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11/02/2009

Perfil: coronel Karuna, tigre infiel

Le Monde
Frédéric Bobin
O coronel Karuna não se vangloria. Ele declara sua glória como uma verdade comprovada: "Sem mim, os Tigres não teriam jamais sido derrotados". Então ele está lá, o ex-chefe rebelde tâmil que aliou-se a Colombo, e cuja deserção precipitou a derrota de uma guerrilha que fora uma das mais poderosas do mundo. O infiel recebe os visitantes em seu feudo de Kaluwanchikudy, uma vila da costa leste do Sri Lanka coberta pelos coqueirais. Para chegar lá é preciso atravessar de uma ponta a outra uma ilha dividida pelos bloqueios do exército. Esperar em Batticaloa, a capital de seu movimento de dissidentes. Discutir com seus jovens tenentes, ex-soldados crianças, ainda imberbes, em cabanas esverdeadas pelo musgo. Enviar mensagens sem garantia de que elas sejam retransmitidas. Esperar, desistir. E depois receber, finalmente, o salvo-conduto que levará ao desertor.

Ninguém conhece realmente os planos do coronel Karuna. O homem está sempre trocando de esconderijo. "Sou o inimigo número um dos Tigres, o homem que deve ser destruído", ele se diverte. Seus novos padrinhos velam por ele. Na entrada de seu refúgio de Kaluwanchikudy, uma casa de frente para a areia, coberta de palmeiras, os soldados montam uma guarda vigilante. O coronel Karuna recebe em um pequeno salão, onde um guarda-costas pessoal, jovem tâmil de seu movimento, observa a entrevista de canto de olho, com uma AK-47 a tiracolo.

É difícil imaginar que esse homem afável, de bigode risonho, barriga despontando e anel no dedo tenha sido um líder militar dos Tigres da Libertação da Pátria Tâmil (LTTE), o grupo armado que desencadeou em 1983 uma insurreição sangrenta para dar à minoria tâmil do Sri Lanka (15% da população) um Estado separado em suas fortalezas de uma ponta à outra da ilha. Setenta mil mortos mais tarde, o LTTE está em dificuldades. Ele agoniza sob a metralhadora de uma ofensiva sem precedentes do exército de Colombo, a quem um presidente de pulso forte, arauto nacionalista da maioria cingalesa (75% da população), deu carta branca para aniquilar os "terroristas".

O coronel Karuna não está realmente surpreso com essa derrota do LTTE, cujas terríveis tropas - Tigres do mar (marinha), Tigres do ar (aeronáutica) e Tigres negros (comandos suicidas) - impressionavam tanto os especialistas em insurreições. Para ele, a origem do fracasso está na personalidade do chefe supremo dos Tigres, Vellupilai Prabhakaran, um admirador de Alexandre o Grande e de Napoleão. "É um espírito totalitário, incapaz de uma mínima concessão". O desacordo entre os dois homens, que em seguida tomou a forma de uma cisma do LTTE, começou em 2002.

Até então, o coronel Karuna havia sido um fiel de Prabhakaran. Ele chegou a ser seu guarda-costas pessoal. Ele havia sido recompensado por sua lealdade com o privilégio de se aproximar do círculo dos seis coronéis que cercam o chefe supremo. Nesses anos de fogo, a fé de Karuna na causa do nacionalismo tâmil era cega. Uma antiga cólera o atiçava continuamente. Vinayagamoorthy Muralitharan - seu verdadeiro nome antes que a guerra o rebatizasse de Karuna - se imaginava, então, um médico. Um sonho para esse filho de agricultor.

No colégio de Batticaloa, no leste, ele havia enveredado pelo campo científico.
Mas quando ele viu, em 1983, entrarem milhares de tâmeis fugindo dos massacres racistas de Colombo, orquestrados por extremistas cingaleses, juntou-se à revolta. "Os refugiados nos contavam sobre os horrores das rebeliões antitâmeis, os civis mortos, as casas incendiadas", ele recorda. "Nós éramos jovens de sangue quente. Havíamos entrado no LTTE". Ele tinha 17 anos na época e desafiava a autoridade de um pai hostil à qualquer forma de separatismo tâmil.

O LTTE logo envia o jovem furioso para a Índia, no Estado meridional do Tamil Nadu, onde ele aprende as técnicas de guerrilha nos campos de treinamento. Ele também espiona em Chennai (antiga Madras), principal cidade de Tamil Nadu, onde atuam todos os agentes que o Sri Lanka tem na Índia. De volta ao país, o combatente novato se revela um estrategista sem igual, homem-chave de diversas vitórias. No fim dos anos 1990, ele é o homem forte da rebelião no leste da ilha.

Então por que a fatal dissidência? As razões do conflito são obscuras. A direção do LTTE a acusou de desfalques financeiros. Ele responde bancando o ingênuo, enganado por chefes maquiavélicos. Em 2002, ele conta, chegou a Oslo com uma delegação do LTTE para negociações com enviados de Colombo. As duas partes acabam por se entender a respeito de um documento que convoca a explorar o caminho do federalismo no Sri Lanka para permitir aos tâmeis e aos cingaleses que compartilhem o poder. A volta da missão é tempestuosa. Prabhakaran está furioso. A solução federal, um recuo do sonho de um Estado separado, é inaceitável para ele. "Ele me chamou de traidor, me acusou de vender o combate pela liberdade. Ele me disse que precisaria continuar a negociar durante mais cinco anos para dar tempo ao LTTE de comprar armas". Assim Karuna desperta, segundo sua versão, para uma brutal constatação: seu chefe é obcecado pela guerra. "Eu estava cansado dessa guerra, já havíamos perdido tantos homens. E eram meus combatentes do leste que iam defender a direção dos Tigres baseada no norte". Já que quer ser um traidor, é melhor sê-lo até o final. Dois anos mais tarde, Karuna deixa os Tigres e se alia ao governo, levando consigo 6 mil homens, de acordo com seus cálculos, e sobretudo uma mina de segredos sobre o LTTE. O golpe não era esperado por Colombo. Os Tigres não se recuperarão.

Karuna, herói virtuoso e revoltado contra o fanatismo do LTTE? A lenda incomoda os bons conhecedores da história dos Tigres. Quando ele era um senhor da guerra, Karuna se mostrou pouco cuidadoso com os métodos. Massacres, recrutamento de crianças: as organizações de direitos humanos possuem um dossiê acusador contra ele. Ele diz hoje ter se emendado. Ele só jura "pela paz e pelo desenvolvimento". Contudo, seus partidários armados continuam a combater os últimos Tigres do leste ou seus próprios rivais do partido pró-governamental que ele criou, o Tamil Makkal Viduthalai Pulikal (TMVP). Esquadrões da morte continuam a disseminar o medo em Batticaloa. Karuna permite que seus homens deem uma mão. "São erros", ele confessa. Ele ainda precisará se esforçar muito para se livrar da túnica do miliciano.

Trajetória:

1966
Nasce em Kiran, uma vila na costa oriental do Sri Lanka

1983
As rebeliões antitâmeis o incitam a entrar para os Tigres de Libertação da Pátria Tâmil (LTTE), um grupo armado separatista.

1998
Chefe-militar dos Tigres no leste da ilha.

2002
Ele participa, em Oslo (Noruega), de negociações pela paz.

2004
Em conflito com a direção do LTTE, ele deixa a rebelião com 6 mil de seus homens

2008
O presidente do Sri Lanka o nomeia deputado no Parlamento

Tradução: Lana Lim

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