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10/02/2009

Os países em desenvolvimento veem escassear o dinheiro dos trabalhadores imigrantes

Le Monde
Grégoire Allix
Má notícia para os países em desenvolvimento. Após anos de crescimento, as muitas vezes vitais somas de dinheiro, enviadas pelos cerca de 200 milhões de trabalhadores imigrantes a suas famílias, estão diminuindo. Os bancos de desenvolvimento observam com preocupação os números que chegam a eles em conta-gotas: 10% a menos no México em dezembro de 2008; 8% na Guatemala no quarto trimestre...

"Esperam-se US$ 283 bilhões (221 bilhões de euros) em 2008, graças a um bom primeiro semestre. Mas em termos reais, essas transferências deverão cair de 2% do PIB dos países em questão em 2007 para 1,8% em 2008", analisa Dilip Ratha, economista-chefe do Banco Mundial. Em 2009, esse fluxo de dinheiro deverá diminuir em 1% a 6% no mundo, segundo as previsões. Os economistas concordam em um ponto: a desaceleração vai se agravar.

Após um crescimento médio de 17% por ano em dez anos dessas transferências a queda é brutal. Acima de tudo, o próprio fato de que essas remessas estejam sendo atingidas preocupa os economistas. "Normalmente, mesmo quando todos os indicadores desmoronam, as transferências de fundos são o último setor que resiste: esse dinheiro é importante demais para as famílias que o recebem, são os trabalhadores imigrantes que absorvem o choque apertando o cinto ou multiplicando os empregos", explica Pedro de Vasconcelos, especialista do International Fund for Agricultural Development (IFAD).

Mas nos países industrializados, a crise passou por cima disso. O aumento do desemprego reaviva a preferência nacional e atinge em cheio os trabalhadores imigrantes. Consequência: a generosidade cai. "Na América Latina, observa-se uma queda de aproximadamente 10% do montante das remessas: em vez de US$200 ou US$250 por mês em média, os migrantes enviarão entre US$180 e US$220", observa o economista da IFAD.

A isso se acrescenta o endurecimento das políticas migratórias em diversos países da Europa e dos Estados Unidos, que limitam a chegada de novos imigrantes capazes de compensar a queda nas remessas. Um fator determinante, uma vez que, nesses últimos anos, foi exatamente o aumento do número de imigrantes que alimentou a receita das transferências, e não o aumento dos montantes individuais.

No entanto, ninguém prevê o colapso dessas remessas. "Os recém-chegados só representam uma pequena parte da população total de imigrantes", ressalta Ratha: 2% em média nos Estados Unidos; 4% na União Europeia; 5% nos países do Golfo. Em outras palavras, apertar as fronteiras não fechará a torneira das transferências. "Dessa forma há um risco de que aumente o número de trabalhadores imigrantes em situação irregular", acrescenta o economista do Banco Mundial, "razão pela qual as transferências de fundos informais compensarão em parte a diminuição das remessas oficiais".

Não há por que se tranquilizar, no entanto. "Ainda que modesta, a queda das remessas de fundo terá consequências graves", prevê Alfredo Calcagno, economista na Conferência das Nações Unidas sobre o Comércio e o Desenvolvimento (Cnucd). "A miséria vai se agravar, sobretudo nos países onde esse dinheiro constitui uma porcentagem importante do PIB, como em Bangladesh (10%), El Salvador (18%), no Haiti (20%) ou em Honduras (25%)", ele especifica.

O cenário temido: as depressões econômicas em cascata desencadeadas pela queda no consumo dos produtos de primeira necessidade (70% a 90% das compras financiadas pelo dinheiro dos imigrantes), e também a interrupção dos investimentos.

"Uma parte das transferências serve para financiar uma atividade econômica, para comprar matéria-prima, sementes, ferramentas de produção", diz Pedro de Vasconcelos, da IFAD. Uma parte ameaçada, que só sobrevive para enfrentar emergências. "É ainda mais alarmante o fato de que tentamos fazer com que essas remessas valham como garantia junto às instituições financeiras como o microcrédito: isso permitiria às famílias que fizessem empréstimos para financiar investimentos mais significativos". Um mecanismo que agora está emperrado.

Uma verdadeira receita

US$ 337 bilhões: A soma que os imigrantes enviaram às suas famílias em 2007

Países em desenvolvimento: a receita atingiu US$ 265 bilhões, mais que o total do auxílio público ao desenvolvimento.

Pobreza: esse dinheiro permitiu reduzir a parcela da população que vive sob a linha de pobreza em 11% em Uganda, 6% em Bangladesh e 5% em Gana.

Tradução: Lana Lim

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