UOL Notícias Internacional
 

05/02/2009

As universidades africanas estão saturadas e desprovidas

Le Monde
Brigitte Perucca
Em Ouagadougou, Burkina Faso
Com cinco meses de atraso, nesta semana voltam as aulas na Universidade de Ouagadougou, paralisadas muito tempo por uma greve dos professores cheia de reviravoltas. Os alunos se preparam para retomar seus hábitos: levantar às cinco horas para conseguir um lugar na palestra que começa às oito.

Esperando que Ouaga-II, que começou a ser construída em 2008, veja a luz do dia.

Esperando também que seja aplicada a "política de fluxo duplo ou triplo", idealizada para absorver o número de alunos que disparou ainda mais este ano. "Um professor dará duas, ou até três vezes se necessário, o mesmo curso ao mesmo nível", explica o presidente da universidade, Jean Koulidiati.

Daí a necessidade de assinar um acordo com os professores, que conseguiram um aumento da porcentagem das horas extras. Com seus 42 mil estudantes (+25% em relação a 2007), suas salas lotadas e seus repetidos conflitos sociais, o maior campus de Burkina Faso ilustra os problemas do ensino superior africano: um excesso de estudantes cada vez mais difícil de administrar, uma qualidade de ensino em queda, a falta de oportunidades...

Já bastante cheias, as universidades africanas correm o risco de transbordar. Prova de que a educação básica e o acesso ao ensino secundário progridem, essa massificação promete se transformar em uma explosão de alunos. De 400 mil em 2005, o número de estudantes nos vinte países da África francófona - sem contar o Magreb - chegará perto de 2 milhões em 2015!

Ou seja, um crescimento de mais de 150% em países como Mali, Camarões, Benin e Senegal, ou entre 90% e 150% na Guiné, no Togo, no Gabão e na Mauritânia, segundo Pierre-Antoine Gioan, autor de um estudo sobre o ensino superior na África francófona publicado pelo Banco Mundial.

Enfrentando o mesmo crescimento no número de efetivos, a África anglófona optou por um aumento nas taxas de inscrição e por um processo seletivo para a entrada nas universidades. O setor privado, que cresce da mesma forma na parte francófona (onde mais de 50% dos estudantes do Burundi se inscreveram), prospera. As universidades da África francófona tentam absorver essas massas de jovens. Sem dúvida a equidade ganha com isso, mas a qualidade do ensino sofre.

Essa abundância de formados, em países onde a porcentagem de acesso ao ensino superior é muito pequena - cerca de 3%, contra 8% nos países com nível de desenvolvimento comparável como o Vietnã ou o Camboja - e onde as necessidades de desenvolvimento são imensas, propõe aos governos uma equação quase impossível de resolver.

Primeiro, por falta de meios. Pressionados pela comunidade internacional a atingir os objetivos do milênio, eles privilegiam o acesso à educação básica. Historicamente, os países africanos sempre optaram por políticas de ajuda social generosa - por meio de bolsas, habitação e alimentação - que hoje se revelam muito difíceis de manter. "As vantagens que os governos poderiam conceder para um sistema de elite não são mais sustentáveis em um sistema de massa", resume Gioan.

Os meios pedagógicos estão estagnados. "Em fisiologia vegetal, nós temos o mesmo material desde 1974, um único laboratório para 400 a 500 estudantes, que só têm uma sessão a cada duas semanas", explica Amadou Ouédragou, no departamento de biologia da faculdade de "Ouaga".

Depois, por falta de oportunidades. Enquanto as "saídas previstas" de jovens graduados ultrapassarão em muito os 3 milhões em 2015, as "demandas acumuladas" de empregos nos setores público, privado e rural girarão em torno de 1,4 milhão de empregos, segundo Pierre-Antoine Gioan.

Fábricas de desempregados

E por fim, por falta de formações adaptadas. Como no campus burquinense, onde a sociologia, a economia e o direito drenam o maior número de calouros, ao passo que os setores profissionais são embrionários. Seriam as universidades africanas fábricas de desempregados? 25% dos formados no ensino superior estão sem emprego, e 30% dos jovens graduados são superqualificados para a vaga que ocupam, destaca um relatório do polo de educação da Unesco de Dakar.

"Com menos de 5% de uma faixa etária na universidade, não há estudantes o suficiente em Burkina", afirma, no entanto, Koulidiati. Não o suficiente, mas já são demais, considerando as magras possibilidades de emprego ao se formarem, com exceção de uma dezena de setores exigentes, dos quais alguns pagam bem, e se referem a cerca de 500 estudantes em setores como o meio-ambiente e a mineração... como resume Joseph Paré, ministro do Ensino Secundário, Superior e da Pesquisa, "acabou o recrutamento maciço de funcionários".

Porém não é certeza que a mensagem seja passada aos estudantes. Todas as esperanças de Gaëtan, que acaba de concluir seu terceiro ano na faculdade de direito de Ouagadougou, continuam sobre os "concursos de magistrado" que ele prestará este ano. O setor privado ele não considera, pois "nós fomos formados para trabalhar para o Estado", ele diz.

Tradução: Lana Lim

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