UOL Notícias Internacional
 

14/02/2009

No Congo: encontro com os rebeldes hutus

Le Monde
Jean-Philippe Rémy
Em Masisi, Walikale
Na grande floresta congolesa onde elas estão isoladas, não se escolhe encontrar as Forças Democráticas de Libertação de Ruanda (FDLR).

No leste da República Democrática do Congo (RDC), os rebeldes hutus decidem, ou não, surgir diante dos passos do visitante. Na curva de um caminho escorregadio na encosta da colina, invadido pelas raízes de árvores gigantes, a horas de caminhada de Pinga, vilarejo perdido no limite da floresta, um grupo FDLR aparece bruscamente. Um homem escondido atrás de um tronco aponta seu lança-granadas. Um outro, 15 metros atrás, sai da vegetação usando um uniforme puído das antigas Forças Ruandesas. E mais outros. Seu comandante é ao mesmo tempo falante e furioso, apavorado e agressivo, com acessos de familiaridade. Faz tempo que esses guerreiros perdidos parecem ter desistido de se fazerem entender.

O comandante explica isso em tom de zombaria: "Não adianta se desgastar, o mundo inteiro está contra nós". Com suas jaquetas encardidas e botas enlameadas, as mãos segurando com força suas armas, os rebeldes das FDLR parecem ter chegado ao fim de uma guerra. Qual? Ninguém mais, a começar por eles, parece ter certeza. Faz quinze anos que os combatentes hutus ruandeses preparam, a partir do leste da República Democrática do Congo (RDC), sua volta pelas armas em seu país. Eis que seu aliado, Kinshasa, os abandona, e a perspectiva de uma volta ao país como vencedores se distancia um pouco mais nas brumas da floresta.

Entre a RDC e as FDLR, o pacto de sangue era simples. Durante a segunda guerra regional lançada por Ruanda contra o Congo (1998-2002), os mercenários hutus deveriam combater com uniforme congolês.

Em troca, foi feita uma promessa de dar toda a ajuda necessária para no futuro levarem a guerra à Ruanda. Mas as últimas tentativas de incursão armada, como a operação "Oráculo do Senhor", em 2001, fracassaram.

As FDLR que permanecem no leste continuam sendo uma ameaça em potencial para Ruanda, mas também um pretexto para iniciar, por meio de rebeliões tutsis interpostas, uma guerra no Congo onde o controle das exportações de minérios e o destino das populações tutsis se misturam em cálculos complexos. As milícias do ex-general tutsi do Congo Laurent Nkunda, que ameaçava a capital regional Goma, no fim de 2008, e se empolgou a ponto de tentar conquistar toda a RDC, tinham como reivindicação inicial a luta contra as FDLR. Os rebeldes hutus constituíam então um ponto crucial de desestabilização do leste do Congo, alimentando o martírio de suas populações.

Essa situação virou. Em 20 de janeiro, as tropas ruandesas entraram na RDC com o consentimento do povo congolês para atacarem suas bases. Desde então, as FDLR, que evitam os combates frontais, se embrenham nas florestas que eles, em quinze anos, tiveram tempo de conhecer como a palma de suas mãos. O núcleo original de seus membros era composto de ex-soldados e de milicianos interahamwe, braços armados da exterminação de mais de 800 mil pessoas em Ruanda em 1994; tutsis, em sua esmagadora maioria, mas também hutus moderados. E assim eles foram marcados para sempre com um adjetivo infame: "genocidas".

"Pequeno jardim"
Questionado sobre suas atividades em Ruanda no momento em que acontecia o crime dos crimes, o comandante das FDLR fica tenso e afirma com uma voz embargada: "Não sou um genocida. Eu era um aprendiz!" Ele já tem seus quarenta anos, mas o clima não é de contradição. Ele também diz com certeza "que em Ruanda, o genocídio ainda continua" (contra os hutus). Como prova, ele afirma que "membros de sua família foram detidos". Ele se recusa a dizer em que região. Com cada pergunta, cresce sua irritação.

Mais adiante, abaixo, diante de uma ponte que seus homens acabam de tornar intransitável para bloquear a única estrada, um outro comandante terá as mesmas reações, o mesmo olhar feio, e uma pergunta feita com um sorriso desagradável: "E você, afinal, por que me traiu? Sim, a França nos traiu. Ruanda, sob o regime do presidente Juvenal Habyarimana, foi o pequeno jardim da França. Agora vocês são os piores dos traidores". E depois, sob ameaça de sua arma, ele obriga os viajantes a consertarem a ponte, para depois danificá-la novamente, antes de libertar seus visitantes, ameaçando: "Agora se destrói tudo aqui".

Recrutando jovens hutus que não participaram do genocídio ou dirigentes políticos que não foram mortos em 1994, os rebeldes hutus criaram as FDLR. Seus chefes vivem em exílio, na França ou na Alemanha. Para cada questão, eles enviam comunicados demagógicos, em um site da Internet onde, curiosamente, aparece uma propaganda para "voos baratos para Kigali", capital de Ruanda. No começo da operação em janeiro, suas tropas, no leste da RDC, contavam entre 6 e 8 mil combatentes, além de suas famílias, espalhados em uma longa faixa que percorria o leste do país, do lago Tanganica ao lago Albert.

Os rebeldes se tornaram autossuficientes, se apossando de setores inteiros da economia local, da exploração de minas, operada conjuntamente com oficiais congoleses, até o comércio de varejo.

Alguns moram em povoados rurais, batizados nostalgicamente de Kigali 1, Kigali 2, ou vivem em diversos vilarejos. Outros passam a vida bloqueando estradas e roubando, pilhando e violentando, como os sinistros "rastas", mais ao sul, famosos por suas roupas de jogadores de basquete americanos e seu uso extremo de violência.

"Negociações"
Alguns dentre eles, pelo menos um terço, gostariam de abandonar ao mesmo tempo as armas, a floresta, o exílio e o rótulo de genocidas, entrando nos centros de desarmamento abertos pela ONU. Uma perspectiva que enlouquece de raiva os mais duros entre eles, como o comandante dos arredores de Pinga, que afirma querer "permanecer no mato até que haja negociações (com Ruanda)". O poder ruandês não possui nenhuma intenção disso, ao convidar os rebeldes a abandonarem incondicionalmente a luta. "Abandonar?" O comandante ri.

Ele conta como, por anos a fio, ele combateu em diversas frentes pelo Congo, e ele conclui: "Na floresta, ninguém pode nos atacar sem perder muitos homens". O Congo não os liberta? O comandante se zanga. No momento, quer ir embora. Ele se recusa a dizer seu nome, mas insiste em dar seu número de celular, ainda que a floresta não seja coberta por nenhuma rede. E em seguida ele desaparece.

Tradução: Lana Lim

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