai voltar a Pequim.

Mas cedo ou tarde será preciso, diz ele, que ele volte a trabalhar no exterior. Seu terreno, pequeno demais, e não fértil o suficiente para uma família de quatro, mal lhes permite sobreviverem. Sua última filha, que está fora da cota do filho único, não é "declarada". Ele deverá gastar muito para regularizá-la e lhe permitir ir à escola.

Tradução: Lana Lim

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