UOL Notícias Internacional
 

03/02/2009

Nouri Al-Maliki, itinerário de um "iraquista"

Le Monde
Patrice Claude
Em Bagdá
No fim de discurso, como é de costume no mundo tribal, um jovem sheikh glabro, com keffiyeh [pano] xadrez no rosto e longa capa bege de pelo de dromedário nos ombros, se levantou para entoar em voz alta as loas do orador. "Maliki, tu és grande! Maliki, nós te amamos! Maliki, tu és..." Em 26 de janeiro, no salão de recepção do Hotel Al-Mansour, uma alta torre construída à beira do rio Tigre em Bagdá, alguns dos 700 sheikhs da grande confederação tribal dos Bani Maliks, convidados naquele dia para ver e ouvir "seu" primeiro-ministro, retomam as estrofes com timidez. O show não irá longe.

Usando um colete à prova de balas, uniforme camuflado e com um fuzil de assalto M16, um guarda surgiu na sala e avançou sobre o adulador. Um gesto de queixo e um olhar assassino bastaram. Podado em seu entusiasmo, confuso e triste, o rapaz se sentou novamente. Os outros, com o mesmo keffiyeh, mesma capa, mesma atitude reverente, seguiram.

"Nouri Kamel Al-Maliki", nos explica o sheikh Abdel Mair, apoiador tribal nomeado do chefe do governo, "não é Saddam Hussein. É um homem modesto, educado, que detesta manifestações retrógradas desse tipo". O que evidentemente não impede o político informado que ele também apele à sua filiação tribal para reunir votos a favor da lista que ele patrocinava para as eleições regionais do dia 31 de janeiro.

"Iraquiano, árabe, muçulmano, xiita, militante do partido Al-Daawa, membro da tribo Albou Ali". É assim, "nessa ordem", ressalta o pesquisador franco-iraquiano Hosham Daoud em um estudo acadêmico intitulado "Nouri Al-Maliki, ou o provável nascimento de um homem de Estado", que quer aparecer o primeiro-ministro. Inicialmente improvável por não ser mais do que um candidato saído de um partido religioso xiita minúsculo - criado em 1957, o Daawa [o Chamado] foi dizimado por Saddam Hussein e hoje só controla 9 cadeiras em 275 na Assembleia - , sua aposta deu certo.

"Vamos admitir: Maliki, apesar de xiita, realizou um trabalho extraordinário", afirmou na semana passada em Fallouja o sheikh Eifan Saadoun Al-Issaoui, chefe incontestável da grande tribo sunita dos Albou Issaouis. Quaisquer que sejam os resultados definitivos das eleições regionais, que aconteceram no sábado (31 de janeiro) em 14 das 18 províncias do país, o homem que governa o Iraque há três anos, com essa inimitável mistura de gentileza e brutalidade, que surpreendeu adversários e aliados, se instalou de forma durável, tanto no cenário político nacional como no inconsciente de seus cidadãos.

"Personagem totalmente misterioso"

Ele acha que aqueles que colocaram bigodes em alguns de seus retratos nos cartazes eleitorais, sugerindo uma espécie de parentesco "ditatorial" com o finado Saddam Hussein, acabaram lhe fazendo um favor. "Com o clima atual", comenta um alto funcionário internacional em Bagdá, "talvez a parte da população iraquiana que espera por um chefe que comande, um déspota esclarecido, enfim, uma espécie de Saddam Hussein light, seja maior do que se pensa..."

De qualquer modo, para muitos, mesmo que seus postos não estivessem em jogo, as eleições de 31 de janeiro pertenciam a uma espécie de referendo sobre a personalidade e os resultados desse político enigmático.

Exceto por sua família e alguns membros privilegiados de sua tribo ou seu partido, quem pode se gabar de conhecer Nouri Kamel Al-Maliki? Um de seus conselheiros políticos próximos, um homem que assiste a todas as reuniões do governo e que o vê cara a cara todos os dias no exercício de suas funções, o confessa "humildemente" ao "Monde": "Confesso que o personagem continua sendo totalmente misterioso para mim".

Sabe-se que ele logo fará 59 anos, que ele nasceu em uma pequena cidade chamada Al-Hindiya, outrora Twerij, na província de Kerbala, a cidade sagrada xiita onde está sepultado Hussein, o neto mártir do Profeta, adorado pelos xiitas,. Sabe-se que o adolescente viveu em uma aldeia próxima chamada Hillah e Kerbala. Uma aldeia "cujas ruas poeirentas onde mal consegue passar um carro e onde o único prédio novo é uma escola", relata um colega iraquiano que conseguiu chegar lá.

Sabe-se ainda que, condenado à morte à revelia pelos tribunais baathistas, Nouri Al-Maliki, membro do Daawa desde os 20 anos em 1970, teve de se exilar após a nomeação de Saddam Hussein a chefe de Estado em 1979. "Vários membros de sua tribo foram enforcados durante a grande repressão baathista", afirma Hosham Daoud.

Ele primeiro fugiu para a Síria, onde ficou por pouco tempo, e depois foi para o Irã onde muitos de seus colegas de partido se refugiaram. Cinco anos mais tarde, preocupado com a expropriação crescente da revolução khomeinista sobre seu partido - que acaba criando, em 1982, um outro partido de exilados, a Assembleia Suprema Islâmica do Iraque, que hoje é ao mesmo tempo o parceiro político e principal rival do Dawaa - ele retoma o caminho de Damas. Nessa época, Nouri troca seu nome por Jawad, "o generoso", em árabe. Dizem que ele dirige, a partir da capital síria, as operações secretas contra o regime iraquiano. Mas não se tem certeza de nada.

De volta ao Iraque após a invasão anglo-americana em 2003, ele preside por algum tempo o comitê nacional de debaathificação. Ele se mostra "duro e inflexível" com aqueles que têm sangue iraquiano nas mãos. Uma vez chefe do governo, ele se mostra intratável com aqueles que lutam pela causa de Saddam Hussein e querem evitar seu enforcamento.
Quando o ex-ditador é executado sob seu mandato, em dezembro de 2006, ao contrário de muitos outros políticos vingativos, ele não faz nenhum comentário. O homem não é de falar muito. Ele conservou os hábitos de sua clandestinidade. Ele não gosta dos holofotes, nunca fala de si, e só concede entrevistas muito raramente.

Ele parece um professor de faculdade

Filho de um funcionário de quem ele nunca fala, Nouri Al-Maliki se mostra no entanto bastante "orgulhoso" de seu avô, um famoso membro da tribo dos Albou Ali, que foi por um breve período, em 1927, ministro da educação no primeiro governo monárquico do Iraque. Algum tempo antes, tendo participado da grande rebelião tribal, o mesmo homem havia sentido a palha das masmorras britânicas. "Era um poeta", revela com simplicidade o primeiro-ministro ao "Times" de Londres, em outubro de 2008: "Ele havia escrito contra o colonizador, ele foi preso em duas ocasiões. Mas não há nenhum razão para que permaneçamos prisioneiros do passado".

Ele é "muito religioso na esfera privada", conta Saleh Abdel Razzaq, um de seus amigos políticos. O álcool é proibido em sua mesa e ele nunca se esquece de se retirar na hora das orações, mas "o primeiro-ministro nunca pediu, como fazem com frequência outros militantes islamistas, pela abolição do comércio de álcool no Iraque ou pela instituição do véu obrigatório para as mulheres. Não é o estilo dele".

Titular de licenciatura em ciências islâmicas obtido em Bagdá antes de seu exílio e de um mestrado em literatura árabe pela Universidade de Erbil, "ele fala uma língua distinta e rica", diz Abdel Razzaq. No entanto, ele não é o que poderíamos chamar de orador. Com seus eternos óculos apoiados no nariz e seu imutável terno ocidental cinza, ele muitas vezes parece não um grande líder árabe, mas sim um professor de faculdade, entediante de tão austero e totalmente desprovido de charme.

Contudo, nem todo mundo se convence por esse ar bondoso. Nouri Kamel Al-Maliki seria um fundamentalista xiita disfarçado de nacionalista liberal para ganhar as eleições? Ou senão um autêntico convertido que aprendeu a "sentir" o país profundamente e decidiu, em seguida, calcar seu programa nos desejos da população para manter o poder? "Quando ele troca seu Islã por um discurso reformista, não se sabe ao certo se ele está sendo sincero", confessa Ghassan Al-Attiya, um analista político que dirige a Fundação Iraquiana para o Desenvolvimento da Democracia.

Quem pode saber? Homem reservado por excelência, dizem que o primeiro-ministro não confia em quase ninguém. É possível medir isso por meio de seus exercícios de equilibrista. Aliado em 2006 aos islamistas de Moqtada Al-Sadr, o pregador radical antiamericano, ele não hesita em lançar, em abril de 2008, as forças da ordem contra o Exército do Mahdi, a terrível milícia "sadrista" que faz reinar o caos em Basra e em Bagdá. A minoria sunita, que o tomava por um xiita sectário, aplaude.

A virada em sua popularidade foi iniciada. Após anos de sofrimento e humilhação, ele desperta um sentimento nacional. Ele logo se oporá com vigor às ambições territoriais curdas, seus aliados políticos no Parlamento. Com o vizinho iraniano, ele se mostra ao mesmo tempo gentil e distante. O mesmo vale para seus protetores americanos. "Maliki", resume muito bem Abdel Razzaq, "é antes de tudo um iraquista".

Tradução: Lana Lim

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