UOL Notícias Internacional
 

20/01/2009

O lamaçal palestino-israelense

Le Monde
Gilles Paris
Ele teria sem dúvida preferido ficar sem essa. Deixar para mais tarde a questão palestina, essa questão explosiva contra a qual se debateu seu predecessor democrata, Bill Clinton, e que se juntou aos desgostos de George Bush no Oriente Médio e Próximo. No dia 24 de julho, etapa de um longo percurso do Afeganistão até a Grã-Bretanha destinado a lhe conferir uma estatura internacional, Barack Obama havia chegado na cidade israelense de Sderot, na fronteira de Gaza, alvo privilegiado dos mísseis palestinos. Era verão. Uma trégua vigorava então, que havia reduzido consideravelmente os tiros dos milicianos palestinos.

O candidato democrata visitou na sequência o posto de polícia, o "Museu dos Qassams", reunindo restos de projéteis caídos na cidade, e reafirmou o direito de Israel de se proteger. "Se os mísseis caíssem onde dormem minhas filhas, ele acrescentou, eu faria tudo que estivesse em meu poder para impedir isso".

Chicago não é Sderot e Illinois não está em guerra com o Ontário canadense. A guerra de Gaza, desencadeada na véspera de sua posse, relembrou o próximo presidente americano que um conflito anterior ao mesmo tempo ao conflito afegão, às ambições nucleares do Irã ou à situação iraquiana, continua esperando sua solução.

Após um longo silêncio, Barack Obama evocou, no dia 11 de janeiro, a ofensiva israelense em Gaza desencadeada (sem dúvida uma coincidência...) pouco antes de sua cerimônia, na ocasião de uma entrevista dada à rede americana ABC. Sem abandonar o laconismo adotado sobre esse assunto desde que ele veio à tona. Sem a mínima crítica frente a Israel, ainda que o número de mortos palestinos já ultrapassasse bastante aquele registrado em operações anteriores.

Nos Estados Unidos, é verdade, o debate nunca é saber se um candidato à eleição presidencial ou um novo presidente será ou não amigo de Israel, mas sim se ele se mostrará mais amigo de Israel do que seu antecessor. Em 2006, dois universitários americanos, John Mearsheimer e Stephen Walt, provocaram uma tempestade de críticas ao publicarem um estudo iconoclasta questionando o interesse dos americanos pelos laços estratégicos tecidos com Israel. Essa polêmica testemunhou tanto a potência quanto a profundidade do consenso que predomina sobre a questão israelense.

Sobre esse campo minado, Barack Obama tem contra ele o fato de nunca ter sido, ao longo de sua longa marcha em direção ao poder, o candidato favorito das autoridades israelenses. Nem durante a prévia/primária democrata, pois a senadora de Nova York Hillary Clinton tinha, de longe, a preferência delas. Nem durante o duelo com o republicano John McCain, apesar do estabelecimento majoritariamente democrata da comunidade judaica americana. Durante a campanha eleitoral, somente o fato de que ele teve no passado como colega na universidade de Chicago, o professor Rachid Khalidi, historiador de identidade palestina, havia sido utilizado contra ele. Sem grande sucesso.

Nunca evocada nos debates televisivos, a questão palestina não figurava entre as prioridades do candidato democrata, concentrado na retirada americana do Iraque, o reforço das tropas no Afeganistão, e o tratamento das ambições nucleares do Irã. Os mortos palestinos de Gaza vão mudar essa hierarquia? Nada é mais incerto. Em sua entrevista de 11 de janeiro à rede ABC, Barack Obama só adiantou duas pistas.

Primeiro, a constituição de uma "equipe" composta "dos melhores" especialistas capazes de traduzirem "imediatamente" o compromisso afixado do novo presidente para "o processo de paz no Oriente Médio" sem esperar, como seu antecessor, o último ano de seu segundo mandato. Em seguida, interrogado sobre a política que essa equipe estaria encarregada de aplicar, Obama se mostrou tão evasivo quanto de costume: "Quando você não olha somente o que a administração Bush, mas também o que a administração Clinton fez, você tem o esboço de uma aproximação".

Os dois elementos da resposta do novo presidente suscitam diversas interrogações. O New York Times, sob a caneta de Roger Cohen, se perguntava no dia 12 de janeiro sobre a ausência da renovação que implicaria o retorno ao primeiro plano dos antigos "clintonianos". Ele fazia referência ao ex-emissário Dennis Ross, ou a Martin Indyk, ex-responsável pelo grupo de interesse pró-israelense Aipac e ex-embaixador em Tel-Aviv, assim como Daniel Kurtzer, cujo nome é igualmente apresentado para se juntar à equipe de Obama - ele foi há pouco o advogado da "pista" de negociação síria, privilegiada em Israel por certos responsáveis militares porque era julgada menos complexa do que a negociação com os palestinos.

O mesmo acontece com James Steinber, ex-vice de Sandy Berger no posto de conselheiro da segurança nacional e que, segundo a imprensa americana, teria contribuído para a operação de charme do candidato Obama nos lugares de poder pró-israelenses americanos. Assim como Dan Shapiro, que também trabalhou no Conselho Nacional de Segurança, durante o segundo mandato de Bill Clinton. Esses nomes, que ainda precisam ser confirmados, mostram tanto a experiência que busca Barack Obama sobre esse assunto delicado, quanto o fracasso que sancionou a procura obstinada de Bill Clinton por um acordo de paz entre os palestinos e Israel.

Na sequência do fracasso da negociações de Camp David, em julho de 2000, imputada pelos Estados Unidos e por Israel à obstinação de Yasser Arafat, a equipe de conselheiros do presidente americano mostrava abertamente suas divergências. Através de artigos e de livros, Aaron Miller e Robert Malley (apresentado como um conselheiro ouvido pelo candidato democrata Barack Obama por seus adversários para desacreditá-lo) contestam posteriormente a imparcialidade teórica dos Estados Unidos como árbitro do conflito.
O enviado especial permanente Dennis Ross defendia, pelo contrário, o dogma da falibilidade e da irresponsabilidade palestina. Esse mesmo Dennis Ross militou ativamente junto da equipe de Obama para reencontrar o posto que monopolizou durante quase uma década. Mas a situação sobre o campo mudou radicalmente com um movimento nacional palestino atomizado, um jogo político israelense desacreditado e despedaçado, e uma Cisjordânia totalmente corroída pela colonização.

Ainda que a administração de George Bush tenha agido tardiamente em favor de uma solução do conflito palestino-israelense, através do processo político iniciado em 27 de novembro de 2007, na ocasião da conferência de Annapolis, o novo presidente sucederá o presidente americano mais conciliador em sua relação com Israel. A subcontratação efetiva a Israel da questão palestina foi ilustrada por uma troca de cartas em abril de 2004. Nessas missivas, o primeiro-ministro israelense, Ariel Sharon, havia obtido dos Estados Unidos, pelo preço da retirada de alguns milhares de colonos de Gaza, a consideração dos "principais centros de população israelense" na Cisjordânia, ou seja, dezenas de milhares de colonos, como condição para o traçado de um eventual Estado palestino. Até lá, a posição americana, em conformidade com o direito internacional, havia sido de considerar as colônias israelenses em território palestino ocupado como ilegais.

Barack Obama, que descartou de sua equipe as vozes mais críticas frente a Israel, dispõe de um especialista, o responsável pelo Conselho Nacional de Segurança, o general James Jones, emissário no lugar de Condoleezza Rice durante quase um ano, ao longo do qual ele pôde sentir a rigidez israelense sobre a questão palestina. O novo presidente deverá fazer concessões para esse pesado legado Bush. Com uma secretária de Estado, Hillary Clinton, que já excluiu uma mudança de atitude americana frente ao Hamas palestino, contrária à vontade de diálogo com esse inimigo que é mais estratégico para os Estados Unidos do que o Irã. Com um Congresso que pede todos os anos a transferência da embaixada americana de Tel-Aviv para Jerusalém, a capital "indivisível e eterna de Israel", ainda que um acordo de paz passe necessariamente por uma divisão da cidade.

"A política do cheque em branco" para Israel terminou, como anunciou Martin Indyk. Mas é pouco provável que Barack Obama possa recorrer, como em sua época George Bush sênior e seu secretário de Estado James Backer, ao fogo nuclear utilizado em 1991: a recusa em conceder a garantia do Tesouro americano para os empréstimos israelenses. Tratava-se então de sancionar a continuação da colonização após a abertura da conferência de Madri, tentativa americana de chegar, após a primeira guerra do Golfo, a uma paz árabe-israelense.

Lições a serem aprendidas. Um aliado exigente e difícil de manobrar. Sim, decididamente, Barack Obama com certeza não contava fazer da questão palestina a prioridade de seu início de mandato.

Tradução: Lana Lim

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