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03/02/2009

Altermundistas são reanimados pelo sucesso do Fórum Social Mundial

Le Monde
Laurence Caramel
Em Belém
O Fórum Social Mundial (FSM) é uma experiência de "desordem criativa". Nunca como em Belém foi necessário se apegar a essa definição proposta pelo filósofo Patrick Viveret para sobreviver em um evento que reuniu, entre 27 de janeiro e 1º de fevereiro 133 mil pessoas, superando todas as previsões.

Falta de tradução, desorganização, horas perdidas para chegar a reuniões distantes vários quilômetros: o percurso do militante muitas vezes se pareceu com o do combatente, obrigatoriamente equipado de bons sapatos e de um guarda-chuva para se proteger das chuvas diluvianas nesta época do ano.

Além desses contratempos, a edição 2009 confirma que o Fórum continua sendo um lugar de efervescência e de fermentação de ideias. Um laboratório de experiências e de propostas ao qual a crise deu mais crédito, validando um certo número de profecias altermundistas (ou antiglobalização). "Temos agora a responsabilidade de colocar na mesa propostas fortes e de divulgá-las", admite Jean Merkaert, do Comitê Católico Contra a Fome e pelo Desenvolvimento (CCFD na sigla em francês).

Entre essas propostas está a supressão dos paraísos fiscais, que, para John Christensen, da rede Tax Justice, "são o elo frágil de um sistema no qual todos os desvios das finanças puderam prosperar". A liberalização dos serviços financeiros também é acusada. "Ela permitiu que os bancos crescessem, e eles ficaram grandes demais para que os deixem falir. É preciso voltar atrás e exigir que eles financiem atividades úteis à sociedade", afirma Myriam Vander, do Centro Holandês de Pesquisas sobre Multinacionais.

Economia solidária
"Todas as crises - alimentar, energética, financeira - que abalam o planeta estão interligadas. As soluções não podem ser construídas imaginando-se preservar um sistema que consome de modo insustentável os recursos naturais", resume o economista peruano Oscar Ugarteche.

Em plena Amazônia, os povos indianos maciçamente presentes em Belém lembraram essa ligação que existe entre o homem e a natureza. "O mundo indígena é uma sociedade de partilha e de bem-estar, e não uma sociedade de acumulação", salienta Candido Grzybowski, um dos fundadores do Fórum.

Para que a Amazônia seja preservada, as organizações ecológicas pediram em Belém a ruptura com um modelo de desenvolvimento que conduz à transformação da floresta em pastos ou em áreas de monocultura intensiva de soja. Elas defenderam um agroflorestamento capaz de explorar os recursos da floresta sem a destruir. "Essa solução preserva o meio ambiente e garante a segurança alimentar das comunidades locais", defende o Movimento Agroecológico da América Latina. Já há experiências em curso, como no estado do Acre, na fronteira boliviana, cujo governo escolheu valorizar sua "floresta de pé".

Ao lado de todas as pistas de reflexão, Belém também foi a ocasião para se constatar a vitalidade da economia solidária na maioria dos continentes. "Milhões de pessoas vivem e constroem diariamente alternativas para viver melhor. Isso é pouco visível, mas já existe uma outra economia", insiste Ethel Côté, uma participante canadense.

"Mesmo nos EUA, o movimento se amplia e vamos empurrar Barack Obama nessa direção", explica Julie Matthaei, da Solidarity Network. Pela primeira vez em um Fórum Social a bandeira americana não foi queimada, e pode até ser que o próximo encontro, em 2011, seja organizado nos EUA.

"Oferecemos outra perspectiva sobre a crise, ao mostrar que existem alternativas para um capitalismo em falência. E quem pode negar que isso é necessário hoje?", lançou Grzybowski ao encerrar o Fórum. Os participantes voltam de Belém reabastecidos de energia. Marcaram encontro em 28 de março em Londres, alguns dias antes da reunião do G20, onde os altermundistas esperam retomar as grandes manifestações que fizeram seu sucesso.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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