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19/02/2009

Unesco recenseia 2.500 línguas em perigo de extinção

Le Monde
Brigitte Perucca
É possível salvar uma língua como se salva um templo do desgaste do tempo ou da destruição pelos homens? O "Atlas das Línguas do Mundo em Perigo de Desaparecer 2009", apresentado na quinta-feira, 19 de fevereiro, na Unesco em Paris, dá uma visão mais otimista e matizada do que seu título permite supor. Enquanto o Atlas de 1999 citava 600 línguas e o de 2001, 900, a terceira edição, realizada por 25 pesquisadores sob a batuta do linguista Christopher Moseley, estima em 2.511 o número de línguas vivas cuja situação é vulnerável, em perigo, em sério perigo, em situação crítica ou extinta no mundo.

Um número a se comparar com as 6.912 línguas recenseadas pelo "Ethnologue", o índice oficial e única estimativa científica disponível. A concentração de línguas ameaçadas é especialmente forte nas regiões do mundo que também apresentam a maior diversidade linguística: Melanésia, África subsaariana e América do Sul.

Esse salto quantitativo considerável não significa um agravamento, mas simplesmente reflete "um melhor recenseamento" dos idiomas, explica Cécile Duvelle, chefe da seção de patrimônio e material da Unesco. Em sua tipologia, os linguistas classificaram essas línguas e seu grau de "risco" em função de critérios de "vitalidade" linguística, tais como, principalmente, o número de locutores, mas também a transmissão da língua de uma geração a outra e as políticas linguísticas dos governos e das instituições.

"As línguas são vivas. Algumas morrem, outras nascem. A coisa se move", resume Duvelle, que revela "uma crescente preocupação dos países" sobre as questões linguísticas. Estas também parecem ter se beneficiado do aumento de reivindicações em todo o mundo pela proteção da biodiversidade, de tratar "com um mesmo sentimento de urgência a preservação das espécies vivas e a das línguas humanas", explica Moseley. Correlação interessante, mesmo que não demonstre nada: a faixa dos trópicos também é a "zona" onde reina a maior biodiversidade.

Conscientização militante aqui, voluntarismo político e institucional acolá são os fatores que levam ao renascimento das línguas. A inscrição do bilinguísmo na Constituição do Paraguai não é evidentemente estranha ao forte aumento, entre dois recenseamentos nacionais, do número de locutores de guarani (de 3,6 milhões em 1992 para 4,4 milhões em 2002), língua hoje colocada quase em igualdade com o espanhol. No México também foi uma lei que, em 2003, conferiu aos povos indígenas o direito a um ensino bilíngue, o que levou à formação de professores nessas línguas. Mas o reconhecimento institucional não basta: o irlandês é amplamente ensinado na ilha, mas somente 5 a 6% da população o falam, lembra Christopher Moseley.

Em todo caso, a mobilização das comunidades continua sendo essencial. Assim, se a América do Norte e a Austrália são as regiões do mundo onde existem mais línguas em perigo, esses dois "continentes" também são aqueles onde "campanhas para fazer reviver línguas perdidas ou quase são as mais importantes", explica Moseley, referindo-se à mobilização das comunidades indígenas americanas que trabalham com grande sucesso nos últimos anos na renovação do black-foot, do apache e do cherokee.

Esse despertar a favor de uma língua ameaçada também passa pelas elites, que, às vezes distantes de seu "país de origem", sofrem a necessidade de transmitir suas origens aos filhos. É o caso do saami, por exemplo. Essa língua falada na Suécia, na Noruega e na Finlândia continua perdendo terreno em seu território original, mas se beneficia de uma recuperação por parte dos que o deixaram. O fenômeno de renascimento não se limita às línguas distantes e exóticas: o galês, que em 30 anos reconquistou o sudoeste da Inglaterra - e mais ainda o basco e o catalão - que superaram o castelhano no País Basco e na Catalunha - são provas de que a Europa das línguas não está perdida para sempre.

No momento em que o inglês global parece prestes a dominar o mundo, talvez pareça irracional querer a toda força preservar a totalidade do patrimônio linguístico. Não é o inglês que ameaça a diversidade linguística, entretanto, mas as línguas regionais que tendem a se impor em detrimento das "pequenas" línguas, objetam unanimemente os linguistas. A dominação do swahili na África oriental, porque ele é ensinado e permite conseguir um emprego, ameaça as 30 ou 40 línguas praticadas na Tanzânia. É o mesmo caso da Indonésia, onde o barassa provoca a "morte lenta" de todas as outras, numerosas, que coabitavam até então no arquipélago.

Mas de que serve manter ou revitalizar uma língua quando seus locutores não têm mais relações entre si? "Uma ecologia linguística saudável supõe a coexistência de várias línguas: uma língua local de comunicação e toda uma gama de outras com papéis diferentes", explica James Costa, pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisa Pedagógica, lembrando o exemplo das ilhas Shetland, no mar do Norte: "Antes do século 17, essa parte do mundo era um centro de diversidade linguística. Ali se falava uma forma de norueguês, mas também frísio, flamengo, holandês, cada uma servindo para usos diferentes: para o comércio, a vida cotidiana, etc." São, portanto, "ecologias linguísticas" que é preciso proteger hoje, defende o linguista.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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