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19/02/2009

Mitrovica, o "caldeirão" étnico do Kosovo

Le Monde
Piotr Smolar
Em Mitrovica
Em uma noite de janeiro, um dos mais famosos criminosos de Mitrovica Norte - parte da cidade kosovar povoada pelos sérvios - teve um filho. Para comemorar o acontecimento, ele foi até a ponte central. É um local histórico de confrontos entre a polícia e a comunidade albanesa que vive no sul. Sem ligar para os inúmeros passantes, ele deu um tiro para cima com sua arma automática. No dia seguinte, no rádio, o chefe da polícia local deu outra versão dos fatos: um homem feliz da vida se divertia com rojões.

Quem nos conta essa anedota é um corajoso ativista, Momcilo Arlov, que dirige o Centro para o Desenvolvimento da Sociedade Civil. Sua esposa estava presente no momento dos fatos. Em seguida, ele procurou representantes da Kfor (a força militar da Otan) e da Eulex, a nova missão civil europeia encarregada da aplicação da lei. "Eles nos perguntaram se queríamos prestar queixa", ele diz. "Mas esse cara sabe onde a gente mora! Por que devemos fazer o trabalho dessas organizações internacionais que deveriam nos proteger?"

Mitrovica tem uma reputação deplorável: a de ser um caldeirão étnico, onde os conflitos são os mais impressionantes de Kosovo. Dividida em duas pelo rio Ibar, a cidade abriga ao norte os elementos radicais da comunidade sérvia, fortalecidos pelo apoio de sua pátria vizinha. No dia 17 de março de 2008, um mês depois da Independência, violentos choques puseram os sérvios de Mitrovica em oposição às forças internacionais. Estas haviam fugido do tribunal por força de ex-funcionários sérvios que estavam ali instalados. Um soldado ucraniano morreu naquele dia. Mas a tempestade pode irromper por um motivo bem menor. No dia 30 de dezembro, muitas lojas albanesas foram queimadas após o ferimento por arma branca de um jovem sérvio durante uma simples briga.

A ferida de Mitrovica não é somente a "segregação", segundo Momcilo Arlov. É também o aumento das atividades criminosas, especialmente o contrabando de gasolina. No ano passado, os postos aduaneiros no norte da cidade foram incendiados, abrindo caminho para todos os tráficos. "A situação se agravou nessa zona desde a independência", reconhece Yves de Kermabon, o chefe francês da Eulex. "É preciso reativar a alfândega para evitar que isso vire uma gigantesca zona de 'duty free'. Desde 9 de dezembro foram recolocados funcionários nos postos. Estão procurando um meio técnico para restabelecer a alfândega, mas terá de haver uma cooperação com os sérvios".

Para os sérvios, a questão é política. "Não pode haver boas razões para permitir aos kosovares que finquem sua bandeira neste lugar", resume Olivier Ivanovic, secretário de Estado do ministério sérvio para o Kosovo.

Há duas semanas que os aduaneiros anotam novamente o conteúdo das mercadorias que transitam nos dois sentidos, mas nenhuma taxa é cobrada. Muitos carros circulam sempre sem placa. "Nossas perdas são avaliadas entre 1,5 e 2 milhões de euros por semana", revela Blerim Shala, um dos líderes do partido de oposição, a Aliança para o Futuro de Kosovo (AAK). Nosso governo considera isso como responsabilidade das organizações internacionais. Assim, a zona é um paraíso para os criminosos, ligados aos extremistas sérvios".

Na realidade, a gasolina concilia os criminosos albaneses e sérvios, segundo diversas fontes. Comprada na Sérvia sem pagamento de taxas de exportação, ela é em seguida encaminhada a Kosovo sem direitos aduaneiros, e depois vendida a um preço inigualável na Europa: 0,75 euros por litro!

Diante desses interesses criminosos, as organizações internacionais são pressionadas em seus diversos compromissos, às vezes contraditórios. A Eulex deve permanecer neutra na questão do Kosovo, dizem os sérvios; seus policiais e seus agentes aduaneiros não podem defender a integralidade territorial da antiga província. Quando os militares franceses da Kfor recentemente supervisionaram as equipes que vieram explicar as modalidades de recrutamento da nova polícia kosovar, nos vilarejos sérvios perto de Mitrovica, eles enfrentaram manifestações hostis.

As autoridades sérvias ditas paralelas, em Mitrovica do Norte, sustentam um discurso radical que impede qualquer tipo de diálogo. "Eles não são em grande número, mas dispõem de poder financeiro e político", observa o prefeito albanês de Mitrovica do Sul, Bajram Rexhepi. Eles têm interesse na anarquia e representam um obstáculo à aproximação entre as comunidades".

É o que diz Pieter Feith. O representante especial da União Europeia em Kosovo gostaria que Belgrado contribuísse mais para uma normalização e rompesse com os agitadores. "Alguns líderes em contato com a Sérvia intimidam a população. Há um convite à violência", ele nota. "Devemos nos assegurar de que essa parte do território não se transformará em um buraco negro".

Um dos principais acusados, do lado dos nacionalistas sérvios, nos recebe em uma pizzaria decorada com ícones ortodoxos. Diretor do hospital de Mitrovica do Norte, Marko Jaksic ignora as críticas sobre as redes criminosas. "Propaganda ocidental!", ele afirma. "O buraco negro da Europa é Kosovo, com seus traficantes de drogas". Estaria ele pronto para apoiar a ação dos policiais e dos magistrados da Eulex? "Nós não colaboraremos com a Eulex, mas também não atrapalharemos seu trabalho". O status quo pode contar com ardentes defensores.

Tradução: Lana Lim

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