UOL Notícias Internacional
 

16/01/2009

A Itália protesta contra o asilo concedido pelo Brasil a Battisti

Le Monde
Philippe Ridet
Em Roma
Cesare Battisti e Adriano Sofri: duas maneiras de enfrentar as acusações de crime terrorista, dois nomes que simbolizam para os italianos a lembrança dos "anos de chumbo" (os anos 1970), e o trabalho de memória que lhes resta a cumprir.

O primeiro, Cesare Battisti, ex-militante dos Proletários Armados pelo Comunismo (PAC), foi condenado à revelia à prisão perpétua por quatro assassinatos que ele sempre negou, no fim dos anos 1970. Ele recebeu, na terça-feira 13 de janeiro, o status de refugiado político pelo Brasil, onde está preso desde março de 2007, após ter fugido da França que havia aceitado extraditá-lo para a Itália.

O segundo, Adriano Sofri, escolheu enfrentar as acusações de um "pentito"[arrependido, colaborador da justiça] que o acusou de ter sido o mandante do assassinato, em 1972 em Milão, do comissário de polícia Luigi Calabresi, em represália pela morte do anarquista Giuseppe Pinelli, suspeito de ser o autor de um atentado sangrento no dia 12 de dezembro de 1969. Mentor do grupo de extrema esquerda Lotta Continua, Sofri foi detido muitos anos depois dos fatos e foi condenado, apesar de suas negações, a 22 anos de prisão. Ele sempre se recusou a apelar dessa condenação.

O acaso reúne hoje essas duas trajetórias. Sofri, que cumpre sua pena em regime domiciliar por "motivos de saúde", publica, na quinta-feira 15 de janeiro, La notte Che Pinelli... [A noite em que Pinelli...] (Ed. Sellerio), um livro no qual ele reconhece, pela primeira vez, ter alguma responsabilidade moral na morte do comissário Calabresi. Nesse mesmo dia, Battisti, autor de diversos romances policiais, pode ser libertado e refazer sua vida no Brasil.

"Minha ideia de responsabilidade, escreve Adriano Sofri, me faz pensar que se alguém traduz em atos o que eu proclamei em voz alta, não posso me considerar inocente (....). Sou co-responsável por isso. Somente por isso, não pelo resto, nem por nenhum ato terrorista dos anos 1970. Mas pelo assassinato de Calabresi sim, porque eu disse ou escrevi, ou deixei dizer ou deixei escrever: "Calabresi, você será suicidado"". Essas palavras foram interpretadas como um gesto de apaziguamento, um remorso tardio, mas bem-vindo.

A decisão do Brasil foi, em compensação, muito mal recebida na Itália. "Isso é uma ofensa, pois pensar que Battisti pode ter sido considerado na Itália como um perseguido político, isso debocha de nossa democracia", declarou um ministro. O escritor havia calculado, no começo da semana, que sua vida estaria em perigo se ele retornasse para a Itália.

É uma "humilhação", julgam as associações de vítimas do terrorismo. Ela se junta àquela já sentida quando a França se recusou, em outubro de 2008, a atender ao pedido de extradição da ex-brigadista Marina Petrella. "Isso demonstra mais uma vez uma total insensibilidade e uma falta de respeito com nossa democracia", afirmou Sabina Rossa, deputada do Partido Democrata (centro-esquerda), cujo pai, Guido, foi morto pelas Brigadas Vermelhas. "Nós continuamos a pensar que teria sido justo se a Itália pudesse julgar Cesare Battisti".

Tradução: Lana Lim Lana Lim

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