UOL Notícias Internacional
 

23/01/2009

Tchetchênia: inquérito sobre um crime de Estado

Le Monde
Natalie Nougayrède
Umar Israilov sabia que estava ameaçado. Sete meses antes de seu assassinato à bala no dia 13 de janeiro, no meio da rua em Viena, na Áustria, esse jovem refugiado tchetcheno de 27 anos, ex-combatente da guerrilha contra as forças russas, havia recebido uma estranha visita no fim de maio de 2008.

Vindo de Grozny, um certo Artur Kurmakaev lhe explica que ele trabalha para Ramzan Kadyrov, o presidente da Tchetchênia (Federação da Rússia), instalado no poder pelo Kremlin logo depois da guerra. O emissário se alterna entre sedutor e ameaçador. Ele oferece dinheiro. Ele explica que é encarregado de convencer Umar a voltar para a Tchetchênia, e, sobretudo, a desistir da queixa que ele prestou junto à Corte Europeia dos Direitos Humanos (CEDH) por tortura.

Nessa queixa, o jovem refugiado descreveu que ele havia sido torturado com eletricidade por Ramzan Kadyrov, em 2003, em um dos cárceres que este mantinha na Tchetchênia. Se Umar não obedecer, diz o emissário, algo de ruim lhe acontecerá, e a vida dos membros de sua família remanescente na Tchetchênia também estará em perigo. Umar não cede. Ele pede uma proteção especial para as autoridades austríacas, a título de testemunha. Ele já obteve asilo. Mas a proteção lhe é recusada.

Alguns dias mais tarde, vendo que as intimidações não resultavam em nada, o emissário mudou de ideia. Nesse meio-tempo, ele recebeu de Ramzan Kadyrov a ordem de eliminar Israilov pura e simplesmente. O mandado de assassinato foi dado pelo celular, no dia 9 de junho de 2008, pelo próprio Ramzan Kadyrov: "Não precisamos mais de Israilov".

Esse episódio foi relatado pelo próprio Artur Kurmakaev aos investigadores da agência austríaca pela ação antiterrorista, a quem ele revelou o caso. Por que ele entrega tudo dessa forma? Porque ele está convencido de que se voltar para a Tchetchênia sem ter cumprido sua missão de matador, ele estará em perigo. Em troca dessas informações, ele pede, por sua vez, para poder se beneficiar de um programa de proteção.

Artur Kurmakaev conta aos policiais austríacos que faz seis meses que ele "trabalha em um novo departamento, encarregado de levar de volta ao país tchetchenos expatriados", uma oficina pilotada pelo "braço direito"de Ramzan Kadyrov, um certo "Timur, apelidado de "Senhor"".

Em seu depoimento, ao qual o "Le Monde" teve acesso, ele revela o outro lado do cenário da "padronização" na Tchetchênia. Ele descreve um sistema de terror, de ameaças e de chantagem, que chega a ser exportado para além das fronteiras da Rússia.

Resumindo, Artur Kurmakaev afirma que existe um programa de perseguição e de repatriamento forçado para a Rússia de tchetchenos na Europa, que também funcionava como uma empresa de eliminação física de centenas de pessoas.

"Eu vi, conta ele, na residência de Ramzan Kadyrov, na cidade de Gudermes, uma lista que continha em torno de 5 mil nomes de tchetchenos. Todas essas pessoas ou combateram Kadyrov, ou de uma forma ou de outra atraíram para si uma atenção desfavorável. Trezentas dessas 5 mil da lista devem morrer. Essas pessoas são inimigos que Kadyrov detesta. Essas pessoas não têm direito de voltar para a Tchetchênia. Um novo departamento é organizado para essas 300 pessoas, e outras, que devem ser mortas. O departamento vai resolver essa "questão", e ele é colocado diretamente sob as ordens do presidente (tchetcheno), como acontece com meu departamento. Aqueles de Moscou (uma alusão provável ao poder russo) não sabem nada, e não deveriam saber nada, sobre esses departamentos. Pelo que sei, por volta de 50 das 300 pessoas da lista se encontram na Áustria. Então todas essas pessoas se encontram em grande perigo".

Mais tarde, em circunstâncias não esclarecidas, Artur Kurmakaev deixa a Áustria. Ele teve tempo, contudo, de repetir para os investigadores que era encarregado de coagir Umar Israïlov, "por todos os meios", a anular sua queixa na CEDH, e de recorrer ao assassinato, se necessário, para eliminar alguma testemunha incômoda. Ele diz que não é um caso isolado. "Sei de um caso em que uma pessoa foi repatriada à força da Polônia para a Tchetchênia".

Umar Israilov era, de fato, uma testemunha particularmente comprometedora para Ramzan Kadyrov, o homem que conduz a Tchetchênia há cerca de quatro anos e que recebeu de Vladimir Putin, em 2004, a mais alta distinção da Federação Russa, a medalha do "Herói Russo". Capturado em abril de 2003 pelos homens de Kadyrov enquanto procurava abastecimentos para a guerrilha antirrussa, Umar Israilov foi detido e maltratado durante três meses.

Levado até uma "base esportiva" de Ramzan Kadyrov, nos arredores de Tsenteroi, que serve de centro de tortura, ele também é testemunha de execuções sumárias de detentos.

Ordens de execuções

Ele foi espancado, às vezes pendurado em barras em um ginásio, às vezes queimado por uma haste metálica em brasa, aplicada atrás do joelho e sob os dedos dos pés. "Kadyrov estava presente em meus interrogatórios. Ele participava, me batia umas três vezes por semana", conta Umar em um dossiê para a CEDH. Um dia ele prendeu Omar a um aparelho de musculação, com fios elétricos em uma orelha e um dedo. "Kadyrov girou a manivela e me eletrocutou. Eu senti uma dor terrível na cabeça e na mão. Não consigo encontrar palavras para descrever essa dor. Eu não conseguia ficar sentado. A corrente elétrica me levantava. Kadyrov ria diante da minha reação. Ele repetiu esse procedimento várias vezes. Ele vinha sempre à noite (...) Ele ria enquanto batia. É um sádico".

Ao final de três meses, Umar foi forçado a se juntar às milícias do dirigente tchetcheno, segundo um processo de recrutamento forçado que está no centro da "tchetchenização" do conflito celebrado por Moscou. Ele assiste a sessões de tortura de combatentes tchetchenos, e a assassinatos. "Eu vi diversas vezes como os comandantes do SB (serviço de ordem dirigido na época por Kadyrov), Ramzan Kadyrov e seus confidentes, como seu irmão Zelimkhan, humilhavam e torturavam prisioneiros, e os executavam. (...) Eu ouvi Kadyrov dar ordens de execuções". Os corpos estavam enterrados no cemitério de Gazavat, fronteira com Tsenteroi, uma das muitas covas coletivas que possui a Tchetchênia.

Em abril de 2004, Umar Israilov decide fugir com sua esposa e filhos em direção a Kislovodsk, no sul da Rússia, e depois para Moscou, e depois para a Polônia, por meios clandestinos. Não se sentindo seguro na Polônia - "lá houve incidentes em que pessoas foram capturadas"- , ele chega na Áustria. Seu pai e sua cunhada que ficaram na Tchetchênia também foram presos pelos homens de Kadyrov e torturados. Eles serão soltos no final de dez meses.

Quando Umar presta, com a ajuda de ONG ocidentais, uma queixa junto à CEDH, as autoridades russas reagem lançando, em 2007, um mandado de prisão internacional e um pedido de extradição, por "pertencer a uma organização terrorista".

No dia 13 de janeiro de 2009, um grupo de homens abre fogo sobre Umar, quando ele está saindo de uma mercearia perto de sua casa, em Viena. "Não tenho nenhuma dúvida, declarou seu pai dois dias mais tarde, que meu filho pagou com sua vida seus esforços para conseguir com que a justiça seja feita".

Tradução: Lana Lim

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