UOL Notícias Internacional
 

29/01/2009

Uma nova "divisão" da Bósnia

Le Monde
Jean-Arnaud Dérens
Na manhã de terça-feira, a manchete cruzava a primeira página do "Oslobodjenje", o diário de Sarajevo: "Três entidades e um distrito de Sarajevo". O jornal explica que "a divisão do país foi ratificada". De fato, na véspera os dirigentes dos três principais partidos da Bósnia-Herzegovina fizeram um acordo surpresa que reexamina totalmente a organização do Estado.

Desde o fim da guerra e dos acordos de Dayton em 1995, a Bósnia foi dividida em duas "entidades", a República Sérvia e a Federação da Bósnia e Herzegovina, que por sua vez é dividida em seis partes. A Bósnia possui, assim, 13 governos, duas polícias separadas e milhares de funcionários. Tomar qualquer tipo de decisão exige meses, talvez até anos, de negociações, e nunca se chegou a nenhum consenso sobre uma reforma global das instituições.

Os bósnios muçulmanos querem uma reunificação do Estado, e explicam que essa escolha seria funcional e permitiria ao país que finalmente se envolvesse no processo de integração europeia, ao passo que os sérvios querem ampliar as qualificações da República Sérvia. Os croatas (somente 10% da população total), por sua vez, continuam a sonhar com uma "entidade" específica.

Na segunda-feira, Sulejman Tihic, Milorad Dodik e Dragan Covic, os respectivos dirigentes do Partido da Ação Democrática (DAS, muçulmanos bósnios), da União dos Social-Democratas Independentes (SNSD, sérvios) e da Comunidade Democrática Croata (HDZ BiH), se encontraram em Banja Luka, capital da República Sérvia. Eles adotaram um documento que regula diversos pontos que são motivos de litígio há anos, como a organização de um recenseamento, ou a possibilidade para os sérvios e croatas da Bósnia de obterem a dupla cidadania.

Contudo, o documento rubricado vai bem mais longe, uma vez que prevê uma reorganização da Bósnia-Herzegovina em três "regiões", sendo que a capital Sarajevo terá o status de "distrito federal".

Poucos detalhes foram comunicados, mas essas regiões seriam sobrepostas às "entidades" cuja existência é garantida pelos acordos de Dayton. Os chefes dos três partidos devem se reencontrar no dia 23 de fevereiro em Mostar.

Haris Silajdzic, membro da presidência colegial do Estado da Bósnia e grande rival de Sulejman Tihic no meio do campo bósnio muçulmano, pronunciou as palavras mais duras. "É o acordo, é a divisão da Federação", disse ele a Sulejman Tihic na noite de segunda-feira, durante um programa de televisão que quase se transformou em luta. "A República Sérvia permanece intocada, ela até recuperará toda a Posavina e o distrito de Brcko, ao passo que a Federação se despedaçará".

Parece que os signatários do acordo já interpretam de forma diferente o documento que eles acabam de rubricar. Para Sulejman Tihic, as regiões não terão base "étnica", mas serão baseadas em coerências geográficas ou econômicas, é o que contestam os dirigentes sérvios e croatas.

Por outro lado, os três partidos signatários não possuem maioria suficiente nas Câmaras da Bósnia para conseguirem adotar esse acordo, negociado em segredo. Eles deverão juntar outras formações a seu projeto, já rejeitado pela oposição social-democrata.

Esse acordo foi assinado alguns dias após a partida, também precipitada, do alto representante internacional na Bósnia, encarregado desde 1995 de velar pela aplicação dos acordos de paz: o eslovaco Miroslav Lajcak foi convocado, na última sexta-feira, a se tornar ministro das relações exteriores de seu país, e ele não possui um sucessor designado. Ainda não se sabe se o cargo do alto representante será mantido, ainda que se fale há vários anos de sua extinção e que essa instituição não tenha mais orçamento, financiando seu funcionamento sobre os fundos europeus IPA, previstos normalmente para o desenvolvimento da Bósnia. Mais uma vez pega de surpresa pela aceleração dos acontecimentos, a comunidade internacional parece mais desprovida do que nunca de qualquer estratégia coerente na Bósnia-Herzegovina.

Tradução: Lana Lim

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