UOL Notícias Internacional
 

10/02/2009

Israel: o recuo

Le Monde
Michel Bôle-Richard
Em Jerusalém
Yael Hadar está preocupada. Ela tem razões para isso. Seu namorado foi morto no último dia da segunda guerra do Líbano durante o verão de 2006. Seus dois irmãos, de 20 e 24 anos, participaram dos combates da guerra de Gaza. Durante três semanas, Yael viveu com medo de que eles também fossem mortos. "Não podemos ter guerra a cada dois ou três anos. Não posso viver assim. Acho que devemos falar com alguma organização. Prefiro isso a entrar em guerra".

Criada em um kibbutz, essa jovem pesquisadora de 29 anos do Israel Democracy Institute não esconde seu medo do futuro às vésperas das eleições legislativas israelenses de 10 de fevereiro de 2009. Ela constata que seu país está cada vez mais dividido. Que o fosso se aprofunda "entre os religiosos e os seculares, entre os asquenazes e os sefarditas, entre os judeus e os árabes". Ela se aflige com o crescimento da intolerância, com a ascensão de Avigdor Lieberman, o novo homem forte do país, esse falante de russo que é ouvido "porque ele diz o que as pessoas querem ouvir, e porque ele promete colocar as coisas "em ordem" e que encarna a "direitização" do país com seu partido ultranacionalista Yisrael Beiteinu [Israel é nossa casa]. "Os israelenses estão cada vez mais assustados, pois se sentem ameaçados", ela diz.

A ameaça vem de todos os lados: do norte com o Hizbollah, do sul com o Hamas, do leste com a energia nuclear iraniana, do interior com o aumento do descontentamento dos árabes israelenses, esses 1,5 milhão de palestinos. Israel enrijece. Israel fica tenso. "Nós vivemos em um bunker, uma espécie de casa de campo no meio da selva, cercada por bárbaros. E se vocês me atacam, eu enlouqueço. Vou utilizar a força maciça, a brutalidade para me defender. Entre todos os dirigentes em competição eleitoral, é ele que terá a linguagem mais marcial", constata Menahem Klein, professor de ciências políticas.

Protegidos atrás da barreira de segurança, confiantes em um aparato militar de defesa cada vez mais potente e onipresente, os israelenses desenvolveram a mentalidade do Miklat, um abrigo que existe em praticamente todos os imóveis.

"É muito cômodo", reconhece o escritor Zeev Sternhell, de esquerda. "Nós rejeitamos os problemas políticos para colocá-los em um plano de defesa. Vivemos cada vez mais em uma atmosfera exacerbada de nacionalismo e chauvinismo. O desvio para a extrema direita é evidente. De agora em diante, só confiamos na força."

O recuo à segurança é confortável. Ele permite que não se coloquem questões, que se deixe para mais tarde as dificuldades. O conflito está dominado. Ele é contido pelas forças de segurança. Ele é administrado por um escudo protetor. O israelense se tornou fatalista. Ele aprendeu a viver com seus temores e a confiar em seu exército sem questionar em nada seu modo de operação.

"Nós podemos administrar sem dificuldades essa situação nos dez próximos anos", afirma o professor Efraim Inbar, próximo da direita. Uma pesquisa publicada no mês de dezembro de 2008 indica que somente 36% dos israelenses se dizem a favor da iniciativa de paz saudita adotada pela Cúpula da Liga em março de 2002 em Beirute, que oferece a paz e o reconhecimento de Israel em troca da criação de um Estado palestino nas fronteiras de 1967.

O recuo à segurança é acompanhado de um recuo à identidade cada vez marcado, com a certeza de ter o direito para si. "Nós nos consideramos sempre como vítimas", constata Zeev Sternhell. "Nós nos vemos como aqueles a quem se recusa o estender da mão. Nós só nos defendemos. Então, temos a consciência tranquila. É por isso que muitas coisas nos são permitidas. Somos sempre o Davi diante de Golias".

O mundo inteiro pode protestar, mas os israelenses estão convencidos de que têm razão. "A guerra de Gaza só reforça essa tendência. Ela amplificou um patriotismo exagerado", lamenta Colette Avital. Para esta deputada do partido trabalhista, "há uma cegueira", e "o povo judeu se tornou indiferente ao sofrimento dos outros". "Nós só vemos a nós mesmos", ela lamenta. "Nós nos fechamos aos outros, ao sofrimento dos palestinos. Agora há uma direita excessiva, fascista, que se enraiza no país e o preocupante é que essa tendência se manifesta sobretudo nos jovens".

Avital se declara "estupefata, aterrorizada" pelos ataques, pelas interrupções, pelas interjeições agressivas lançadas à sua posição durante um encontro político. Ela preconizava o diálogo político, a busca de soluções enquanto os participantes protestavam: "Como um povo de 5,5 milhões de pessoas não consegue liquidar 15 mil terroristas do Hamas?" "Só existem soluções militares", ela respondeu. "Nós solucionamos a questão na Cisjordânia, por que não fazer o mesmo em Gaza?", retorquiram os conferencistas. "Como se pode dizer que nós iremos liquidá-los e que seremos senhores deste país?", se inquieta Colette Avital.

Mais de quinze anos depois dos Acordos de Oslo, ninguém mais lhes dá crédito. "Esse foi um erro colossal", admite hoje Dan Meridor, político moderado que voltou a trabalhar com a equipe forte de Binyamin Netanyahu. O ex-ministro da justiça também constata que "o fosso se aprofundou com os palestinos".

56% dos israelenses continuam a acreditar que, durante a Cúpula de Camp David, em julho de 2000, "Ehud Barak ofereceu um acordo de paz generoso a Yasser Arafat e que este o recusou porque não queria a paz", destaca um estudo recente feito por Daniel Bar-Tal, professor da universidade de Tel-Aviv. "A consciência do judeu israelense é caracterizada por um sentimento de vitimização, por uma mentalidade de cerco militar, por um patriotismo cego, pela guerra, por uma satisfação de si e pela desumanização dos palestinos", observa Akiva Eldar, do diário "Haaretz".

Esse estudo mostra que os israelenses nunca questionam a versão da história dada por seus dirigentes. Mais de 50% entre eles acham que o plano de divisão da ONU em 1947 ofereceu aos palestinos uma parte igual ou até superior à dos judeus, ao passo que estes últimos era em 600 mil e os palestinos, 1,3 milhão. "Os israelenses praticam a autocensura e aceitam a versão oficial sem procurar verificar as informações. Nós somos uma nação que vive no passado, invadida pela ansiedade e que sofre de uma falta crônica de abertura de espírito", analisa Daniel Bar-Tal.

Nessas condições, as perspectivas de paz se mostram particularmente reduzidas. Basta uma viagem ao país dos colonos para perceber até que ponto os judeus e os palestinos vivem em mundos cada vez mais separados e isolados. Judith Lowy, por exemplo, residente do assentamento judeu de Tekoa, ao sul de Belém, está convicta a participar de uma tropa encarregada de proteger Israel.

É por isso que ela escolheu viver nesse espaço recuado com 2 mil colonos para "construir alguma coisa", estar em postos militares frente "aos árabes que querem nossa extinção". Para ela, o único problema de Tekoa é saber "se é preciso deixar os cães perambularem como eles quiserem". Ela só fala dos árabes, em geral. Os palestinos não existem. Judith "não faz política". Ela simplesmente diz: "Roubaram essa terra de nós, e lutaremos para mantê-la".

"Não se pode negar aos judeus o direito de viverem em seu país", diz Noham Arnon, porta-voz da comunidade judaica em Hebron. Para Danny Spielman, o Yesha, Conselho das comunidades judaicas da Judeia e Samária (Cisjordânia), "esta terra são as nossas raízes e ninguém pode arrancá-las". O Yesha lançou uma campanha sobre o tema "A Judeia e a Samária, é a história de cada judeu".

B'Tselem, órgão de defesa dos direitos humanos, constata que a liberdade de movimentos dos palestinos agora está limitada a 430 km de estradas na Cisjordânia e que 137 km lhes são totalmente interditados. "Governamos pela força. Nós nos tornamos um regime etno-securitário, arrogante, egoísta, etnocêntrico", se preocupa Menahem Klein. "Temos convicção de que somos os melhores e que os outros não valem nada. Agora o conflito se tornou religioso, étnico e a política é ineficaz". Para o professor de ciências políticas, Avigdor Lieberman é o produto dessa tendência: "O colonialismo e o racismo são os grandes vencedores. Nós nos recusamos a sair do bunker".

Israel está escondido por fronteiras incertas. 64% dos israelenses se recusam a por os pés em um bairro árabe. 75% deles são favoráveis a uma transferência dos palestinos do outro lado do "muro". Os colonos estão protegidos em guetos fortificados. Toda manhã os rádios e as televisões martelam a mensagem sobre as ameaças que pesam sobre o país.

Avigdor Lieberman aparece como a resposta a essa preocupação. Israel anseia por um homem forte que fale uma linguagem clara, compreendida por todos. Além disso, um dos slogans de Avigdor Lieberman é: "Só Lieberman entende o árabe", o que quer dizer: "Confiem em mim, que eu tomo conta deles".

"Lieberman está em perfeita sintonia com a população israelense, ele quer reforçar a autoridade do Estado", indica Denis Charbit, professor de ciências políticas. Durante a campanha, ele faz questão de não ultrapassar a tênue linha do racismo. Ele permanece legalista". Esperando a sequência?

Tradução: Lana Lim

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