UOL Notícias Internacional
 

21/01/2009

A Argentina tenta maquiar os números da inflação

Le Monde
Paulo A. Paranaguá
Segundo o Instituto Nacional de Estatísticas e Censos (INDEC), a Argentina teve em 2008 uma inflação de 7,2%, abaixo dos 8,5% registrados em 2007. O orçamento havia previsto um aumento dos preços entre 7,5% e 8%, enquanto o Banco Central previa uma alta de 7% a 11%.

O problema é que os argentinos têm uma percepção bem diferente. Segundo uma pesquisa da universidade particular de Torcuato di Tella, para eles a alta dos preços foi mais da ordem de 36,1%. Em março de 2007, a diferença entre o índice oficial e a percepção que os argentinos tinham dela era de 6 pontos, ao passo que hoje ela é hoje de 28,9 pontos.

De acordo com indicadores independentes, a alta dos preços é três vezes maior do que declara o INDEC. A Ecolatina, fundada pelo ex-ministro da Economia Roberto Lavagna, avalia a taxa de inflação em 23,5%.

A distância entre a cifra oficial e outras avaliações tem origem nas manipulações introduzidas no início de 2007, pelo presidente peronista Nestor Kirchner: ele demitiu a direção do INDEC, dispensou vários estatísticos e modificou o modo de cálculo da inflação.

O próprio governo não parece acreditar, uma vez que ele negocia com os sindicatos um aumento salarial de 13,5%, quase o dobro da inflação oficial, ainda que os efeitos da crise mundial tenham começado a abalar a indústria e as exportações agrícolas.

O índice do INDEC também não corresponde ao índice de variação da construção, avaliado oficialmente em 14,3% em 2008. Ele tampouco é compatível com os aumentos de tarifas, há muito bloqueadas por Kirchner, que deixou a sua esposa, a presidente Cristina Kirchner, um legado envenenado.

A eletricidade aumentou em 400%, o gás deverá sofrer uma alta de 260%, o transporte público já aumentou em 50%, e os pedágios, 100%. Com a volta às aulas em março, o ensino privado certamente aumentará seus custos. Se a revalorização das tarifas afeta especialmente a numerosa classe média, a disparada dos preços dos artigos alimentares atinge os lares modestos.

"Há muito mais pobres do que há dez anos", garante o deputado peronista Felipe Sola, ex-governador da província de Buenos Aires, que se manteve afastado dos Kirchner na sequência do longo conflito com os agricultores, em 2008. "Nós temos quase 12 milhões de pobres", em uma população de 40 milhões de habitantes, ele explica em recente entrevista concedida ao jornal La Nación. "A política social nunca foi uma prioridade dos governos Kirchner, ele acrescenta. O interesse se concentra excessivamente no crescimento econômico".

A alta das taxas sobre as exportações agrícolas, a nacionalização dos fundos de pensão e a nova lei de lavagem de dinheiro mostram um Estado assombrado por nova moratória na dívida externa, como em 2001, por falta de reservas. Em 2008, os argentinos enviaram US$ 22 bilhões (17 bilhões de euros) para o exterior, em vez de investi-los em seu próprio país. Não é a maquiagem das estatísticas que restabelecerá a confiança.

Tradução: Lana Lim

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