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20/02/2009

Faixa de Gaza enfrenta uma difícil reconstrução

Le Monde
Michel Bôle-Richard Em Jabaliya (faixa de Gaza)
Eles receberam o nome de "Campo da resistência" ou "Campo do orgulho".
A chuva os transformou em lamaçais. As tendas se encharcaram. O frio as atravessa. Ninguém quer dormir ali. Não há eletricidade. Somente um grande reservatório de plástico de água, uma mesquita de lona e abrigos para a ajuda humanitária da Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância) ou da Unrwa (Agência das Nações Unidas para os Refugiados Palestinos).

Ao leste de Jabaliya, nos bairros Dardona e Abed Rabbo, devastados pela ofensiva terrestre de Israel no começo de janeiro, a vida ainda não voltou ao normal. Como isso seria possível? Um mês após o fim da Operação Chumbo Fundido, no dia 18 de janeiro, as casas esmagadas por Tsahal continuam do jeito que estavam. Somente algumas bandeiras palestinas pairam sobre as ruínas. Alguns habitantes ergueram barracos de plástico e chapa nos escombros para recomeçarem a vida, uma vez que os mortos estivessem enterrados. Uma vida precária, desconfortável, rudimentar. Uns poucos vasculham os entulhos para tentar recolher objetos familiares de um passado que não volta mais. "Somos refugiados em nossa própria terra, mas não iremos embora. É por isso que os campos foram batizados assim", explica Ahmed Naban.

São raros aqueles que vivem nessas tendas improvisadas. Com os € 4 mil que eles receberam do Hamas, eles alugaram quartos, em Jabaliya e outros lugares, e se espremem em apartamentos só esperando para ver. Esperando que termine o inverno. Todos os dias eles vêm aqui para passar o tempo, buscar comida. No final da tarde, longas filas se formam dentro de um recinto onde cada um, munido de seu cupom, recebe óleo, açúcar, farinha, conservas, legumes, dezoito produtos básicos no total, tudo que é preciso para alimentar uma família.

Mohammed Kalaja, representante da associação Human Appeal International, dos Emirados Árabes Unidos, supervisiona o bom andamento das operações. "Nós alimentamos 420 famílias, ou seja, quase 3 mil pessoas", ele diz. "Não sei quanto tempo isso vai durar. Seria preciso que houvesse uma solução política para ajudar todos esses desprivilegiados". Ele explica que há cinco centros desse tipo no norte da faixa de Gaza e que, por enquanto, ele faz o que é mais urgente. Cada um sai com sua trouxa de mantimentos. Os jumentos atrelados às carroças vão levá-los para casa, ou pelo menos o equivalente a isso.

O preço dos aluguéis disparou, mas essas vítimas não têm muita escolha. Todos se recusam a passar a noite nessa zona considerada como muito arriscada, estando situada a menos de dois quilômetros da fronteira israelense. "À noite não há ninguém aqui. É uma zona fantasma. Todo mundo teme as incursões israelenses. Há alguns dias, no domingo (15), um rapaz de 18 anos, Ahmed Alterfawi, foi morto por um atirador. Ele levou uma bala no peito. Os soldados atiram para aterrorizar as pessoas, para que elas vão embora. Os israelenses consideram isso agora como uma zona de segurança. É por isso que foi tudo destruído. Antes, a terra de ninguém se estendia por um quilômetro, e agora são dois", conta Adel Abou Ida.

O espaço vital dos habitantes de Gaza se reduz. Tudo foi arrasado. Toda a zona industrial, abaixo dessa pequena colina, é só um campo de ruínas e de ferragens retorcidas. Ao longe, percebe-se o mirante de Tsahal, que alcança todo o setor sob fogo com perfeita visibilidade.
No total, 4 mil casas foram totalmente destruídas, e mais de 10 mil foram danificadas.

Nessas condições, será possível reconstruir? Primeiro, é preciso que os pontos de passagem sejam abertos, que o cimento e os materiais de construção possam entrar. E, sobretudo, dizem os habitantes, são necessárias garantias da comunidade internacional de que tudo não será destruído novamente. Jamil Okel está cético. Ele espera pela assinatura de uma nova trégua para crer. Sobre sua carroça, Adnan Assalia não acredita muito. Ele também perdeu tudo: "O povo não para de pagar as contas. O que queremos não é ajuda alimentar, mas sim cimento e ferro, para reconstruir. Fomos transformados em uma população de mendigos. Somos cada vez mais reduzidos a estender a mão para sobreviver. Mas ficaremos até morrer, pois agora não temos mais nada a perder. Só nos resta a terra, nossa terra".

Com trinta anos e quatro filhos, Adnan é obrigado a ir buscar sua ração. Ele não tem trabalho. Ele implica com a União Europeia, que "com uma mão apoia Israel, e com a outra alivia a consciência fornecendo ajuda. Por que ninguém diz que os israelenses são assassinos? Por que ninguém lhes diz que eles só fazem crescer o ódio e o desejo de vingança?" Um homem quer mostrar como todos os táxis de sua empresa foram reduzidos a carcaças pelos mísseis e projéteis. Um velhinho explica que perdeu cinco membros de sua família, soterrados pelos escombros de sua casa, destruída por tiros de tanque: o pai, seu filho, duas filhas e a jovem esposa de seu filho, todos membros da família Aler.

"E por que ninguém nunca falou disso na imprensa?", ele pergunta. Quatro caças F-16 passam em formação cerrada no céu. A faixa de Gaza continua sob vigilância".

Tradução: Lana Lim

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