UOL Notícias Internacional
 

21/01/2009

A OLP, vítima da guerra de Gaza

Le Monde
Gilles Paris
Uma vítima ainda não foi libertada das ruínas fumegantes de Gaza, entregue durante três semanas a um poder de fogo palestino sem precedentes na história turbulenta desse território. O Fatah, coluna vertebral da Organização para a Libertação da Palestina (OLP), ausente pela primeira vez de um confronto armado com Israel desde sua criação, em 1959, no Kuwait.

Na ocasião da primeira Intifada, ultrapassados por uma rebelião que eles não haviam iniciado, os dirigentes da OLP se esforçaram para aparecer posteriormente como seus organizadores. Israel havia participado dessa mistificação ao assassinar, em Tunis, onde o Fatah recuara após sua expulsão de Beirute, Khalil Al-Wazir, "Abou Jihad", o número dois da OLP, pensando erroneamente em romper o levante da Cisjordânia e de Gaza.

Treze anos mais tarde, com o estouro da segunda revolta palestina, Yasser Arafat, que no meio-tempo se tornou chefe da Autoridade Palestina instalada nos territórios ocupados após os acordos de Oslo, havia tentado "montar o tigre", deixando uma parte do Fatah se envolver na ação armada, incluindo o terrorismo, para rivalizar com o Hamas. Era a época em que a expressão tanzim ("organização" em árabe, termo que designa comumente o Fatah) obteve sucesso na imprensa israelense para construir o mito de um quase-exército secreto, prova da necessária duplicidade árabe.

Com a chegada ao poder de Mahmoud Abbas e a renúncia inequívoca à luta armada, e depois a reconstrução dos serviços de segurança palestinos sob a égide de doadores internacionais, o Fatah abandonou esse campo ao Hamas e às outras milícias de Gaza, reduzindo seu papel, após sua expulsão pela força de Gaza, à repressão dos islâmicos da Cisjordânia bem como na coordenação dos bandos que ele havia deixado prosperar em suas fileiras, em Jenin, em Nablus ou em Hebron.

Abbas se arriscou apostando tudo na negociação. O ano de 2008, que viu ao mesmo tempo iniciar uma discussão política com Israel, escorada pelo apoio financeiro sem precedentes levado aos territórios palestinos, mostrou o fracasso dessa estratégia. Chegando ao fim de seu mandato de presidente, "Abou Mazen" não pôde realmente se orgulhar do mínimo avanço no caminho de um eventual Estado palestino. Ele se vê reduzido ao papel de "idiota útil", preso em um diálogo desigual com Israel, e cujo único interesse é de manter a ilusão de um processo de paz sem base na realidade.

Ossificado pelo longo reino de Yasser Arafat, até sua morte em 2004, o Fatah não parece ser capaz de se reinventar. Seus pedidos não são renovados desde 1989 e somente a morte de seus membros modifica agora a composição de seu comitê executivo como a de seu conselho revolucionário. O Hamas, por sua vez, ainda está longe de representar uma alternativa, ainda que sua emergência constitua mais um retorno às fontes do que uma ruptura na história do movimento nacional palestino. A matriz ideológica dos Irmãos Muçulmanos, ao mesmo tempo islâmica, nacionalista e anticolonialista, de fato havia explicado seu envolvimento na guerra de 1948 e 1949, a começar por diversos futuros diretores do Fatah, antes da criação deste último.

Seus sucessos eleitorais obtidos na regular - não somente nas legislativas de janeiro de 2006, mas nas municipais precedentes - eram mais o resultado de uma postura "tribuniana". Essa postura foi reforçada mais pelo ódio suscitado por um Fatah, cheio de divisões e criticado tanto por sua ineficácia como por sua corrupção, do que pelo produto de um programa atraente ou inovador.

A "des-palestinização" da causa
Devido à sua mensagem ao mesmo tempo nacionalista e religiosa, o Hamas dificilmente pode se transformar nesse "movimento pega-tudo" que até agora foi o Fatah, ainda que sua doutrina - criação de um Estado palestino independente nas fronteiras de 1967 com Jerusalém Oriental como capital e o direito de retorno pelos refugiados - esteja hoje bem próxima, em se tratando da Palestina, das posições expressas pelo chefe do comitê executivo, Khaled Mechaal.

Levando em conta ainda o desaparecimento da corrente pós-marxista da OLP - os fronts patriótico e democrático de libertação da Palestina - e da fragilidade congênita dos palestinos independentes (quatro eleitos na última eleição), essa dupla incapacidade do Fatah e do Hamas de conduzir o movimento nacional palestino explica o fenômeno de "des-palestinização" dessa aspiração, rapidamente identificada pelo pesquisador Jean-François Legrain e que só se fortaleceu desde a morte de Yasser Arafat.

A questão palestina se tornou, como antes da derrota árabe de 1967 que havia paradoxalmente libertado a OLP, um instrumento de medida dos conflitos inter-árabes e da influência dos principais agentes regionais. As cúpulas sucessivas de Doha e do Kuwait, em 17 e 19 de janeiro, lembraram o peso agora esmagador dos "padrinhos", saudita, jordaniano e egípcio de um lado, sírio e catariano de outro, suspeitos de aplicar o cavalo de Troia em benefício do Irã. Ali se junta a tutela ocidental, europeia e americana, e até israelense, sobre a Autoridade Palestina que reduziu sua envergadura política. Ela fez Abbas correr o risco de aparecer como o suplente, se não o colaborador de um projeto político que negligencia a aposta da Palestina para se concentrar na contenção do regime do Teerã.

Há mais de dez anos o movimento nacional palestino vem batendo em retirada. Frente a esse enfraquecimento, Israel nunca soube se desfazer da tentação de escolher seus interlocutores, na esperança de que esses últimos se mostrassem menos exigentes. Suas tentativas (fazer surgir uma alternativa à OLP "do interior", quer se tratassem de ilustres afiliados ou de islâmicos nos anos 1970) se tornaram invariavelmente um fiasco. É preciso, a partir de agora, temer em terras palestinas uma evolução comparável àquela em andamento nos campos de refugiados do Líbano, onde o relaxamento da resistência nacional, gasta por ter servido demais, deixa o campo livre para qualquer outra coisa que não a busca de um Estado?

Tradução: Lana Lim

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