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06/02/2009

O impacto ecológico das grandes barragens ainda precisa melhorar, segundo ONGs

Le Monde
Jean-Michel Bezat
Em São Salvador, Tocantins
Assim que elas tomaram conhecimento do projeto de barragem em São Salvador, no estado do Tocantins, dezenas de famílias pobres correram para esse eldorado e se instalaram ao longo do rio Tocantins. Porém, o cerrado, com suas árvores magricelas e atravessado por gado em regime extensivo, não tinha nada a lhes oferecer. Nada além das indenizações que os construtores pagam à população ribeirinha vítima da construção dessas grandes obras. Às vezes mesmo quando esses sem-terra não têm realmente direito a elas.

Mas isso já é passado. Na quinta-feira (5 de fevereiro), o presidente do Brasil deve inaugurar essa obra de 241 megawatts construída por um consórcio brasileiro junto com a GDF Suez. Luiz Inácio Lula da Silva não tem remorsos: o consumo de eletricidade aumenta 5% ao ano e ele privilegia o desenvolvimento econômico. Além disso, São Salvador não está entre os projetos acusados pelos ecologistas de práticas danosas.

"Há um impacto negativo, mas nós trabalhamos para reduzi-lo, em parceria com as municipalidades e as associações. E indo além das leis e regras do país", garante Gil Maranhão, diretor de desenvolvimento da GDF Suez Energy Brazil. A Suez investiu 37 milhões de euros (de um custo de 307 milhões) em um programa ambiental que deve servir de exemplo (redução de gases causadores do efeito estufa emitidos pela represa, realojamento das famílias, proteção da biodiversidade...).

Para os grupos franceses como a EDF, a GDF ou a Alstom, que anunciam seu compromisso a favor do desenvolvimento sustentável, esses "elefantes brancos" são uma aposta para sua imagem, de tão pressionados que eles são por certos governos, por ONGs e pelo Banco Mundial. "As normas internacionais são aplicadas, e o peso da sociedade civil se reforça, mesmo na China e na Índia", se congratula Sébastien Godinot, dos Amis de la Terre."Mas o ponto negativo é que os projetos são cada vez maiores e seu impacto ambiental, cada vez mais pesado".

Os promotores das barragens dedicam a elas uma parte substancial de seus investimentos, variável de acordo com a implantação e as populações. "São mais de 12% em São Salvador", calcula Maranhão, mas pode cair até 6%, como em Jirau (3.300 MW), projeto da Suez no Brasil, ou subir para mais de 20%. Em 2005, o lançamento pela EDF do projeto Nam Theun 2 (1.070 MW) no Laos, sobre um afluente do Mekong, marcou o retorno do Banco Mundial, após o relatório crítico da Comissão Mundial de Barragens sobre seu impacto negativo. "Sem seu sinal verde, não teríamos ido para lá", afirma o presidente da EDF, Pierre Gadonneix. Piloto do consórcio internacional, a sociedade teve de responder a um rígido caderno de encargos, e gastar mais de 100 milhões de euros (10% do projeto) para proteger as populações frágeis e a biodiversidade da região. "Seriam necessárias três vezes mais, sobretudo para as 80 mil pessoas afetadas rio abaixo", garante Godinot.

Um enorme potencial
A Coface (seguradora de crédito de exportação) está cada vez mais vigilante. Ela não segurou o projeto de barragem de Merowe (Sudão), para a qual a Alstom é uma fornecedora importante, "por falta de transparência e de estudos de impacto", avaliam os Les Amis de la Terre. Os banqueiros também estão sob alta vigilância das ONG. Sobre o projeto turco de Ilisu (1.200MW), Ancara não respeitou as 150 recomendações previstas: 70 mil pessoas (na maioria curdas) correm o risco de serem brutalmente removidas, sítios arqueológicos serão tragados... Depois das agências de crédito alemã, austríaca e suíça, a Société Générale deveria se retirar. "O BNP Paribas, o Crédit Agricole e a Société Générale trabalham sob normas, mas não instalaram nada", lamenta Godinot, que as considera atrasadas em relação ao HSBC ou o Dexia.

A hidroeletricidade representa um enorme potencial energético nos países emergente. Só o Brasil poderia aumentar sua capacidade em três vezes e acrescentar 240 mil megawatts suplementares, nota Dirk Beeuwsaert, vice-diretor-geral da GDF Suez.

Vice-presidente do setor hidroelétrico da Alstom, Philippe Cochet calcula que "70% do potencial hidroelétrico mundial não é explorado", mas que isso só poderá ser feito respeitando as regras. As firmas que exploram essas usinas hidroelétricas também deverão administrar as consequências por muitos anos. É a ameaça mais pesada, ainda que essas barragens tragam eletricidade. E, com ela, promessas de desenvolvimento.

Tradução: Lana Lim

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