UOL Notícias Internacional
 

05/02/2009

O belicismo dos monges budistas do Sri Lanka contra o separatismo tâmil

Le Monde
Frédéric Bobin
Em Colombo (Sri Lanka)
O venerável Athuraliye Rathana anda descalço pela sala ladrilhada e se senta em uma poltrona de salgueiro. As pás do ventilador no teto refrescam o ar morno desse subúrbio de Colombo mergulhado nas folhagens tropicais. Na parede, um quadro de Avalokiteshvara, o famoso bodhisattva de silhueta graciosa e dedos delgados. De cabeça raspada e envolto em seu manto púrpura, Athuraliye Rathana atende em seu mosteiro de Sadaham Sevana ainda em obras. Da sala de orações toda ensolarada, onde medita uma freira, percebem-se as escavadeiras trabalhando a terra fresca de onde surgirá um futuro stupa [mausoléu].

Athuraliye Rathana é um monge budista de olhar cordial, mas de palavras duras. "Nós apoiamos a ofensiva do exército", diz ele, satisfeito com o curso da campanha militar no norte do Sri Lanka contra os últimos redutos do movimento dos Tigres da Libertação Tâmil (LTTE). "O LTTE é uma organização racista e terrorista", ele acrescenta. "Não podemos aceitar nos tornar seus escravos".

O discurso do jovem venerável - ele tem 38 anos - é uníssono com a ideologia nacionalista que inspira há muito tempo o budismo do Sri Lanka, a religião adotada pela maioria cingalesa (74% da população). O budismo no Sri Lanka se identificou historicamente com a construção nacional. E também os monges sempre estiveram na vanguarda dos movimentos patrióticos contra a colonização britânica e, depois da independência de 1948, contra as reivindicações da minoria tâmil (15%) de religião hindu.

Alguns chegaram a enveredar pela violência. Em 1959, um monge assassinou o primeiro-ministro Solomon Bandaranaike, detestado por ter conferido à língua tâmil um status oficial nas províncias do norte e do leste da ilha. Se ele desaprova tal extremismo, Athuraliye Rathana não deixa de ser um partidário da agressividade, se opondo brutalmente a qualquer cessar-fogo com os Tigres. "O LTTE sempre usou os períodos de discussão para reforçar suas capacidades terroristas".

Eles são chamados de "monges guerreiros". Seu radicalismo não combina com a imagem angelical dos monges pacifistas de Mianmar ou do Tibete que tanto comovem o Ocidente. "Traição do budismo?", se preocupam alguns escritores. No entanto, ao se escutar o venerável Rathana, logo se entende que o budismo político no Sri Lanka não pode ser reduzido ao belicismo anti-LTTE.

A trajetória do monge militante é cheia de compromissos múltiplos. Ordenado aos 14 anos, ele completou sua formação estudando filosofia ocidental - ele se apaixonou por Hegel e Spinoza - antes de mergulhar nas questões da cidade. Adepto de uma mensagem onde se mesclam ambientalismo, moralismo e patriotismo, ele conhece bem os sindicatos contra a exploração de minas por multinacionais, licenças para venda de álcool, o tabagismo ou as conversões ao cristianismo, a última grande causa abraçada pelo clero budista.

Ao longo desses combates, o venerável Rathana se tornou uma figura nacional. Em 2004, ele entrou no Parlamento sob a bandeira do Jathika Hela Urumaya (JHU), ou Partido da Herança Nacional - , formação exclusivamente dirigida por monges. Com 6% dos votos, o JHU conseguiu eleger 9 deputados (em 225). Uma grande estreia.

Aliado ao Sri Lanka Freedom Party (SLFP), o partido do presidente Mahinda Rajapakse, que desencadeou a ofensiva militar contra os Tigres, o JHU voltou ao governo. Ele obteve o Ministério do Meio-ambiente, o que convém perfeitamente a seu projeto político.

O venerável Rathana sorri. "Muitos observadores só nos julgam pela nossa hostilidade ao LTTE", ele diz. "Mas esquecendo o LTTE, estamos em um paradigma totalmente diferente". Esse "paradigma" é explicado por Udaya Gammanpila, um oficial do JHU nomeado presidente da Autoridade Central do Meio-ambiente. "Por causa da modernidade da importação ocidental, o mundo enfrenta uma crise ecológica e energética. O budismo pode trazer soluções. É preciso adotar um modo de vida simples e ter compaixão por todos os seres vivos, incluindo a fauna e a flora". Será que o ecobudismo substituirá em breve o budismo militar no Sri Lanka? Para isso é preciso que os Tigres sejam derrotados, o que ainda não se conseguiu completamente.

Tradução: Lana Lim

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