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18/02/2009

Em Caracas, multidões de moto-táxis surgem como resposta à crise do transporte

Le Monde
Marie Delcas
Em Caracas
Durante a noite toda, hordas de motos barulhentas e bandeiras vermelhas ao vento percorreram as avenidas de Caracas. Os "motorizados" festejam a vitória de Hugo Chávez. O presidente venezuelano acaba de vencer o referendo do domingo (15 de fevereiro), então será candidato em 2012. Os retratos do chefe de Estado e de Che enfeitam as camisetas. O ambiente ainda é amistoso. Apesar da "lei seca" que proíbe a venda de álcool nos dias de eleições, as garrafas de rum circulam.

Em tempos normais, a maioria dos motorizados de Caracas prestam serviços de táxi. Para os habitantes da capital venezuelana, seus motores se tornaram um meio de transporte habitual. Perigoso e caro, certamente, mas rápido. Em todos os grandes cruzamentos, um bando de motos espera por clientes. O mais frequente é ver uma placa torta e grosseiramente pintada à mão, informando que se trata de um ponto de moto-táxi. Quando não há, um dos motociclistas vende o serviço aos gritos.

Aviso aos amantes de emoções fortes: ziguezague entre os carros e os pedestres, semáforos queimados, ruas na contramão, estrada interditada a veículos de duas rodas, tudo muito rápido, claro. A adrenalina é garantida.

O número de motorizados estourou em três anos. Por falta de registro oficial, ninguém sabe em quantos eles são. Especialista em economia informal, Alfredo Padilla apresenta o número de 20 mil. "O aumento no número das moto-táxis é mais uma manifestação da criatividade do setor informal para se adaptar às necessidades do momento, por causa da crise do transporte em Caracas", ele explica. Cinco anos de crescimento e de consumo desenfreado fizeram crescer o tráfego da capital desse país petroleiro. Em 2007, foram vendidos meio milhão de veículos na Venezuela, e 295 mil em 2008.

Perigos públicos

Jorge Sayas, 32 anos, abandonou seu emprego de guarda noturno para comprar uma moto 200 CC, um modelo que custa 5.300 bolívares fortes (1950 euros). Ele faz doze corridas por dia e ganha em média 250 bolívares (92 euros), e o dobro nos dias bons, "quando o metrô entra em pane por causa dos cortes de energia". O salário mínimo é de 800 bolívares (295 euros). Na Venezuela, o combustível é quase gratuito.

Os motoristas de táxi, os verdadeiros, estão furiosos. "Essas motos são um perigo público. Eles não respeitam a sinalização. E se algum dia você tiver uma discussão com um deles, cuidado! Eles chegam em massa", conta Luis Contreras. Nas ruas de Caracas, assim como em outros lugares, a solidariedade entre motociclistas é a lei.

"O aumento das moto-táxis apresenta às autoridades municipais um grande desafio, em matéria de espaço público, de organização do tráfego, de segurança. A regularização está atrasada", observa Padilla, que trabalha como consultor técnico na prefeitura de Sucre, uma das cinco subprefeituras de Caracas. É fácil se tornar uma moto-táxi, "é só colar uma etiqueta que diz 'táxi' no guidão", resume Jorge Sayas. Alguns motorizados só trabalham das 18 às 20 horas, ao sair do trabalho, e nos fins de semana.

O número de motos novas aumentou muito mais rápido que as peças disponíveis no mercado para manutenção. Resultado: um tráfego de motos roubadas e revendidas em pedaços. "O roubo de motos tornou-se uma verdadeira praga", garante um policial que patrulha a zona de Chacaito. Os bandidos não hesitam em atirar para conseguir uma.

O incentivo dado pelo governo Chávez às cooperativas forneceu uma estrutura para a atividade das motos-táxis. Os motociclistas vivem todos nos "barrios", vizinhanças pobres que abundam em Caracas. Essa "força motorizada" ao serviço do "chavismo" preocupa os oponentes. "Mas ela é bem útil para se chegar ao escritório na hora," admite José Bellini, executivo corporativo ferozmente "anti-chavista".

Tradução: Lana Lim

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