UOL Notícias Internacional
 

07/02/2009

Como o contato com as Farc transformou um emissário da paz em bode expiatório?

Le Monde
Agathe Duparc Em Genebra, Suíça
Seus interlocutores o haviam apelidado de "El abuelo tropero" (o avô tropeiro), ou ainda "El Suizo" e "El Profesor". Durante quase dez anos, Jean-Pierre Gontard, 68 anos, emissário da paz na Colômbia enviado pela Suíça, teria sido um homem cobiçado: o único ocidental não marxista a ter se encontrado mais de vinte vezes com os dirigentes das Forças Armadas Revolucionárias Colombianas (Farc).

A pé, a cavalo, de barco, percorrendo as pistas acidentadas e evitando as minas que infestam a selva, o universitário francês, diretor-adjunto do Instituto Universitário de Estudos do Desenvolvimento (IUED), serviu de mediador entre Bogotá e as Farc - mas também o Exército de Libertação Nacional (ELN) - contribuindo para a libertação de centenas de reféns e mantendo Paris informada durante todo o período em cativeiro de Ingrid Betancourt.

Mas, em julho de 2008, no dia seguinte à libertação da franco-colombiana e de quatorze outros reféns das Farc, feita pelo exército, o cenário mudou bruscamente. Em Bogotá, os partidários da tolerância zero em relação às Farc ficaram exultantes. Jean-Pierre Gontard passa, de repente, a ser representado como um simpatizante fervoroso de uma organização considerada por Washington e Bruxelas como "terrorista", responsável pela morte de milhares de colombianos.

Com base nos e-mails encontrados no computador de Raúl Reyes - o número dois das Farc morto em março de 2008 em um bombardeio no Equador - , a justiça colombiana o acusa de ter remetido, em 2001, US$ 500 mil às Farc pela libertação de dois executivos da empresa farmacêutica suíça Novartis. Sua missão de facilitação, iniciada em 2004 em nome da Suíça, da França e da Espanha, foi interrompida. Da mesma forma que a de Noël Saez, o emissário do presidente francês, com o qual acabara de fazer uma expedição na selva para encontrar um emissário de Alfonso Cano, o novo líder das Farc.

Acusado de "gestão de fundos de uma organização terrorista", aquele que representa desde 1999 a discreta política de mediação da Suíça na Colômbia até agora se mantinha pouco intrusivo. Ele havia apresentado uma breve refutação às acusações, apoiado pelo governo suíço, sem mais detalhes. Na quinta-feira (5 de fevereiro), ele quebrou o seu silêncio em uma matéria da revista "Temps présent", transmitido pela Telévision Suisse Romande (TSR), e em uma entrevista ao "Le Monde".

Seus argumentos correm o risco de causar polêmica. "Foram dois empregados da Novartis que pagaram o resgate no Panamá, enquanto eu estava em Genebra", ele afirma. Ele ressalta que essa "velha questão", conhecida do governo colombiano, foi tirada da gaveta por seus principais críticos, Juan Manuel Santos, o ministro da defesa, e seu primo Francisco, o vice-presidente, ambos proprietários do "El Tiempo", o jornal que expediu os primeiros ataques. "Essas acusações óbvias são coordenadas, ao passo que Bogotá, que havia sido objeto de fortes pressões estrangeiras durante o sequestro de Ingrid Betancourt, queria acabar com qualquer tipo de mediação internacional", considera Alain Deletroz, vice-presidente do International Crisis Group em Bruxelas.

"Na questão Novartis, fiz o papel de salva-vidas, a pedido do departamento federal de relações exteriores", reclama o ex-emissário.
Então a questão estava em ponto morto. Como em um filme ruim, a Novartis já entregou US$2 milhões às Farc, mas a última parcela, US$ 500 mil, havia sido desviada por um guerrilheiro. Preocupado, o presidente da Novartis, Daniel Vasella, procurou o governo.

Jean-Pierre Gontard entrou em jogo, procurou o grande chefe Manuel Marulanda - morto em março de 2008 - , conseguindo com que Jorge Briceno, também conhecido como Mono Jojoy, libertasse os reféns antes do pagamento da última parcela. Estes últimos foram recebidos, em 14 de julho de 2001, no aeroporto militar de Bogotá, pelo general Leonardo Gallegos, na época o número dois da polícia, como prova uma foto mostrada por Jean-Pierre Gontard.

Mas, três meses depois, a Novartis ainda não pagara o saldo. Os dirigentes das Farc enviaram mensagens insistentes a Jean-Pierre Gontard. Seu nome ou sobrenome apareceram em muitos emails. "Cometi um grande erro: para cobrir a empresa Novartis, eu havia pedido às FARC que não mencionassem seu nome. No lugar eles mencionaram o meu", ele lamenta. Ele contou tudo isso em novembro de 2008 à justiça suíça que o interrogou em comissão rogatória colombiana.

Quando ele se lembra de seu passado de mediador entre os líderes dos grupos armados e as mais altas autoridades colombianas; quando ele faz em 2001 o relato de sua chegada durante a noite, a pé, no acampamento do sequestrador Mono Jojoy , enquanto as FARC se preparam para libertar unilateralmente cerca de 300 militares; quando ele mostra as fotos tiradas com sua Leica, onde ele é visto sorrindo ao lado de Marulanda, Raúl Reyes, Alfonso Cano, o universitário tem consciência de ter andado sobre uma linha estreita.

"Eu me dei conta de que os violentos gostavam de mim. Eu os escutava sem preconceitos. Eu não era nem padre, nem tira, nem simpatizante da causa deles", ele explica, contando como, no fim dos anos 1990, correspondentes das Farc o abordaram em Genebra, buscando contato com intelectuais não marxistas. E como ele aceitou se dedicar, em 1999, à preparação das negociações de paz em Caguan, encontrando pela primeira vez "El Camarada" (Marulanda), que disparou: "Você é só um idiota social-democrata, e é por isso que está sendo convidado!"

Ele não teria sido usado? "Certamente, mas eu também encaminhei mensagens com o único intuito de fazer pontes entre as diferentes partes e obter a libertação de reféns", ele insiste.

Restam os perturbadores emails descobertos nos discos rígidos de Raúl Reyes, cuja autenticidade Jean-Pierre Gontard não contesta. Nas mensagens escritas pelo número dois das Farc, descobre-se, por exemplo, que "J.P." teria chamado o presidente Álvaro Uribe de "vaqueiro racista". "Dentre esses documentos, só um email foi escrito por mim. Não sou responsável pelos relatórios que as Farc faziam de nossos encontros. O termo "vaquero racista" não saiu de minha boca!", ele retruca, negando também ter enviado US$ 2 mil a um representante das Farc em Lausanne.

Todavia, ele reconhece ter levado correspondências a colombianos refugiados na Suíça, gesto indispensável para preservar a confiança das Farc.

Poucas vozes se levantam hoje para defender Jean-Pierre Gontard.
Seus contatos teriam, no entanto, interessado a muitas pessoas. Em 2003, no dia seguinte à operação montada em segredo por Dominique de Villepin para libertar Ingrid Betancourt na selva brasileira, Nicolas Sarkozy, na época ministro do Interior, telefonou a Micheline Calmy-Rey, a chefe da diplomacia helvética, para obter a ajuda do mediador.

Gontard, que já atuava a pedido da família da franco-colombiana, forneceria as primeiras provas de vida de Ingrid, e depois enviaria um vídeo. De volta da missão, mantinha informado com regularidade, em companhia de seus colegas suíços, Pierre de Bousquet de Florian, o diretor da DST (direção da vigilância do território), que às vezes se deslocava até um salão VIP no aeroporto de Genebra-Cointrin.

Seguindo a sugestão do presidente Álvaro Uribe, a partir do outono de 2005 Jean-Pierre Gontard começou a trabalhar em conjunto com Noël Saez, emissário de Nicolas Sarkozy.

Tradução: Lana Lim

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h59

    0,13
    3,270
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h21

    -0,51
    63.760,94
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host