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13/01/2009

Suzanne Lachelier: sob o segredo de Guantánamo

Le Monde
Corine Lesnes
Há tantas coisas que ela não pode dizer! Mesmo explicar que ela está restrita ao silêncio é complicado. "É impossível expor um assunto sobre o qual não se pode falar", ela tenta. Mesmo estando Suzanne Lachelier habituada ao regulamento - farda obrigatória - , o segredo de Guantánamo parece lhe pesar. "O juiz ignora nossos pedidos, um após o outro. O governo ignora as ordens do juiz. É muito frustrante falar desse processo".

Suzanne Lachelier é comandante da marinha americana. O que corresponde, em francês, a coronel, ela ressalta. Pouco importa o grau. Nenhum deles combina com sua aparência despretensiosa ou seu look sofisticado de ex-aluna de escola particular de Chatou (Yvelines). Por um desses caprichos da vida, ela se encontra a defender os islâmicos radicais de Guantánamo. Homens que passaram pelas prisões secretas da CIA e que foram torturados, assunto sobre o qual ela não tem direito de falar, claro.

A cada quinze dias Suzanne Lachelier vai a Guantánamo para uma audiência dos tribunais militares ou para encontrar seus clientes, quando eles querem. O Pentágono lhe designou dois: Ramzi Ben Al-Shibh, um iemenita, um dos cinco acusados dos atentados de 2001, e quem, segundo a Human Rights Watch, foi enviado para a Jordânia onde ele foi torturado. E Ibrahim Mahmoud Al-Qosi, um sudanês de 47 anos que fazia parte da guarda de Bin Laden no Afeganistão.

Em dezembro, Ramzi Al-Shibh tentou recusá-la. "Ela mente, disse ele ao juiz. Quero trocar essa mulher". Ao ouvir a palavra "mulher", a advogada se assustou um pouco. "Geralmente os detentos me chamam de Suzanne. Quando ele disse "essa mulher", eu disse para mim mesma: O-K, demos dez passos para trás, ela explica. Mas eu entendo. Não tem nada a ver comigo, é a situação".

O obstáculo nem é tanto por ser mulher - bastam algumas precauções: "Nunca apertar a mão, por exemplo" - quanto é por ser uma militar americana. Os detentos não entendem essas pessoas que pretendem querer defendê-los, enquanto usam o mesmo uniforme que aqueles que querem condená-los à morte. Durante semanas, Ibrahim Al-Qosi se recusou a vê-la. Ela acabou contatando um advogado da ordem sudanesa, professor de direito em Cartum, que ela foi encontrar em Londres. Sem nenhuma ajuda da administração Bush, ela buscou um visto para ele e Al-Qosi pôde, finalmente falar com um compatriota. Resultado: o prisioneiro acabou aceitando sua ajuda em dezembro. "Ele é muito educado. Ele nunca comunica sua desconfiança. Mas Ramzi, acrescenta ela, ele nunca confiará em mim".

Suzanne Lachelier trabalha no centro das contradições fundamentais do sistema judiciário de Guantánamo. De um lado, o Pentágono estabeleceu tribunais extraordinários. De outro, ele paga advogados militares que procuram invalidá-los ao denunciar violação de direitos. O escritório das comissões militares conta com 50 advogados de defesa, defensores públicos, como Suzanne Lachelier. Se Guantánamo acabar sendo fechada, eles terão contribuído muito para isso.

Quase não nomeados, eles normalmente entram em rebelião contra um sistema que nem mesmo oferece as garantias das cortes marciais. "É responsabilidade da defesa provar que as confissões foram extorquidas. Nós devemos provar que o governo agiu mal, mas o governo controla todas as informações que nos permitiriam mostrar que ele agiu mal!"

É difícil, quando se chama Lachelier, esconder suas origens francesas. A tradição familiar inclui um filósofo (Jules Lachelier) e muitos militares, todos da escola real. O avô de Suzanne, Barthélémy Lachelier, ferido de guerra, deixou a França em 1940 para se alistar na aviação americana. Seu pai, François, formado em Harvard, casado com uma americana, quis que seus filhos crescessem na França. Dos 3 aos 16 anos, Suzanne viveu em Chatou. Um dia, sua mãe decidiu que era hora de voltar para Connecticut. Os filhos tiveram de se adaptar.

Suzanne estudou direito em Boston. Ela trabalhou na equipe da comissão de energia no Congresso. Alguém lhe falou da marinha: ao se alistar, ela poderia pular longas etapas nos escritórios particulares e advogar diretamente no tribunal. Ela se encontrou na marinha em Camp Pendleton. "Eu estava tão acostumada a ser estrangeira. Eu me adaptei bem".

Após três anos de serviço ativo, ela foi entregue à reserva. Seu último posto, antes de Guantánamo, havia sido no escritório de advogados públicos em San Diego, na Califórnia. Lá ela defendeu jovens de gangues. Dos durões, já, mas esses também "demonstram respeito pelas pessoas que têm um certo grau de instrução", garante ela.

Quando ela viu o chamado por voluntários para Guantánamo, ela se apressou. Naquele momento, ela não queria estar em nenhum outro lugar. É seu dever de resistência. Ela preza defender a Constituição. "Temos um bom sistema, seja de cortes marciais ou de cortes federais, que podem levar esses homens diante da justiça publicamente, sem vergonha. Sem necessidade de escondê-los em Guantánamo ou de esconder determinados fatos".

Neste sétimo aniversário da prisão, aberta em 11 de janeiro de 2002, a comandante Lachelier está novamente em "Gitmo". Ela tentar salvar Ramzi Ben Al-Shibh de uma condenação à morte ao mostrar que ele não é mentalmente apto. Mas ela não consegue seu dossiê médico: "Ele foi capturado em setembro de 2002. Entre 2002 e 2006, ele foi tratado por diversas pessoas. Nós queremos ver os relatórios. O governo não queria dar nada. O juiz decidiu que só teríamos um resumo".

Segundo o relatório da comissão oficial sobre os atentados de 2001, Ramzi foi interrogado 141 vezes. Suzanne descobriu recentemente que ele estava sob efeito de psicotrópicos. Quais? Por quê? Para ela conseguir entender por conta própria, ela pediu para visitar sua cela. Como os outros supostos responsáveis da Al-Qaeda, Al-Shibh está no Camp 7, um lugar fantasma cuja localização exata ninguém conhece, nem o comandante. Os advogados propuseram se deixar vendar os olhos para chegar lá. Nem o exército chegou lá. Mas foi preciso uma ordem do juiz para que a visita fosse autorizada.

Por fim, Suzanne Lachelier foi uma das raras pessoas que puderam visitar o Camp 7. É claro que é impossível falar sobre isso com ela.

Tradução: Lana Lim

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