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18/02/2009

Na China, 20 milhões de migrantes estão sem trabalho

Le Monde
Bruno Philip
Em Feilong, Baishi (China)
"Se você tivesse vindo alguns dias mais tarde, só teria encontrado velhos e crianças!", diz Xiao Fixiong, 62 anos, falando das casas do vilarejo, uma mistura de fazendas tradicionais e de algumas construções mais modernas em cimento. No dia seguinte, a Festa das Lanternas vai encerrar as festividades do Ano Novo chinês, e a maior parte da força de trabalho de Feilong, uma aldeia de 200 famílias perdida no interior da província de Jiangxi, se prepara para voltar a trabalhar no Guangdong (Cantão), como todos os anos.

Mas dessa vez, por causa da crise, os mingongs (trabalhadores camponeses) não têm a certeza de encontrar emprego nas ricas zonas costeiras: é toda a economia dos distritos rurais da China, dos quais muitos dependem do sustento financeiro desses migrantes, que está ameaçada.

Ao contrário do que anuncia Xiao, nem todos partirão logo. "Trabalho em uma fábrica têxtil em Dongguan (perto de Shenzen)", diz o jovem Lin Qingui, de 29 anos. "Já faz alguns meses que a empresa funciona em um ritmo vagaroso. Não estou desempregado, mas não sei se ainda terei trabalho na semana que vem".

No começo de fevereiro, o departamento de questões econômicas e sociais do "Conselho de Estado" divulgou estatísticas oficiais indicando que, dos 130 milhões mingongs que há anos constroem nas cidades o "milagre" econômico chinês, 20 milhões estão sem trabalho, um número que deverá subir. Segundo o governo chinês, 40% da receita dos lares rurais está ligada ao dinheiro enviado por trabalhadores migrantes às suas famílias.

A crise mundial, que atinge a China de forma mais dura do que o previsto, preocupa as autoridades. O que farão todos esses trabalhadores camponeses que não são mais agricultores e cujas magras parcelas de terra cultiváveis não fornecem rendimento suficiente para que possam alimentar suas famílias? A desordem ameaça os campos, uma perspectiva que assombra a psicologia coletiva dos dirigentes chineses? A História lhes ensinou que, na China, as dinastias devem desconfiar das revoltas que amadurecem no terreno do descontentamento camponês.

"Eu lhes digo que todas as pessoas com menos de 50 anos trabalham nas cidades, mas eu, com 62 anos, ainda sou mingong", gargalha Xiao Cijiong, enquanto fuma mais um cigarro em volta de um chá pálido na sala de jantar onde sua família e seus vizinhos estão reunidos. No cenário poeirento de uma desordem indescritível, a China rural se empanturra e ri de suas misérias. No salão de chão cimentado, além da mesa, das cadeiras e de um bufê, reina uma velha televisão. Uma mobilete em mau estado está jogada em um canto. Xiao Cijiong conta: "Sou motorista em uma fábrica, na província de Zhejiang (perto de Xangai), eu ganho 2 mil yuans por mês (pouco mais de 200 euros). E não é com um mu de terra cultivável (15 mu = 1 hectare) que vou conseguir me sustentar! Preciso trabalhar no exterior".

Em torno dele, uma pequena multidão escuta, atenta e risonha. Ainda com muitos uniformes tipo "Mao", bonés, cigarros nos lábios, a aglomeração é típica desse universo da China profunda: pessoas pobres, fatalistas e sempre prontas a zombar dos funcionários locais. "A corrupção está por toda parte, em todos os níveis, os dirigentes enchem os bolsos", comenta um velho homem.

Alguns quilômetros adiante, a situação não é muito diferente no vilarejo de Baishi. A região e o lugar são carregados de História: a três horas de distância pela estrada, perto de Ruijin, os comunistas chineses fundaram, em novembro de 1931, sua primeira "República soviética". Aqui, três anos mais tarde, se rendendo diante do "quinto cerco" dos soldados de Tchang Kaï-check, o próprio Mao Zedong se refugiou em Baishi. Na entrada do vilarejo, é exibido um velho templo dos ancestrais que abrigou o futuro Grande Timoneiro durante quinze dias em 1934.

Lin também trabalha na província de Cantão e explica que Gao Hao, sua fábrica de roupas que vivia em parte das encomendas vindas dos Estados Unidos e de Cuba, parou com todas as exportações a partir do segundo semestre de 2008. Havia trabalho para 1000 operários, e agora mal dá para 300. "Quer saber o que vou fazer?", ele explica, mexendo em seu celular. "Bem, vou esperar que me avisem que o bloco de encomendas está cheio de novo, e com meu grupo de colegas, vamos voltar a trabalhar". E se a usina não voltar a contratar? "Veremos", ele sorri, "aqui nós vivemos um dia de cada vez..."

"Eu não estou preocupado", interrompe Xiao Yilan, de 38 anos. "Antes éramos ainda mais pobres, trabalhávamos nos campos, sobrevivemos!" O homem, que dirige uma moto-táxi enquanto espera coisa melhor, é eletricista e encanador. "São os jovens sem qualificação que devem se preocupar, eu me viro", ele garante. Quanto a viver ainda da terra, ele calcula que não se deve contar com isso mesmo que "ao menos de fome não se morra".

"Para realmente conseguirmos nos sustentar", ele diz, "seria preciso fazer criação de animais, com muitas galinhas e porcos. Eu colho 800 kg de arroz duas vezes por ano, e vendo a metade. Isso me rende de 2 a 3 mil yuans por ano. Mas mesmo que o governo tenha acabado com os impostos e nos conceda um subsídio de 15 yuans por ano e por mu, não se pode ir mais longe..."

Ainda que o governo prometa construir "novas campanhas socialistas", expressão que significa que é preciso melhorar o nível de vida dos camponeses, as realidades do terreno cercam os limites dessas intenções. O encanador-camponês suspira quando lhe perguntam se ele está pronto para "transferir ou alugar" sua terra, como promete a recente reforma do setor rural. Isso permitiria aos agricultores que dispusessem de maneira mais sutil do direito sobre o uso das terras que eles não possuem, e que permanecem como "propriedade coletiva" dos comitês dos vilarejos.

Hu Qili, de 92 anos, é um dos últimos sobreviventes a terem assistido à última reunião de Mao antes que ele se pusesse a caminho da Longa Marcha. Um brilho travesso dança nos olhos do ancião quando lhe perguntam, como piada, o que Mao poderia ter feito para salvar a China da crise: "Com o Mao, as pessoas eram mais puras. Mas a vida era mais brutal."

Tradução: Lana Lim

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