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28/01/2009

Diplomacia de Obama causa inquietação na Índia

Le Monde
Frédéric Bobin Correspondente em Nova Déli (Índia)
Desde que Barack Obama assumiu a Casa Branca, em 20 de janeiro, os indianos deixam transparecer uma leve ansiedade. "A Índia deve temer o novo presidente?", questiona a revista semanal Outlook em sua última edição. "Ele sorrirá para nós?", interroga uma outra revista, India Today, sobre a foto do presidente americano com a face radiante.

Obama suscita uma evidente perplexidade, mas os indianos buscam certezas observando o menor sinal do novo presidente. Por isso, a imprensa felicitou ostensivamente pelo fato de Obama ser o "primeiro presidente norte-americano a mencionar a palavra 'hindu' no discurso de posse", como afirmou o India Today. A referência não tinha nada de sensacional, pois figurava ao lado da evocação de outras religiões, mas agradou.

Se os indianos consultarem a História, terão elementos para se questionar: a tradição mostra que os presidentes republicanos - com a notável exceção de Richard Nixon e George Bush pai - foram mais amigáveis à Índia que os democratas. O mais caloroso teria sido sem dúvida George W. Bush. O presidente de saída é adorado na Índia por ter defendido ferozmente um acordo bilateral de cooperação nuclear civil, que pôs fim ao ostracismo internacional que congelava as ambições atômicas de Nova Déli desde 1974. Bush é visto como aquele que trouxe a Índia ao seio do gupo das potências respeitáveis. "É preciso celebrar o luto pelo fim da era Bush?", se pergunta um cronista do diário Times of India.

Quatro temas delicados inquietam os indianos. O primeiro diz respeito à doutrina de não-proliferação que tem nos democratas os seus mais ardorosos defensores. Obama, que se declara favorável à ratificação por parte dos Estados Unidos do tratado de completa proibição dos testes atômicos, irá colocar em discussão o teor do acordo nuclear com Nova Déli?

A mesma inquietação surge a respeito de outros dois assuntos: a deslocalização do emprego e a luta contra o aquecimento climático. Os Estados Unidos irão endurecer sua posição em relação à Índia?

Mas é um quarto tema de tensão potencial que mais causa alarme: a Caxemira. Durante a campanha eleitoral nos EUA, os indianos notaram que Obama buscaria dar foco ao Afeganistão e ao Paquistão - e não mais ao Iraque - como o principal desafio a ser enfrentado pela equipe de segurança dos EUA. Imediamente os indianos concordaram. Além disso, o endurecimento de tom em relação ao Paquistão, que estava presente em pequenas doses no jogo de palavras do discurso do candidato a respeito de luta antiterrorista, só poderia encantar.

Mas os indianos começaram a ficar irritados quando Obama estabeleceu um laço entre a neutralização do perigo jihadista na fronteira afegão-paquistanesa e a questão da Caxemira, contencioso não resolvido pela divisão do Império Britânico das Índias. A tese de Obama é de que é necessário regular o conflito da Caxemira, que já foi motivo de três confrontos armados entre a Índia e o Paquistão (1947, 1965, 1999), de modo que Islamabad pare de ser incomodado pela ameaça indiana à leste e lance todas as suas forças contra os talebans à oeste.

Essa simples perspectiva de uma "internacionalização" da questão da Caxemira irrita Nova Déli, que toma esse assunto como de âmbito estritamente bilateral indo-paquistanês e que não admite qualquer intervenção exterior.

À falta de um sinal de Obama, que não confirmou ainda suas propostas de campanha, os indianos se prendem a David Miliband, o ministro britânico de Relações Exteriores. Ele expressou uma idéia similar durante uma visita à Índia, em meados de janeiro, quando estabeleceu uma ligação entre o ataque terrorista em Mumbai (novembro de 2008) e a questão da Caxemira. Em resposta, um porta-voz do ministério indiano de Relações Exteriores disse: "Nós não temos necessidade de avisar aos não envolvidos sobre a questão interior da Caxemira". Barack Obama está avisado.

Tradução: Edilson Saçashima

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