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20/01/2009

Uma vida de cão na Casa Branca

Le Monde
Catherine Vincent
Léa, 7 anos, não entende. "Obama é um presidente. No rádio, eles disseram que ele passou muito tempo procurando um cachorro sem pêlos. Para um presidente, acho isso estranho..." Para essa pequena francesa, a escolha do companheiro de quatro patas que Sasha, de 7 anos, e Malia, 10 anos, logo deixarão entrar na Casa Branca é tão importante quanto a guerra de Gaza, a situação econômica mundial, ou mesmo o vestido que Michelle usará na cerimônia.

E essa escolha, confessada pelo próprio futuro ocupante do número 1600 da Pennsylvania Avenue, se revelou mais difícil "que encontrar um secretário do Comércio" - alusão à renúncia de seu candidato designado, Bill Richardson, questionado em um caso de corrupção.

Raça pura, mestiço ou vira-lata, cão d'água português ou labradoodle, qual será o primeiro-bicho de estimação ideal para a primeira-família da nação, sabendo que Malia é alérgica a pêlos de cachorro? Nos Estados Unidos, a questão empolga grandes e pequenos há meses. Ela ocupa as colunas dos maiores jornais, leva a discussões entre especialistas de todo tipo, suscita na Internet votos apaixonados. Digite "Obama's dog" [cachorro de Obama] no Google e você obterá... 56 milhões de ocorrências! Uma mania quase incompreensível do nosso lado do Atlântico, e mais político do que pareceria à primeira vista.

Na noite de 4 de novembro de 2008, diante de 65 mil pessoas reunidas no Grant Park em Chicago, o vencedor democrata dirigia aos Estados Unidos e ao mundo seu primeiro discurso. Antes de mencionar a crise financeira, o Iraque e o Afeganistão, antes de proferir seus desejos por paz e segurança, o que ele fez? Ele confirma a suas filhas, radiantes ao seu lado, o presente prometido por terem aguentado os longos meses de campanha eleitoral: "Sasha e Malia, eu amo vocês duas mais do que vocês podem imaginar, e vocês certamente mereceram o cachorrinho que virá conosco à Casa Branca". Com essa afirmação, o primeiro presidente negro americano se inscrevia de início na grande tradição de seu país, onde o primeiro-bicho de estimação se tornou uma instituição.

George Washington, primeiro presidente dos Estados Unidos (1789-1797), havia dado o tom: ele possuía vários cachorros, e até um asno, presente do rei da Espanha. No entanto nenhum deles conheceu a Casa Branca (ela ainda não existia), e foi a seu sucessor, John Adams (1797-1801), que coube levar lá os primeiros quadrúpedes em 1800.

Depois dele, com a notável exceção de Chester A. Arthur (1881-1885), nenhum presidente escapou à regra. Benjamin Harrison (1889-1893) convidou sua cabra Old Whiskers, Theodore Roosevelt (1901-1909), um zoológico: urso, lagarto, texugo, galinha, periquito, porquinho-da-índia e uma multidão de cães e gatos.

William H. Taft (1909-1913) instalou ali uma vaca, Pauline, que lhe forneceu leite durante todo seu mandato. Fala, o terrier escocês de Franklin D. Roosevelt (1933-1945), recebia mais correspondência que um ministro, os dois beagles Him e Her de Lyndon B. Johnson (1963-1969) saíram na capa da revista Life...

Alguns tiveram até um papel mais político. Punshinka, filha da cadela astronauta Strelka, foi dada por Nikita Kruschev a John Kennedy (1961-1963) em sinal de paz após a crise de Cuba. E quando Gerald Ford (1974-1977) deixava entrar para brincar seu golden retriever no Salão Oval, seus visitantes sabiam que era hora de se retirar.

Confrontado com tal mitologia, será que o 44º presidente dos Estados Unidos tem direito de errar? "Esperamos que ele faça a escolha certa e opte por um cão feliz e saudável, com uma boa história, um bom pedigree, um bom criador e uma boa sorte", anuncia Claire McLean, fundadora do Presidential Pet Museum. Criado em 1999, o museu expõe em Williamsburg (Virginia) a história e as relíquias de 400 animais que passaram pela Casa Branca em dois séculos.

Na página inicial de seu site, uma nota: "Vote para o Cachorro da Família Obama". O internauta pode escolher entre cinco candidatos, selecionados pelo American Kennel Club, a mais importante federação canina dos Estados Unidos, levando em conta a sensibilidade de Maia: o poodle, o terrier irlandês de pelo liso, o schnauzer anão, o bichon frisé e o cão de crista chinês. Depois de 42 mil votos, uma primeira análise foi efetuada em outubro de 2008: o poodle chegava bem à frente.

Para o povo americano, ou pelo menos para os democratas (John McCain já tinha um cachorro), a busca pelo primeiro-bicho de estimação começou, na verdade, bem antes da eleição - desde que o senador de Illinois, no início de sua campanha, anunciou sua intenção de dar um filhote a suas filhas. Mas nos dias que se seguiram ao 4 de novembro, a questão assumiu um viés mais simbólico.

"Nossa preferência seria por adotar um cão abandonado. Mas é claro que a maior parte dos cães recolhidos em abrigos são vira-latas como eu", diz o novo presidente em sua primeira coletiva de imprensa. Um cachorro que não tenha saído de uma linhagem pura na Casa Branca, isso já se viu: Yuki, adorada por seu dono Lyndon B. Johnson (1963-1969), fora encontrada vagando perto de um posto de gasolina no Texas. Mas será que um animal adotado de origem desconhecida pode se adequar às alergias de Malia? Os Estados Unidos, mais uma vez, se dividem.

"Uma mensagem real de esperança e mudança", logo avalia The Human Society of the United States, principal sociedade de proteção animal do país. Uma outra, The Best Friends Animal Society, recolheu em alguns dias, em seu site na Internet, mais de 50 mil assinaturas em favor da adoção. Na televisão, no rádio, criadores e comportamentalistas dão seus conselhos. Alguns dentre eles se mostram mais reticentes, ressaltando que o percurso de um animal adotado não lhe daria necessariamente as qualidades exigidas para o papel: boa educação, caráter feliz e sociabilidade.

É que não é tão fácil levar uma vida de cão na Casa Branca. Os Clinton sabiam bem disso: Buddy se dava tão mal com Socks, o gato, que eles tinham de viver em duas alas separadas do prédio.

Mas tudo que é bom dura pouco. No dia 11 de janeiro, Obama (quase) pôs um fim ao suspense, revelando na rede ABC que sua família só hesitava entre um cão d'água português e um labradoodle. "Vamos começar a ver nos abrigos se um desses cachorros aparece", ele disse.

O cão d'água, de porte médio, há séculos ajuda os pescadores portugueses em suas tarefas, empurrando o peixe para suas redes graças às suas qualidades de nadador. O labradoodle, cruzamento entre um labrador e um poodle, surgiu na Austrália nos anos 1970 para servir de guia para cegos. Ambos possuem uma pelagem hipoalergênica. Ambos possuem a reputação de serem sociáveis, leais e mansos. Mas será que o animal ideal realmente existe?

Sobre isto, Léa dá sua pequena ideia: "Já que ele procura um cachorro sem pelos, é só pegar um cão eletrônico!"

Tradução: Lana Lim

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