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05/02/2009

As convicções de Lilian Thuram

Le Monde
Entrevista concedida a Benoît Hopquin e Frédéric Potet
A greve geral, que paralisa Guadalupe desde 20 de janeiro, sensibiliza aquele que é um dos mais famosos nativos da ilha: o ex-jogador de futebol Lilian Thuram, 37 anos, aposentado dos gramados há seis meses, após a descoberta de problemas cardíacos.

Membro do Alto Conselho para a Integração (HCI) desde 2002, o recordista de jogos pela seleção da França (142) se manifesta pela primeira vez sobre o assunto.

Le Monde: O que a greve geral em Guadalupe lhe inspira?

LT:
Acho que o eco que é feito desse movimento, que dura quase duas semanas, não é muito importante. Imagine a mesma situação de crise em uma região totalmente diferente da França: creio que ela atrairia mais atenção. Em relação às reivindicações sobre o "alto custo de vida", elas me parecem tão legítimas quanto são justificadas pelo próprio Estado: quando um funcionário é transferido da metrópole para as Antilhas, na verdade ele recebe um bônus de "alto custo de vida", que aumenta seu salário em 40%.

É exatamente a prova de que o Estado tem consciência de que o custo de vida é exorbitante lá. Tenho duas irmãs que vivem e trabalham em Guadalupe: cada vez que elas vêm a Paris, elas voltam para casa com sacolas cheias de xampu, sabonete, fraldas, roupas...
Elas não estão em situação de precariedade. Mas todos os guadalupenses fazem isso. É um reflexo diante do alto custo de vida.

Le Monde: Esse movimento não vai além da singularidade antilhana?

LT:
Sim, certamente. Ele se inscreve na continuidade da crise que começou nos Estados Unidos e que se estende à Europa e outras regiões do mundo. Trata-se de um movimento conjunto cuja característica é que ele atinge com mais força aqueles que têm menos dinheiro. Pois a pobreza ganha terreno em nossas sociedades há alguns anos. Nosso país não consegue mais satisfazer os direitos básicos: pessoas morrem de frio na França; outras vivem em seus carros, quando têm um emprego; e nunca os "Restos du Coeur" [instituição de caridade francesa] serviram tantas refeições...

Será que estamos nos encaminhando para uma sociedade que ainda é capaz de pensar nos mais fracos? Essa é a pergunta que os franceses se fazem hoje, especialmente os guadalupenses. É para se pensar se esse movimento não é uma prévia do que poderia se passar no continente.

Le Monde: O que o senhor quer dizer?

LT:
Uma situação comparável àquela que bloqueia a ilha hoje pode perfeitamente acontecer no continente. Guadalupe muitas vezes está à frente da metrópole em matéria de conflitos sociais. Se eu lhe perguntar o que "maio de 67" lhe inspira, você me responderá que eu me enganei de ano, ou que eu não conheço a história da França.

Poucas pessoas se lembram dos acontecimentos de maio de 1967 em Guadalupe: três dias de tumultos, reprimidos por tropas de choque, 87 mortos, porque os operários pediam por um aumento salarial. Nas manifestações também havia estudantes: isso não lhe lembra nada? Seria errado minimizar a greve geral que acontece hoje em Guadalupe, ou pensar que ela é feita por uma única organização separatista. Todos os sindicatos estão por trás disso. Exatamente como na França, na quinta-feira 29 de janeiro, quando mais de um milhão de pessoas desfilaram nas ruas...

Le Monde: Essa crise guadalupense não revela uma doença mais profunda no cerne da sociedade antilhana?

LT:
Sim. Quando olhamos a situação econômica da ilha, nos damos conta de que a maioria das riquezas está nas mãos dos "békés" (descendentes dos escravagistas), os quais, brancos, representam menos de 1% da população. São eles que hoje possuem a maioria das terras, supermercados, sociedades petroleiras, e que determinam os preços em todos os lugares.

Eles detêm 90% da economia guadalupense. Imagine o que sente a população, com 90% de negros e portanto descendente de escravos, que sofre a hegemonia dos filhos daqueles que os chicoteavam há 160 anos! Se acrescentarmos o fato de que os donos das grandes empresas, o prefeito, os grandes dirigentes e governantes da ilha são quase todos brancos, em um território cuja história é profundamente marcada pela escravidão, essa subrepresentação pode criar mal-entendidos e um grande sentimento de injustiça.

Le Monde: O que o senhor defende? A instauração de cotas étnicas?

LT:
Não. Não consigo conceber essa ideia de cotas. Para mim é mais importante que seja feito um grande trabalho para mudar o imaginário das pessoas. Peça a 100 pessoas que citem um período da história associado aos negros: a grande maioria vai responder que é o período da escravatura. Nos Estados Unidos, foi criada em 1926 uma Semana dos Negros Americanos, antes de ser transformada, em 1975, no Mês dos Afro-Americanos.

Assim, em fevereiro de cada ano a sociedade americana é convidada a redescobrir os negros que conquistaram coisas importantes: Martin Luther King, pensadores, artistas... O imaginário americano sobre a questão negra mudou profundamente graças a essa iniciativa, ao passo que o imaginário europeu ainda está muito ancorado na escravidão.
Quantas pessoas conseguem citar o nome de um único pensador negro na França?

Le Monde: O que representa a eleição de Barack Obama nesse contexto?

LT:
Pense em que mudança no imaginário coletivo representa a chegada de Obama quando lembramos que nos anos 1960 os negros se sentavam no fundo do ônibus! Os Estados Unidos souberam enfrentar sua história. É verdade que houve uma guerra civil para abolir a escravatura, lutas por reivindicações sociais, mortos... brancos e negros, os americanos aprenderam a viver juntos. Se a França nunca abriu o debate, é porque no fim da escravidão, os negros e os brancos não conviveram geograficamente.

Le Monde: O senhor estaria pronto para se envolver pessoalmente na política?

LT:
Por enquanto, não.

Le Monde: Segundo nossas informações, Nicolas Sarkozy lhe pediu, em 2008, para entrar no governo?

LT:
Isso mesmo. Encontrei Nicolas Sarkozy e Claude Guéant (secretário geral da presidência), que me propuseram o cargo de ministro da diversidade. Tivemos uma longa conversa. Mas, por razões evidentes, só pude recusar...

A política é algo muito nobre que não tolera o mais ou menos. É preciso aprender as coisas. É o que estou fazendo agora, encontrando pessoas de diferentes visões. Um dia, talvez...

Le Monde: O senhor chegou na metrópole há quase 30 anos. A França progrediu ou recuou na questão do racismo?

LT:
Algumas coisas melhoraram, é claro, mas ainda há tanto a fazer! Durante as palestras que dou com minha fundação (Educação Contra o Racismo), percebi que a maioria das pessoas - crianças e adultos - ainda acreditam que há diversas raças. Talvez fosse preciso começar do beabá. Se ensinarmos duas coisas bem simples a todas as crianças, uma delas sendo que só existe uma única raça - o Homo sapiens - e a outra que todos nossos ancestrais são os mesmos e vêm da África, tenho certeza de que isso resolveria o problema do racismo.

Tradução: Lana Lim

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