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22/01/2009

Bicicletas de bambu para a África

Le Monde
Phillipe Bernard
Em Acra (Gana)
Condução automobilística inacreditável, estradas improváveis, calor devastador, fascinação pelo zumbido: em Acra (Gana), não mais do que na maioria das cidades africanas, a bicicleta não encontrou seu lugar. Mesmo os chineses, que inundam o continente com suas quinquilharias, não conseguiram implantar sob essas latitudes a pequena rainha que é tão popular em seu país.

Paradoxalmente, o meio de transporte mais acessível e mais ecológico do mundo nunca se impôs maciçamente na África, e suas vendas recuam. Os boda-boda (táxis-bicicleta) tampouco abundam na África Ocidental. No entanto, o tamanho ainda humano de Acra e a ausência de relevo fariam da bicicleta um meio de transporte ideal. Mas as ruas da cidade, como as estradas de todo o continente, oferecem o espetáculo de um formigueiro permanente de pedestres - sobretudo mulheres - carregados como jumentos: bacias na cabeça, bebês nas costas. Na escala social africana, aquele que pedala não é mais bem considerado do que o mendigo, bem abaixo do motociclista, e ainda mais daquele que se gaba no volante de um carro, mesmo que aos pedaços.

Dois americanos engenhosos e "amigos da África", Craig Calfee, fabricante californiano de bicicletas de competição, e David Ho, universitário nova-iorquino, tiveram a ambição de atacar esses clichês. Seu projeto ultrapassa em muito as generosas coletas e envios de bicicletas usadas praticadas no Ocidente por ONGs. Eles sonham inundar o mercado de Gana com bicicletas de armação de bambu montadas no local.

Um protótipo já existe: alongada atrás do selim por um longo porta-bagagens, não somente a "bamboo bike", flexível mas sólida, seria um meio de transporte ideal tanto na cidade como no campo, mas sua fabricação permitiria empregar matéria-prima e mão-de-obra locais. A região de Ashanti, onde o bambu cresce em abundância, e sua capital Kumasi, segunda maior cidade de Gana, foram escolhidas para lançar a produção.

"As bicicletas de bambu podem ser equivalentes, ou até mesmo superiores às bicicletas atuais, tanto em termos de qualidade quanto de adaptação às necessidades locais", afirma a séria pesquisa de mercado publicada em 2008 sob a égide do Instituto da Terra da Universidade de Columbia em Nova York, dirigido pelo célebre economista Jeffrey Sachs.

Ao criar empregos, permitindo que se melhorem maciçamente as condições de transporte e então a produtividade, o projeto foi qualificado de "financeiramente viável" e "socialmente responsável". Esse business plan estima em 670 mil o número de lares ganenses interessados na bicicleta de bambu. Ele avalia o custo de fabricação em US$ 47 (sendo 5 para a mão-de-obra, 4 para o bambu, o resto para as rodas, a resina epóxi utilizada na montagem e as peças mecânicas importadas da África do Sul e da China), e em US$ 55 o preço de venda. "Ainda é caro demais para a clientela de bicicletas aqui", estima Ibrahim Kaju, um jovem ganense recrutado na Internet pelos promotores, e que começou a popularizar o projeto.

Por enquanto, na verdade, nada diz que o projeto vá ser alguma outra coisa que não uma fantasia do ocidental comovido cheio de boas intenções pela África, ou do empresário com vontade de fabricar na África, de forma barata, bicicletas de competição de bambu muito chiques. Pois os idealizadores do "Bamboo Bikes Project" se separaram recentemente por uma divergência bem sintomática, pelas controvérsias sobre a ajuda à África.

Enquanto os universitários aspiram criar uma grande unidade de produção capaz de inundar rapidamente o mercado, Craig Calfee defende uma abordagem mais pragmática e artesanal, alimentada pela experiência de seus dissabores africanos ligados ao caráter imprevisível do abastecimento e da mão-de-obra.

Em agosto passado, o fabricante californiano de bicicletas começou a formar uma dezena de jovens ganenses na montagem de estruturas de bambu. "Eu prefiro partir daquilo que as pessoas esperam, em vez de fingir saber o que elas querem". Craig Calfee acha que a pesquisa de mercado subestimou os custos de fabricação, mas ele continua convencido de que a bicicleta é uma formidável ferramenta de desenvolvimento rural: "Os camponeses não dispõem de nenhum meio de transporte: eles levam a água sobre a cabeça e vão a pé ao mercado; as crianças não podem ser escolarizadas se a escola estiver muito longe". Ele que, na Califórnia, vende estruturas personalizadas de bicicleta em bambu, fabricadas à mão, por US$ 2.600, também imagina escoadouros para a exportação de bicicletas ganenses.

Durante esse tempo em Kumasi, um empresário ganense, Kwame Sarprong, prometeu investir na futura fábrica de bicicletas de bambu. Entre o artesanato e a indústria, o caminho está aberto. Ainda que os promotores da fabricação em massa não sejam sonhadores, centenas de empregos poderiam ser criados, entre os colhedores de bambu, os empregados encarregados de seu tratamento e aqueles especializados na montagem das bicicletas. Uma intuição americana se transformaria, então, em plena África Ocidental, em uma questão que roda.

Tradução: Lana Lim

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