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12/01/2009

A controvérsia de Jacarta

Le Monde
Por Sylvie Kauffmann Enviada especial à Jacarta
No dia em que Yudhi Widdyantoro, professor de ioga em Jacarta, encontrou-se diante de um grupo de ulamas [religiosos muçulmanos] para justificar sua atividade, perguntou-se se não estava sonhando. Mas não, Yudhi Widdyantoro não estava sonhando naquela manhã de 2 de dezembro, e mesmo que hoje ele ria com gosto do absurdo da situação, não tem certeza de que isso, no fundo, é de fato engraçado.

A discussão partiu da Malásia onde, um mês antes, o conselho nacional de fatwas [determinações religiosas do Islã] decretou que a prática de ioga era "haram" (proibida) para os muçulmanos, por ser influenciada pelo hinduísmo. Logo os amantes de ioga começaram a se indignar com o fato de que a questão já havia atravessado o estreito de Malaca e ganhado nova residência no conselho dos ulamas da Indonésia em Jacarta. Seria necessário declarar a ioga "haram" também na Indonésia, país que, com 240 milhões de habitantes dos quais 85% são muçulmanos, abriga a maior população muçulmana do mundo? O conselho decidiu "investigar".

Foi assim que Yudhi se encontrou, com alguns colegas iogues, na frente de sete hierarcas religiosos, respondendo questões sobre o "ritual de ioga". A atmosfera ficou um tanto tensa quando um dos ulamas perguntou a Yudhi, que achava a convocação "ridícula e arrogante", se ele era muçulmano. "Sim, na minha cédula de identidade", respondeu. "Você reza?" "Eu respondi que não e fui embora, porque eu tinha um encontro". Depois, alguns de seus colegas passaram a tratá-lo com frieza.

Sintoma mais recente da dinâmica que agita o Islã na Indonésia, onde a sólida tradição de abertura e tolerância é colocada à prova pela militância de grupos conservadores há alguns anos, o caso da ioga segue seu curso. A elite intelectual da capital prefere rir do assunto, depois do choque de duas controvérsias que marcaram 2008: em junho, um decreto governamental congelou as atividades da seita muçulmana dos Ahmadis, que os radicais consideravam "desviante" porque venerava seu próprio profeta; depois, em 30 de outubro, a lei anti-pornografia foi adotada ao final de um longo combate entre as correntes liberal e conservadora da sociedade e do Islã na Indonésia.

Guntur Romli não arrisca esquecer-se da batalha dos Ahmadis - ele traz cicatrizes no rosto, em volta do olho direito. Em 1º de junho, ele estava entre os manifestantes reunidos no centro de Jacarta para apoiar o pluralismo religioso e o direito de existência dos Ahmadis, quando um grupo de islamitas radicais, a Frente de Defensores do Islã (FPI), armados com pedaços de pau, atacou os manifestantes. Mais de 70 pessoas ficaram feridas; Guntur Romli foi parar no hospital com o nariz quebrado e passou por três horas de operação para salvar seu olho. "Foi então que isso começou, na Indonésia", disse o jovem intelectual, que estudou o Islã no Egito durante seis anos. "Foi a primeira agressão do Islã radical sobre o Islã progressista".

Alguns dias mais tarde, a polícia prendeu meia centena de membros do FPI, inclusive seu chefe. Mais, em 9 de junho, o anúncio de um decreto satisfazendo parcialmente os radicais - que demandavam a interdição total da seita - foi recebido como uma concessão do governo, laico e democrático, aos grupos fundamentalistas.

Depois a batalha se transferiu para o Parlamento, onde um projeto de lei contra a pornografia lançado em 1999, bastante atenuado pela pressão de movimentos feministas e progressistas, havia sido relançado em 2006. Eva Sundari, 43 anos, deputada do Partido Democrata Indonésio de Combate (PDP-I, de centro), participou da redação do novo projeto de lei e, frente à impossibilidade de impor suas objeções, deixou a Assembléia junto com os 108 deputados de seu partido no momento da votação. Hoje, ela está inquieta: "O Islã liberal na Indonésia esta ameaçado pela direita".

A lei adotada define como pornográficos "os desenhos, esboços, ilustrações, fotos, textos, voz, sons, imagens de vídeo ou cinema, desenhos animados, poemas, conversas, gestos ou qualquer outra forma de comunicação em diferentes meios, assim como os espetáculos públicos que possam incitar a obscenidade, a exploração sexual e a violação moral". As penas para os contraventores ou para aqueles que "expuserem sua nudez" podem ir até dez anos de prisão. Por fim, um dos artigos da lei autoriza "o público a agir para impedir a produção, difusão e utilização da pornografia". Para os liberais, esta é a porta aberta para novos abusos de brutalidade do FPI.

Várias províncias indonésias de população cristã ou hindu protestaram.
O governador de Bali informou que ele se recusaria a aplicar a lei sobre sua ilha. Os profissionais de turismo, furiosos, conseguiram impor uma cláusula protegendo o uso de biquíni nas praias. Em face às críticas que acusavam a lei anti-pornografia de "trair os valores nacionais", o presidente da República, Susilo Bambang Yudhoyono, um homem complacente, eleito democraticamente em 2004 e candidato a um novo mandato este ano, assinou a lei às escondidas, o que só foi revelado durante o mês de dezembro. Desde então, várias associações estudam um recurso frente à corte constitucional.

Antigo condutor do combate democrático, o escritor Goenawan Mohamed, que contribuiu ativamente com a queda do regime de Suharto em 1998, não se inquieta. "Vamos esperar para ver se essa lei será aplicada", diz, sentado à mesa em frente ao magnífico centro cultural que acabou de inaugurar em Jacarta. "Se ela for rigorosamente aplicada, haverá uma forte resistência". Para ele, há uma forma otimista de olhar as coisas na Indonésia: "O Islã conservador, ou sectário, está em alta, mas o Islã liberal também" e é muito cedo "para dizer qual vai predominar". Por enquanto, ele se alegra com a "liberdade do debate, impensável sob o antigo regime".

Há entre os intelectuais liberais indonésios uma prudência, uma recusa de alarme que exaspera gente como a deputada Eva Sundari. Ela viu, durante a discussão sobre a lei anti-pornografia, como os conservadores muçulmanos foram bem sucedidos em transmitir para a sociedade a ideia de que simplesmente era necessário proteger as mulheres e as crianças. Ela vê a habilidade com a qual "a direita islâmica", como ela diz, infiltra-se nos campus e nas estruturas universitárias, penetra na burocracia, aproveita-se do sistema político.

Em face a esse ativismo, ela acusa os liberais de "permaneceram passivos". Sem lenço na cabeça mas com os braços e pernas cobertos por um conjunto de camisa e calça, ela acha que eles estão equivocados: "É um desafio para a nossa democracia". Guntur Romli, ferido em 1º de junho, não está longe de pensar o mesmo. Para ele, "o problema do Islã liberal é que a maioria silenciosa permanece silenciosa". Enquanto isso, o Islã radical avança, representado "nas ruas pelo FPI, na religião pelo MUI (Conselho dos Ulamas) e no Parlamento pelo PKS", o Partido da Justiça e da Prosperidade.

Anis Matta, secretário-geral do PKS, todavia não tem um ar ameaçador.
Num café Starbucks de uma grande galeria comercial, ele chega em companhia de sua jovem mulher Sylvia, húngara convertida ao Islã, grávida, usando roupas tradicionais muçulmanas e lenço na cabeça. Ela evita ostensivamente apertar a mão de um interlocutor masculino presente, mas Anis Matta, em trajes ocidentais e camisa com o colarinho aberto, não recusa meu cumprimento. Ele explica que a "explosão de democracia" deu "muita liberdade aos meios de comunicação", sobretudo à televisão, que é usada para "difundir a pornografia".

"Isso foi longe demais", diz ele. "Os indonésios não gostam do extremismo, nem de direita nem de esquerda. Aqui, o comunismo fracassou e Suharto caiu porque eles foram longe demais". Elegante e cortês, Anis Matta diz que ele mesmo pratica ioga, declara que o "dangdut", estilo musical local dançado de modo muito sugestivo, é "OK" e qualifica o uso do véu como uma "escolha individual". "Ele é muito astuto, mas tem três mulheres", diz um colega de Parlamento sobre ele. "Não, duas", retifica-se. E sobre outra polêmica que chocou muito as mulheres, a de um religioso muçulmano que tomou como segunda esposa uma menina de 12 anos com a intenção de imitar o profeta, ele prefere não tomar partido.

Radicais perigosos? Não o PKS, responde Sidney Jones, especialista em Sudeste Asiático no International Crisis Group. A influência crescente da filial local do Hizb-ut-Tahrir, grupo islâmico proibido na maior parte dos países muçulmanos, que quer instalar um califado, é mais preocupante. Para ela, o PKS reune "militantes políticos islâmicos que utilizam o sistema democrático e querem transformar a Indonésia, de alto a baixo, numa sociedade mais de acordo com os princípios islâmicos, desde a forma de se vestir, até a moralidade, a corrupção ou a solidariedade social". O PKS tem "de longe os quadros mais dinâmicos", e as organizações muçulmanas tradicionais moderadas começam a se inquietar seriamente. Mais do que os intelectuais, que se tranquilizam ressaltando o pouco peso eleitoral do PKS (7,5% em 2004).

Anis Matta afirma que seu partido ficará "muito feliz" se atingir 10 a 12% dos votos esse ano. Mas não é sobre os bancos do Parlamento que o futuro do Islã indonésio está em jogo. Nesse arquipélago onde o hinduísmo e o budismo precederam o Islã, nesse país tão aberto que fez da "unidade na diversidade" seu lema, é no coração da própria sociedade que acontece, todos os dias e duramente, a batalha pelo pluralismo e a tolerância.

(Tradução: Eloise De Vylder)

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