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17/02/2009

O tradicionalista dos tradicionalistas

Le Monde
Stéphanie Le Bars
Ele perturbou os meios católicos e indignou o resto do mundo; ele obrigou o Papa a garantir aos judeus sua "solidariedade total". Ele acaba de ser destituído de suas funções na direção do seminário tradicionalista de La Reja na Argentina, que ele conduzia há alguns anos. Mas na tempestade, Richard Williamson finge que não há nada acontecendo, e no dia 7 de fevereiro, data da última crônica publicada em seu blog (http://dinoscopus.blogspot.com), ele discorre, como um apaixonado por música, sobre a beleza da terceira sinfonia de Beethoven.

Ao afirmar, durante uma entrevista a um canal de televisão, que "nenhum judeu havia morrido nas câmaras de gás", este bispo britânico de 68 anos, membro da Fraternidade Sacerdotal São Pio X, a corrente cismática do monsenhor Lefebvre, conquistou em algumas horas uma fama mundial. Sua bomba negacionista, lançada no exato momento em que o Papa anunciava a revogação da excomunhão que o atingia há vinte anos, assim como a três de seus colegas, instalou o personagem em seu papel de "tipo incontrolável".

"É um fanático que passa seu tempo a dizer bobagens", acredita um padre francês, conhecedor do meio tradicionalista. Ex-professor de literatura e de filosofia, monsenhor Williamson é conhecido, sobretudo, por ser, entre os herdeiros de monsenhor Lefebvre, um dos partidários da linha mais dura em relação ao Vaticano. "Ele é de uma intransigência total, no que diz respeito aos assuntos relacionados à Igreja e à sua evolução desde o Concílio Vaticano II", atesta uma personalidade envolvida no diálogo entre os tradicionalistas e os conciliários, que o encontrou em diversas ocasiões.

Ele chega a contar que o arcebispo Lefebvre, percebendo, sob esse personagem costumeiro, julgamentos duros de possíveis complicações, teria hesitado em ordenar o bispo, o que a Fraternidade São Pio X desmente. "Ele foi escolhido por seus dons em línguas (pois a Fraternidade tem a ambição de se disseminar pelo mundo) e sua fidelidade ao pensamento de nosso fundador", indica hoje um lefebvrista.

Essas "qualidades" lhe garantiram, de qualquer forma, o ingresso na história da Igreja católica no dia 30 de junho de 1988, diante de cerca de 6 mil fieis e dezenas de jornalistas. Naquele dia, após meses de hesitações, quatro padres foram ordenados bispos da Fraternidade por monsenhor Lefebvre. A missão deles, por sua vez, era ordenar padres para que a Fraternidade não se extinguisse com seu fundador, então com 83 anos. Esse gesto provocou a excomunhão imediata dos bispos, e criou o cisma que Bento XVI procura hoje eliminar.

Em sua ordenação, aos 48 anos, Richard Williamson, convertido tardiamente ao catolicismo, é o mais velho dos quatro. Esse percurso meteórico anima esse anglicano londrino de boa família, companheiro de primeira hora de monsenhor Lefebvre. "Ele sempre me disse que era um convertido de 68", garante um padre que foi seu companheiro no seminário de Ecône (Suíça), o feudo histórico da Fraternidade. Horrorizado pelo movimento "liberal" que as sociedades ocidentais adotavam então, o professor Williamson sucumbiu ao discurso conservador de monsenhor Lefebvre que, desde o fim do Concílio Vaticano II em 1965, se posicionou como defensor da "tradição", recrutando nos meios mais reacionários da Igreja. O bispo britânico encontrou em Ecône "um ambiente favorável a uma verdadeira conversão", garante uma das pessoas que ele encontrou ali. O convertido logo se deleitou com a devoção à Virgem; ele ainda desenvolveu um gosto acentuado pelo "apocalipse".

Totalmente antimodernista, o bispo admira o Syllabus de Pio IX que, em 1864, já denunciava "os erros da sociedade moderna". "Ele é obcecado pela laicidade, que ele considera 'incômoda'", conta também uma de suas interlocutoras.

Ao longo dos anos, ele se mostra mais "lefebvrista que o monsenhor Lefebvre", reparam os observadores, dos quais alguns chegam a considerar monsenhor Williamson próximo da corrente sedevacantista que considera que, desde a abertura do Concílio Vaticano II por João XXIII, o Trono de São Pedro está "livre", pois está ocupado por um falso papa. Para monsenhor Williamson, os textos do Vaticano II proclamam "uma falsa religião".

A incerteza persiste também sobre sua vontade real de ver sua excomunhão ser revogada, contrariamente ao monsenhor Bernard Fellay, o superior-geral da Fraternidade, que trabalha ali há vários anos. "Ao provocar o escândalo com suas opiniões sobre as câmaras de gás, ele impede qualquer acordo de reconciliação entre a corrente tradicionalista e o Vaticano", analisa o abade Guillaume de Tanoüam, ex-lefebvrista e hoje membro do Instituto do Bom Pastor. Essa intransigência explicaria seu "distanciamento" na Argentina, que não abriga "o seminário mais prestigioso da Fraternidade", reconhece um de seus membros.

Apresentado como um "homem de cultura", "pianista emérito", capaz de mencionar Shakespeare em seus sermões, monsenhor Williamson garante ter interesse no negacionismo dos anos 1980. "Eu sempre busquei a verdade", se justifica, sem pudor, o prelado inglês no jornal "Der Spiegel" de 9 de fevereiro de 2009. Uma "busca" que o levou a declarar em 1989, no Canadá: "Os judeus inventaram o holocausto para que ficássemos de joelhos, para que seu novo Estado de Israel fosse aceito. Tudo isso não passa de mentiras".

Após a repetição de suas afirmações que nas últimas semanas escandalizaram o mundo, monsenhor Williamson se declarou pronto para "estudar" novamente a questão. A Fraternidade recusou oficialmente suas declarações, ao mesmo tempo em que se mostrava bastante compreensiva. Em seu site, ela respeita a "vontade (do monsenhor Williamson) de se informar objetivamente estudando a tese contrária àquela à qual ele aderiu até hoje", dando a entender, de passagem, que haveria certamente sobre essa questão duas "teses" válidas.

Então, por enquanto, a Fraternidade não se decidiu a se livrar do bispo. É verdade que liderando seus próprios grupos, "ele poderia se multiplicar" ordenando novos padres e, assim, perpetuar o cisma. Ao mesmo tempo, sua presença complica um acordo, já hipotético, com o Vaticano. A Igreja não pode excomungá-lo novamente: "O papa não excomunga por questões históricas", observa um bispo.

"Talvez ele acabe como um capelão para freiras contemplativas?" sugere meio a sério um vizinho da Fraternidade. Ou diante da justiça dos homens. Na Alemanha, a corte abriu um inquérito; na França e na Argentina, foram feitas denúncias por "contestação de crimes contra a humanidade". O "problema Williamson" está longe de ser resolvido.

Trajetória

- 1940 Nasce em Londres
- 1976 Ordenado padre em Ecône (Suíça)
- 1988 Ordenado bispo por monsenhor Lefebvre e excomungado pelo papa João Paulo II
- 2009 Divulgação de suas declarações negacionistas em uma rede de televisão sueca; tem sua excomunhão revogada por Bento XVI

Tradução: Lana Lim

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