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14/01/2009

A web-terapia socorre os iraquianos

Le Monde
Lorraine Rossignol
Em Berlim
"Senhor, então o que estou vivendo? Será que reverei pelo menos um dia minha família? Imagino meu próprio cadáver jogado no meio de lugar nenhum. Eu sei bem a dor que vou causar aos meus. E eu choro... humilhado, aterrorizado, sem esperança de ser socorrido". Foi há dois anos. N., 24 anos na época dos acontecimentos, trabalhava então como consultor para uma empresa de transporte em Bagdá, quando uma gangue de homens armados invadiu os escritórios da empresa... A sequência, ele nunca conseguiu contar a ninguém.

Sentado diante da tela do computador em um cibercafé, guiado à distância por um "web-terapeuta", o jovem de Bagdá finalmente se resolveu. A violência dos golpes que ele recebeu durante seu sequestro, a pistola que encostaram em sua testa, as execuções que ele testemunhou já foram o assunto de dois e-mails anteriores. Em seguida, o exercício consistiu em focar sobre suas sensações.

"Esta etapa é a mais arriscada. Os pacientes devem se esforçar para descrever com detalhes aquilo que eles mal conseguem se lembrar sem desmaiar. Nesse estágio, muitos deles querem desistir", explica a psicóloga Christine Knaevelsrud, iniciadora, em parceria com a Universidade de Zurich, do programa "Interapy", lançado na primavera de 2008 pelo Centro de Tratamento de Vítimas de Tortura (BZFO) de Berlim. "A aqueles que desabam, nós dizemos que essa confrontação é necessária, para que um dia eles possam retomar o controle sobre seu trauma", diz a diretora do departamento de pesquisa do BZFO que, fundado em 1992, possui hoje várias antenas pelo mundo, financiadas pela União Europeia e pela ONU.

Estranha terapia à distância, onde o paciente e seu psicoterapeuta jamais se encontram, onde nenhum dos dois sequer sabe como o outro se parece, como é sua voz. "No entanto é a solução mais adequada para ajudar os iraquianos", insiste Knaevelsrud, que lembra que se pode literalmente contar nos dedos os psicoterapeutas que existem hoje no Iraque: "Todos fugiram do país".

Testemunhas ou vítimas de atentados, execuções, sequestros, estupros, os cerca de 300 iraquianos que, como N., entraram em contato com a equipe de web-terapeutas do BZFO (uma dúzia de profissionais de problemas de estresse pós-traumático, todos falantes de árabe e formados em web-terapia) tiveram apoio psicológico on-line gratuito que lhes era proposto por meio das mídias árabes, às quais o BZFO recorreu para se apresentar: na Al-Arabiya, CNN ou BBC em árabe, eles ouviram falar pela primeira vez desse conceito que os próprios países ocidentais começam a descobrir.

Aperfeiçoada nos Países Baixos no final dos anos 1990, a "web-terapia" ou "terapia escrita" é hoje praticada na Escandinávia, na Austrália, nos Estados Unidos... mesmo que ela ainda esteja longe de ser sistematicamente cuidada pelos sistemas de segurança social locais.

"O ceticismo ainda é forte: a relação sagrada entre o psicólogo e seu paciente parece inexistente ali, ainda que ela esteja somente desmaterializada, ressalta Christine Knaevelsrud. Para um certo tipo de paciente, ela é simplesmente a forma de terapia mais bem adaptada. Para os iraquianos, hoje, ela é até ideal".

E isso, não somente porque não existe para eles outra alternativa. Mas também porque o caráter anônimo da web-terapia facilita suas intervenções. Após um questionário que permite diagnosticar a natureza de seus problemas, a terapia, que dura em média cinco semanas, inclui a redação de dez e-mails, sendo que cada um deve ser escrito em 45 minutos, segundo um calendário determinado junto com o terapeuta. Nesse contexto rigoroso, os pacientes iraquianos "são duplamente mais 'eficazes' no progresso de seu trabalho: a melhora de seus sintomas é duas vezes mais expressiva", constata Christine Knaevelsrud.

Enquanto que, no mundo árabe, o sentimento de perda de dignidade vivido por um indivíduo logo se reflete em sua família ou seu grupo - o que torna impossível qualquer confidência, por medo de ser estigmatizado - , ou que os pensamentos suicidas, condenados pela religião, são inconfessáveis, os web-pacientes do BZFO, livres dos olhares que recairiam sobre eles, vão direto aos fatos. É particularmente o caso das mulheres, cada vez em maior número, que participam desse programa frequentado por 60% de homens, com idade média de 35 anos, e saídos, em sua maior parte, de ambientes instruídos.

Suas palavras escritas falam tanto quanto palavras pronunciadas, relata Knaevelsrud: "O tamanho dos caracteres utilizados, a distribuição das palavras pela página às vezes me fazem ouvir um grito imenso que atravessa a tela de meu computador".

O computador, justamente, se ele torna possível essa experiência inédita, também nela marca seus limites. "Os iraquianos que dispõem de um em suas casas são mais do que raros, e os cibercafés nem existem em grande quantidade, e nem são a solução, no sentido da intimidade requerida para tal exercício", lembra Ferhad Ibrahim, cientista político especialista em Iraque e ex-professor da Freie Universität de Berlim. Segundo ele, um máximo de 2% a 3% da população iraquiana possui acesso à Internet. Sem contar que esse acesso depende, afinal, da corrente elétrica, fornecida com muita irregularidade.

Realmente, o número de pacientes atingidos pelo BZFO no Iraque permanece irrisório em relação às necessidades. "Mas é sempre melhor do que não fazer nada!", replica Christine Knaevelsrud que, dado o tamanho de sua tarefa, não considera, no entanto, estender o campo da "Interapy" para outras populações, apesar de seu enorme potencial de aplicação no mundo. O ideal é certamente a abertura no local de antenas do BZFO, como já é o caso no norte - relativamente seguro - do Iraque, em Kirkuk, e logo em Erbil e Suleimaniya. Mas abrir em Bagdá, por enquanto, nem pensar.

"Existe um provérbio que diz que a bala que não mata te deixa mais forte", escreve N. a um amigo fictício. É a terceira e última etapa da web-terapia, aquela ao longo da qual o paciente - cuja escrita, no caminho, foi aprimorada e estruturada de forma singular - deve enviar uma carta imaginária a quem ele quiser, sendo que o essencial é que ele passe um risco simbólico sobre o passado.

Desde que ele escreveu essa "carta de adeus", N. dorme melhor, suas angústias e crises de vertigem se acalmaram. Mesmo assim ele a imprimiu para poder reler, caso sentisse necessidade. Pois, em um cotidiano feito de permanente insegurança, o menor incidente pode levar a uma recaída. Na medida em que as dificuldades de acesso à Internet são o entrave mais grave para o sucesso da "Interapy"".

Na Internet: www.ilajnafsy.org

Tradução: Lana Lim

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