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13/02/2009

China: o terremoto de Sichuan precipitado por uma represa

Le Monde
Stéphane Foucart
Teria uma grande obra-de-arte desencadeado um dos terremotos mais devastadores das últimas décadas? A pergunta é feita a sério há várias semanas por cientistas chineses e ocidentais, que apontam a responsabilidade de uma represa hidroelétrica no tremor de terra de Sichuan que provocou a morte de quase 88 mil pessoas em maio de 2008.

O suspeito, neste caso, é a barragem de Zipingpu. Ela está instalada a alguns quilômetros do epicentro do terremoto e a menos de um quilômetro da principal falha que o provocou. "O ponto crucial é que os inquéritos geológicos e as sondagens geofísicas mostram que todo um sistema de falhas - entre elas a de Beichuan e Yingxiu, ao longo da qual houve o terremoto de 12 de maio de 2008 -, bem como a falha Jiangyou-Guanxian e mais uma série de falhas menores se encontram sob o reservatório", escreve Fan Xiao, responsável pelas investigações geológicas do Serviço de Mineração e Geologia de Chengdu (Sichuan), em uma longa carta às autoridades divulgada no fim de janeiro, pela ONG Probe International.

Há muitos anos Xiao tenta chamar a atenção das autoridades para os riscos causados pelas construções de barragens sobre os rios dessa província junto ao Tibete. Em 2003, ele fazia parte de um grupo de trinta cientistas e intelectuais chineses que se mobilizaram, em vão, contra a construção da barragem de Zipingpu, em razão dos riscos geológicos e ambientais.

Em junho passado, logo após o terremoto, cinquenta personalidades chinesas e organizações não-governamentais assinaram uma petição solicitando ao governo que estudasse mais de perto os riscos causados pelas barragens em uma região geologicamente instável como Sichuan. O texto colocava em questão o papel das barragens, especialmente a de Zipingpu, no terremoto de Sichuan.

No final de dezembro o assunto se tornou o tema de um comunicado (ainda não publicado) durante um congresso de outono da American Geophysical Union (AGU) em San Francisco. Seu autor, Christian Klose, pesquisador em gestão de riscos geofísicos na Universidade de Columbia (Nova York), calculou que a pressão exercida sobre a crosta terrestre pelos 320 milhões de toneladas de água na represa - que começou a ser reabastecida no final de 2004 - teve um efeito comparável a 25 anos acumulados de pressões tectônicas "naturais".

Teriam essas pressões adicionais causado o terremoto? "Deve-se tomar cuidado com as palavras", diz Michel Campillo, sismólogo e professor da Universidade Joseph-Fourier de Grenoble. "Há uma grande diferença entre a ideia de causa e a ideia de deflagração. O ambiente é muito conhecido por sua atividade tectônica, é provável que com ou sem barragem o terremoto tivesse acontecido".

Entretanto, o fato de que grandes reservatórios podem desencadear sismos é bem conhecido. "Dois fenômenos entram em jogo: a carga de água estocada na represa e o fato de que a água se infiltra na crosta, chegando até a própria falha", analisa Campillo. Pois se pode imaginar uma falha como um corte, com dois materiais colados um sobre o outro, sustentada somente pelo atrito. A presença de um excedente de água reduz a fricção e sabemos que esse efeito pode ser importante no desencadeamento de um terremoto".

Em dezembro de 1967, em Koyna (Índia), um tremor de terra de uma magnitude de 6,3 graus na escala Richter ocorreu depois da inundação de uma grande barragem; hoje, a maioria dos geólogos atribui o acontecimento, que fez quase 200 mortos, à obra. Nos Alpes franceses, a barragem de Grand Maison foi especificamente aparelhada para detectar um retorno dos sismos. Nenhuma mudança foi notada.

"Não há dúvidas sobre o fato de que um grande reservatório em superfície muda as coisas", acrescenta o sismólogo Alex Densmore (Universidade de Durham), coautor de um estudo publicado em julho de 2007, que apontava os riscos iminentes causados pelas falhas implicadas no terremoto de Sichuan.
Mas não foram essas mudanças que controlaram a intensidade do sismo.
Nós sabíamos que ele ia acontecer. A questão seria se ele teria acontecido 5, 10 ou 25 anos mais cedo por causa da barragem".

Será possível encontrar uma resposta para essa questão? Na edição de dezembro da revista chinesa "Geologia e Sismologia", o geofísico Lei Xinglin, da Administração de Sismologia da China, acrescenta ao dossiê que um esvaziamento parcial do reservatório, coordenado entre dezembro de 2007 e maio de 2008, mudou bruscamente o regime das pressões aplicadas sobre as falhas em questão. Segundo ele, essa variação de tensões aplicadas sobre a crosta terrestre, bem como a penetração de água da reserva nessas falhas, são "fatores importantes associados à origem do terremoto de Sichuan".

"Para se determinar isso, deveríamos olhar com atenção para os dados sobre as variações de nível da água no reservatório e aqueles relativos aos microsismos que ocorreram nas semanas ou nos meses que precederam o terremoto", explica um sismólogo ocidental, especialista na região. Esses pequenos tremores não podem ser detectados à distância, e é necessária uma rede local de sismógrafos... Mas, até onde eu sei, eles não foram divulgados pelas autoridades".

Se esses inquéritos mais apressados são exigidos por toda uma parte da comunidade científica chinesa, uma outra, enviada pelo jornal "Kexue shibao", no final de dezembro, se põe a contrariar essas hipóteses, muito vergonhosas para o governo. Ainda mais que, no fim de 2007, muitos incidentes em torno da famosa represa de Três Gargantas já suscitaram uma polêmica. Vários cientistas haviam sugerido que as intensas pressões exercidas pela enorme massa de água do reservatório sobre as paredes dos vales engolfados poderiam causar "contaminação, deslizamentos de terra e outros desastres ecológicos".



Quase 88 mil mortos e desaparecidos em maio de 2008

Sismo. O terremoto de Sichuan, de uma magnitude de 7,9 graus na escala Richter, ocorreu em 12 de maio de 2008 às 14h28

Zona sísmica. A bacia de Sichuan já havia sofrido terremotos com mortes. No dia 25 de agosto de 1933, um sismo de magnitude de 7,5 graus fez mais de 9.300 vítimas.

Vítimas. O terremoto afetou mais de 45 milhões de indivíduos, em uma dezena de regiões e províncias. O balanço oficial calcula 69.195 mortos, 18.392 desaparecidos e mortos presumidos e 374.177 feridos. Cerca de 15 milhões de pessoas tiveram de ser evacuadas e 5 milhões ficaram desabrigadas.

Prejuízos materiais. Cerca de 5,3 milhões de construções foram destruídas e mais de 21 milhões de outras, danificadas. Por volta de 7 mil escolas desmoronaram, provocando imensa comoção: Ma Zongjin, diretor de uma comissão de inquérito, teve de reconhecer que elas haviam sido mal construídas.

Custo financeiro. A perda econômica total foi estimada em 67 bilhões de euros (US$ 86 bilhões, segundo a US Geological Survey). O governo chinês divulgou, em 17 de agosto de 2008, um plano de reconstrução em três anos no valor de 100 bilhões de euros.
Praticamente o PIB da província de Sichuan em 2007.

Tradução: Lana Lim

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