UOL Notícias Internacional
 

29/01/2009

Na Amazônia, rio Negro enfrenta o aumento do tráfico de cocaína

Le Monde
Jean-Pierre Langellier
Naquele dia, os policiais de Manaus não acreditavam no que viam. Sua patrulha fluvial acaba de fiscalizar a carga de uma grande embarcação. A bordo, entre outros passageiros, encontra-se Érica, de 23 anos, grávida de oito meses e acompanhada de seu filho, de um ano de idade. Essa jovem transporta consigo raízes de mandioca muito especiais. Elas contêm garrafinhas plásticas cheias de cocaína.

O delegado Roberto Câmara constata, com um pouco de admiração secreta, a infinita "criatividade" dos traficantes de droga que dominam a região. No decorrer dos últimos meses, seus homens encontraram um pouco de droga em cada canto. Em latas de cerveja, de sardinha, forros de jeans, engradados de legumes com fundo falso, lotes de queijo, sandálias de solado grosso.

Na Amazônia, assim como no resto do Brasil, a cocaína viaja de forma clandestina de todas as formas possíveis. Em pó, claro, dentro de sachês ou falsos bombons. Mas também em folhas, em cristais ou em tijolos, às vezes cobertas com um envelope de chumbo para enganar os raios-x. Muitas vezes ela é diluída em diesel, molhos, óleo de cozinha, ou gorduras orgânicas diversas.

A alguns quilômetros rio abaixo de Manaus, a natureza oferece um espetáculo magnífico: o encontro entre as águas beges do rio Solimões e as águas escuras do rio Negro que, juntas, correm sem se misturar por uma grande extensão e depois formam a Amazônia, o rio mais poderoso do mundo. O rio Negro nasce nos Andes colombianos e atravessa a Venezuela antes de irrigar o Brasil. Hoje ele se tornou uma importante rota de cocaína.

Até agora, a maior parte da droga atravessava o "trapézio amazônico", a região das três fronteiras entre o Brasil, a Colômbia e o Peru, antes de navegar pelo Solimões. O reforço da fiscalização fez com que os traficantes e suas "mulas" começassem a frequentar o outro grande curso de água, mais ao norte, pelo qual a cocaína "desce" em direção a Manaus, no coração da Amazônia.

É quase impossível impedir que a droga entre no Brasil. Por falta de homens, de meios e de uma cooperação eficaz com os três vizinhos - Colômbia, Bolívia, Peru -, trio que encabeça a produção mundial de cocaína. Os traficantes colombianos, ligados ou não à guerrilha das Farc, circulam livremente entre os civis nas cidades fronteiriças, munidos de falsos documentos.

A maior parte da repressão recai sobre as equipes de observadores rápidos da polícia federal. Muitas vezes eles iniciam suas buscas a partir de informações fornecidas por agentes infiltrados ou seguindo denúncias. A qualidade das informações é crucial para obter um flagrante, passível de cinco a quinze anos de prisão. Em dezembro de 2008, a polícia realizou sua maior apreensão dos últimos dez anos: cerca de 650 kg de cocaína enterrados em uma ilha do rio Negro. Os quatro traficantes detidos, sendo um deles um colombiano a serviço das Farc, estavam equipados com dois sistemas GPS por meio dos quais eles haviam localizado com precisão a mercadoria, avaliada em € 2 milhões.

Três toneladas de drogas foram apreendidas em 2008 no Estado do Amazonas, ou seja, 40% a mais do que em 2007. Segundo especialistas, isso representa um décimo do volume em circulação. Oldemar Ianck, um dos responsáveis pela "zona franca" industrial de Manaus, reconhece que o narcotráfico se tornou "um sério problema de segurança pública". Causador de 60% das penas de prisão, ele é em parte gerado por detentos, membros do Primeiro Comando da Capital (PCC), a rede criminosa que reina sobre a delinquência penitenciária. A outra fonte de preocupação para as autoridades é que a droga contamina a vida cotidiana dos índios da Amazônia, dos quais um grande número cai na dependência e ilegalidade.

Em Manaus, assim como em outras partes, a droga gera todas as formas de criminalidade: roubo, assassinato, contrabando de armas, lavagem de dinheiro. Jovens com apelidos viris, às vezes ainda adolescentes, se matam uns aos outros pelo controle de um "ponto de venda" ou para substituir um "xerife" que foi preso.

O crescimento do tráfico, estimado em US$ 5 bilhões, acompanha a expansão alarmante do mercado nacional. Segundo o último relatório especializado da ONU, metade das 80 toneladas de pasta-base de cocaína que penetram no Brasil é consumida dentro do país. Em quatro anos, o número de usuários aumentou 75% para a cocaína, e 160% para os derivados da maconha. O tráfico não prospera somente nas favelas do Rio. Ele se expande abertamente em certas ruas dos centros históricos de São Paulo ou de Salvador, onde se fuma o crack de forma abundante.

Apesar dos esforços da polícia, os traficantes mantêm uma distância de vantagem. Sua imaginação é fértil. Em maio de 2008, a alfândega do aeroporto do Rio descobriu 117 lindos cartões postais que iam para a Espanha: cada um deles continha 30 gramas de pó. E pela primeira vez, imagens de satélite revelaram plantações de coca no Brasil. Trata-se de uma espécie transgênica perfeitamente adaptada ao clima da Amazônia.

Tradução: Lana Lim

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h58

    -0,53
    3,128
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h20

    -0,28
    75.389,75
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host