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24/01/2009

Ambiguidades iranianas

Le Monde
Marie-Claude Decamps
Em Teerã
A pintura descasca nas paredes da antiga embaixada americana em Teerã, esse "ninho de espiões", como a chamavam os estudantes islâmicos que a cercaram em novembro de 1979, mas ainda distinguimos o slogan "A América é impotente" por trás de uma Estátua da Liberdade agonizante. A algumas ruas de lá, um imóvel mostra de toda sua altura uma bandeira estrelada nova em folha: as estrelas são cabeças de mortos, e as listras, trajetórias de balas. Entre essas duas "criações artísticas" há trinta anos de revolução iraniana, trinta anos de antiamericanismo.

Uma depende da outra, tanto que a República Islâmica se baseou na "independência nacional" frente ao regime do Xá submetido a Washington. Um espírito nacionalista com um forte tom de anticolonialismo que encontra uma de suas fontes no "pecado original" do golpe de estado da CIA contra o primeiro-ministro Mohammad Mossadegh, em 1953. E que se serviu, a cada vez, da guerra Irã-Iraque (1980-1988), apoiada por americanos e ocidentais contra o Teerã, até a infinita guerrilha diplomática sobre a questão nuclear iraniana. Três séries de sanções contra o Teerã do Conselho de Segurança da ONU não conseguiram resolver a crise: o Irã afirma seu "direito" de enriquecer urânio no contexto de um programa de pesquisa civil; Washington e seus aliados desconfiam de aplicações militares e querem pôr um fim a isso.

Bill Clinton e George Bush fracassaram na questão nuclear iraniana. No meio-tempo, a tensão subiu, o Irã se viu classificado dentro do "eixo do Mal" americano e a opção de bombardear os centros nucleares iranianos volta à tona com frequência. Por sua vez, o "messiânico" e fundamentalista presidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad, denuncia "o apoio incondicional" de Washington a um Israel que ele gostaria de ver "apagado do mapa". Também no meio-tempo, a situação no Oriente Médio evoluiu.

O Irã está "isolado", mas ele também se tornou inevitável: no Iraque, onde os xiitas assumiram o controle; no Líbano, onde o Hezbollah, apadrinhado pelo Teerã, teve uma vitória sobre os israelenses em 2006; para a questão palestina, onde Ahmadinejad, o persa xiita, procura se posicionar como "líder da rua árabe", diante de países árabes moderados incomodados com suas alianças americanas. No Paquistão, no Afeganistão, em todos os lugares, iranianos e americanos se encontram cara a cara. "Condenados a se entenderem por pragmatismo", como o explicava um diplomata ocidental? Diante do confuso dilema iraniano, Barack Obama, o novo presidente americano, disse que buscará uma "outra abordagem", evocando uma espécie de "diálogo na firmeza", sem mais detalhes.

Mas e quanto ao Irã? Ahmadinejad, que num gesto habitual enviou uma mensagem de felicitações a Obama, revelou: "Se a mudança anunciada for real e a nova abordagem for baseada no respeito, nós a aceitaremos e tomaremos as medidas apropriadas".

Diante da lareira em um salão de uma elegância que poderia se qualificar como "inglesa", se a palavra não tivesse conotações "coloniais", de seu ministério, o vice-ministro das relações exteriores e ex-embaixador em Paris, Ali Ahani, nos explicou o que poderiam ser, na visão do Irã, as bases de uma trégua com os Estados Unidos.

Obama, ele dizia, deve romper com a "detestável política agressiva de Bush". Ao aconselhar um certo "realismo" ao presidente americano, ele lhe pedia que mudasse dois pontos fundamentais, verdadeiros espinhos plantados há anos no orgulho nacional e na preocupação do regime por sua segurança. Em primeiro lugar, reconhecer, enfim, a República Islâmica pelo o que ela é, uma república perene que pode ajudar na estabilidade da região - "Nós sofremos trinta anos de embargo, de sanções, de ameaças, e continuamos aqui". Em seguida, admitir que novas potências, como o Irã, "surgiram na cena internacional": "Somos rodeados por países em crise, mas nós somos um parceiro que não deve ser desprezado pois temos nosso peso na região, no mundo, e no mundo islâmico", lembra Ahani.

E ele acrescenta: "Os americanos estão sempre sobre a mesma análise. Os fatos mudaram mas eles ainda não mudaram de parceiros. Olhe para Gaza e a crise entre o Egito, a Arábia Saudita e suas opiniões públicas. Você acredita que os americanos poderão continuar contando com esses países no futuro?" Estaria o Teerã preparado para um gesto sobre a questão nuclear? "Uma suspensão do enriquecimento de urânio, pré-requisito para qualquer diálogo, está fora de questão, garante Ahani. Nós suspendemos durante a presidência Khatami, e também ajudamos na luta contra os talibãs no Afeganistão. E como é que nos agradeceram? Colocando-nos no "eixo do Mal".

Um diálogo? Muitos o esperam. Enquanto espera, Teerã quer mostrar que o abordará com força: a algumas horas da posse de Obama, os serviços iranianos anunciavam a prisão de quatro pessoas envolvidas, segundo eles, em um complô da CIA para fomentar uma "revolução de veludo no Irã".

"Na realidade as autoridades teriam preferido uma vitória de McCain. Esse Barack Obama que fala de abertura os deixa desorientados, explica o ecritor e economista Saeed Leylaz. Uma pequena parcela de fundamentalistas, ainda mais radicais que o presidente, temem que se Obama os acuar, com abertura demais, para que eles também abram o regime, tudo escape de suas mãos. Eu chamo isso de síndrome Gorbatchev. Uma Perestroika iraniana os assusta..." E é a partir daí que os jornais conservadores, que usam muito apropriadamente a emoção causada pelos mortos de Gaza, retomam as críticas contra os Estados Unidos. "Quem comandará na Casa Branca, interrogava um recente editorial. Obama, o Pentágono ou os sionistas?"

"Francamente, nosso ressentimento contra os Estados Unidos é tanto, que parece estar inscrito em nossos genes", confessa, com um pequeno sorriso educado Shariat Madari, diretor do grupo de imprensa conservador Keyhan e homem entre os mais influentes do regime. Com um gesto, ele indica em sua biblioteca os 10 volumes encadernados tirados dos papéis do "ninho de espiões" americano em 1979. "Em Keyhan, diz ele, não se tem certeza sobre o Obama desde o início. Nossos diplomatas e Ahmadinejad confiam um pouco mais. Mas que pode fazer um presidente americano? Bem pouco. E sobre que base entrar em um acordo? Quando há um ladrão, a justiça exige que a vítima se preste a uma conciliação?"

Entre os reformistas, em plena efervescência com a proximidade da votação presidencial de junho, o tom é mais positivo. "Nós, os reformistas, sempre nos entendemos bem com os democratas americanos, mas se Ahmadinejad continuar onde está, nada vai mudar", comenta Said Adjarian, desiludido. Contudo, esse político difícil de calar, vítima de uma tentativa de assassinato que o deixou inválido, é um concentrado de otimismo. "Restará para nós, diz ele rindo, o 'sonho americano'. Aqui, se criticam os excessos cometidos em Guantánamo e a política americana, mas nossos jovens diplomados sem emprego admiram os Estados Unidos onde o trabalho é um valor reconhecido".

Quase sob o afresco da bandeira estrelada "revisitada", no centro de Teerã, uma velha mulher acocorada vende camisetas na calçada. Em cima, uma simples inscrição: "USA". Nas grandes avenidas, vendedores de donuts (rosquinhas) cobertas de chocolate como em Nova York, se alternam com fast-foods de hambúrgueres. E a figura que o recebe para atacar a política de Bush bebe sem piscar sua Coca-Cola, ou mistura em sua xícara de café seu "coffee mate" (substituto de leite), à moda americana.

No hit-parade dos diplomas, o MIT (Massachusetts Institute of Technology) supera Cambridge ou a Sorbonne, e "abroad" (no exterior) é sinônimo de Estados Unidos. Três milhões de iranianos vivem lá, sobretudo em Los Angeles (batizada aqui de Teer-Angeles). Toda noite milhões de iranianos se conectam à Internet, onde assistem por satélite os programas em farsi transmitidos da Califórnia. "Os Estados Unidos estão lá, embutidos em nossa cultura por trás do botão da televisão!", se queixa um universitário iraniano conservador.

O aiatolá Khomeini pode ter dito no início da revolução que "os Estados Unidos são uma serpente ferida", mas trinta anos depois seu veneno ainda se propaga. Perto da praça Jaleh onde os soldados do xá atiraram sobre a multidão, ponto importante de veneração dos primeiros mártires, uma loja vende os patins mais potentes. Nas livrarias não é raro ver pôsteres de Marlon Brando, Al Pacino ou James Dean. E mesmo no mais sagrado dos lugares que é o imenso mausoléu onde repousa o aiatolá Khomeini, uma loja destinada aos pelegrinos oferece, afogados em artigos banais, bonecas Barbie, videocassetes do Homem-Aranha, Hulk e Mad Max.

"O rock americano é minha vida, diz Dariouch, vocalista de um grupo de rock alternativo desempregado (o baixista imigrou para a Grã-Bretanha e o guitarrista, para a Itália). Mas falam tantas coisas sobre os Estados Unidos. Não estou pronto para declarar independência de meu país, no entanto. Ódio e fascinação, os Estados Unidos nos deixa esquizofrênicos".

No fim de uma conversa muito erudita sobre a evolução da evolução, o hojatolislam (clérigo abaixo do aiatolá) Ansari, um reformista mais "aberto", se interrompe de repente para constatar: "Você sabe, esse slogan de Obama, 'Yes, we can', isso os americanos também pegaram de nós! O aiatolá Khomeini detestava a palavra 'impossível'. E cada vez que lhe diziam que era impossível derrubar o xá, ele respondia irritado: "Sim, nós podemos..."

Tradução: Lana Lim

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