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02/02/2009

Ex-refém revela detalhes dos momentos em que esteve nas mãos dos taleban

Le Monde
Jacques Follorou
Johan Freckhaus "confiava em sua boa estrela" e as pessoas que o rodeavam também "acabaram acreditando", diz ele; mas em retrospectiva ele tem a sensação de que "se enganou" e "colocou todo mundo em uma situação difícil". Que "situação"? Na primavera de 2008 ele foi refém dos taleban durante três semanas. Seu conhecimento do Afeganistão, onde morava havia nove anos, seu domínio do dari, uma das duas línguas principais do país, e a ausência de sequelas graves ligadas a sua detenção fazem dele uma testemunha rara, capaz de compreender muito bem seu ambiente. Seu depoimento também permite aproximar-se do dia-a-dia dos combatentes taleban e, por extensão, compreender certas razões de sua revitalização, sete anos depois de caírem do poder. Novamente na França após temporadas no estrangeiro, ele aceitou contar sua experiência.

Johan Freckhaus, 37 anos, dirigia uma construtora e acompanhava a construção de postos de polícia no Afeganistão. Ele efetuava o trajeto de táxi de Kandahar a Cabul em 29 de maio de 2008 com dois de seus engenheiros afegãos, quando foi sequestrado de madrugada no sul da província de Ghazni. Foi libertado em 19 de junho pelo serviço secreto francês.

Separado de seus dois colaboradores durante todo esse período, ele foi detido por um grupo de taleban no distrito de Andar, no sudeste do Afeganistão, feudo dos rebeldes contrários ao governo afegão e às forças da Otan.

Naquela quinta-feira, 29 de maio, como não pôde encontrar um avião para voltar a Cabul, ele convenceu seus dois engenheiros, hesitantes, a acordar um taxista na estação rodoviária de Kandahar. Nas primeiras horas do dia eles pegaram a estrada cheia de caminhões queimados. O motorista lhes contou sobre as últimas emboscadas nessa pista, que se tornara uma das mais perigosas do país, e que os ocidentais, ONGs e até a ONU não utilizavam mais.

"Por volta das 6h30, fomos bloqueados por uma barreira", lembra-se Freckhaus. "Eu senti que eram falsos policiais. Apesar de a caminhonete atravessada na estrada ter o símbolo da polícia, os uniformes dos homens armados eram muito diferentes." Ele continua: "Debruçado na nossa janela, o guarda armado não olhou para mim nem por um segundo. Eu era o mais velho, barbudo, de olhos escuros, enquanto meus engenheiros não usavam barba, pareciam homens urbanos, e um deles tem olhos azuis." Isso os fez ser afastados da estrada, e mal tiveram tempo para esconder seus documentos e seu telefone em cantos do veículo.

"Eu os deixei acreditar que eu era do Nuristão, uma província no norte, mas eles sentiam que havia alguma coisa de anormal." A chegada do chefe do grupo, o mulá Anuar, os interrogatórios separados dos três homens e os golpes recebidos pelos dois engenheiros sob os olhos do francês levaram Freckhaus a confessar sua verdadeira nacionalidade. "A coisa não cheirava a morte", ele admite.

Esse ex-capitão do 2º regimento estrangeiro de infantaria da Legião Estrangeira se encontra então de olhos vendados, pés e mãos amarrados. Sob pressão, um dos engenheiros afegãos revelou ao mulá que antes de se lançar nos negócios o empresário francês havia combatido nas fileiras do comandante Ahmed Chah Massud entre 1999 e 2001. Esse chefe militar, herói da resistência contra os soviéticos, morto em 9 de setembro de 2001, foi o principal inimigo dos taleban.

Instado a se explicar sobre essa passagem, o refém francês nada nega. "Mas naquele momento eu cedi, as lágrimas correram sob a bandagem, confessando essas ligações, eu pensei que meu destino estivesse selado." Ele foi deixado até a noite embaixo de algumas árvores antes de ser transferido em uma motoneta para um celeiro onde correntes substituíram as cordas. "Só depois eu compreendi que não eram taleban: esse grupo escutava música e não tinha o rigor teológico dos militantes islâmicos."

No terceiro dia, depois de um percurso acidentado de carro, ele foi entregue a um verdadeiro chefe taleban apelidado de "Elias". O mulá Anuar filmou a cena para servir de garantia pessoal; não poderão dizer que ele maltratou o francês se lhe acontecesse algo de ruim. Depois de temer ser conduzido às áreas tribais paquistanesas, onde se misturam taleban e combatentes da Al Qaeda, Freckhaus chega ao distrito de Andar. Ele muda de local de detenção todas as noites. "Elias era um puro e duro de 25-30 anos, um afegão que passou pelas madraças paquistanesas", ele diz.

A vida é ritmada pelas cinco orações do dia. "Havia um taleban encarregado da logística, um antigo da guerra contra Massud. Às vezes à noite nos movíamos apenas 500 metros, outras vezes caminhávamos durante uma hora, dormíamos em fazendas mantidas por partisans. As crianças da casa vinham me ver amarrado, seu olhar me causava mais dor do que as amarras. Nessa região, os taleban estão inseridos na população, ela os abriga, os alimenta e os informa." Durante as transferências o céu era percorrido por aviões teleguiados e helicópteros. "Os taleban pareciam temer menos as observações aéreas do que sua localização graças aos chips de seus telefones, que eles retiravam todas as noites." As forças americanas realizaram então uma ofensiva no distrito de Andar para desalojar os numerosos taleban que haviam se instalado ali.

Certa noite, Freckhaus se encontra em companhia de outro detido, um comerciante iraquiano, preso um mês antes. "A partir do nono dia parei de contá-los, eu me preparei para uma longa detenção, enquanto pensava em fugir, e imaginava partir uma noite, aproveitando que eles ficavam sem comunicação."

Os guardas alternavam entre os combates e a guarda do prisioneiro. O refém se lembra de tê-los ouvido contar algumas de suas operações. "Eles haviam atraído comandos americanos para uma emboscada, deixando um celular aceso, com o qual eles haviam se comunicado em árabe em uma casa abandonada, e depois tinham minado o lugar; eles estavam contentes, parece que a armadilha tinha funcionado."

O dia-a-dia com seus carcereiros reserva outras surpresas. Um deles, durante uma oração, deixa cair uma granada, criando grande comoção na casa. Em outro dia, um guarda adormece. O mais velho deles já tinha sido requisitado em julho de 2007 para vigiar reféns sul-coreanos. Dois deles tinham sido mortos e os outros, libertados depois de negociações. Ele explica ao refém iraquiano que no inverno ele volta a Karachi, no Paquistão, para cuidar de sua pequena loja. "Apesar da idade, ele fazia a jihad depois da morte de seu filho em Kunduz em 2001", explica Johan Freckhaus.

Certa tarde Elias organiza uma entrevista, que será filmada, entre o francês e um alto responsável taleban. "Ele falava correntemente inglês, e me fez perguntas principalmente sobre meu percurso com Massud. Queria saber se eu tinha matado taleban, e fui evasivo."

Durante seu envolvimento ao lado de Massud, Freckhaus esteve com atiradores de elite, dos quais ele era instrutor, na linha de frente da planície de Shamali, ao norte de Cabul. Mas seus carcereiros não sabiam disso. Eles ficaram com suas primeiras declarações sobre sua posição de "instrutor".

"Vivendo com esses taleban, eu pensava nos afegãos que eu tinha conhecido na época de Massud, tão nacionalistas e religiosos quanto os outros", ele lembra. "Em 2000 os comandantes de Massud me diziam para atirar nos árabes e nos paquistaneses e deixá-los acertar seus assuntos entre afegãos. Desta vez, os taleban reconheciam em Massud uma coragem afegã que eles negavam aos paquistaneses e aos árabes. Nos dois campos eles não compreendiam que eu não era muçulmano." Isso não exclui verdadeiras nuances. "Para Massud, as meninas têm direito à educação, e ele respeitava a herança histórica pré-islâmica do país, encarnada pelas estátuas de Buda destruídas pelos taleban em 2001."

Em 19 de junho, quando a rotina da vida de refém se instalou, Freckhaus captou uma conversa entre dois guardas: "Ele vai ser trocado", diziam. "Eu pensei que eles falavam de meu companheiro iraquiano, mas era de mim." Ele foi transferido em pleno dia em uma moto de olhos vendados para o pátio da casa de um mulá local, ligado aos taleban, onde reencontrou seus dois engenheiros. Uma ligação telefônica com um negociador francês, encarregado pela França de obter sua libertação, anuncia a emissão da prova, enquanto, escondida em um canto, a filha do mulá fixa o olhar no refém. Como despedida, Elias lhe diz "se nós o pegarmos de novo, o mataremos. Não somos amigos", e depois pergunta: "O que você pensa de mim?"

Um dos dois helicópteros Caracal da aeronáutica francesa baseados no aeroporto de Cabul recupera os reféns. Repatriado em uma das bases do serviço secreto (DGSE) em Orléans, o ex-detido francês é interrogado durante algumas horas depois de pousar. No avião de volta, Johan Freckhaus, compreendendo o valor dos meios utilizados para sua libertação, se preocupa, sorrindo, com a fatura que terá de pagar. Um membro do DGSE lhe responde, no mesmo tom: "Não se preocupe, você nunca poderá pagar".

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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