UOL Notícias Internacional
 

20/02/2009

Muntazer al-Zaidi tem o Iraque a seus pés

Le Monde
Patrice Claude
Nuri al-Maliki, o primeiro-ministro do Iraque, afirma ter recebido de sua parte um mea culpa como se deve, na forma de um pedido oficial de desculpas. Dhirgham al-Zaidi, um de seus três irmãos, jura que é mentira. Que ele "não se arrepende de nada". Que ele "está muito orgulhoso" do que fez. E que se tivesse de fazer de novo, "ele o faria". Ele, no caso, é Muntazer al-Zaidi, campeão mundial de arremesso de sapatos sobre chefe de Estado e símbolo internacional da indignação televisionada, cujo processo foi aberto na quinta-feira (19) diante da Corte criminal central em Bagdá antes de ser adiado para o dia 12 de março.

Diante da questão iraquiana mais célebre do mundo desde o processo de Saddam Hussein em 2007, os juízes deverão decidir se o gesto do jornalista contra George W. Bush, transmitido mundialmente em 14 de dezembro de 2008, constituiria "agressão caracterizada contra uma autoridade estrangeira", ou simplesmente "insulto". Diferença importante: no primeiro caso, o contraventor corre o risco de pegar de cinco a quinze anos de prisão, e no segundo, "somente" cinco.

Depois de ter mostrado de forma brilhante nas telas do mundo inteiro sua bela capacidade de esquiva e uma coluna mais flexível do que parecia até então, o próprio George Bush, a "vítima", tomou a iniciativa de pedir às autoridades iraquianas que não "reagissem com excesso". Demonstrando um humor inesperado - "só posso dizer que era um tamanho 10", ele disse rindo em seu voo de volta -, o presidente dos Estados Unidos declarou de forma mais séria depois do incidente: "É isso o que acontece nas sociedades livres, as pessoas procuram chamar a atenção para elas mesmas".

De fato, se esse era seu objetivo, o que não contradiria em nada a sinceridade ultrajada de seu gesto, Muntazer al-Zaidi conseguiu de forma soberba.
Dois meses depois, o famoso atirador de sapatos ainda aparece sem parar em sites da Internet, com sua apóstrofe que tanto divertiu o mundo árabe islâmico: "Esse é o beijo de despedida dos iraquianos, seu cão! Isso é pelas nossas viúvas, nossos órfãos e todos aqueles que foram mortos!"

Não se falará aqui sobre os 100 mil a 500 mil mortos lamentados no Iraque desde que uma invasão foi oficialmente lançada, em março de 2003, para "destituir um ditador de suas armas de destruição em massa". Também não serão lembrados os milhares de civis inocentes abatidos "por engano" ao longo de seis anos nas fronteiras militares americanas, nem das centenas de famílias dizimadas como "danos colaterais" nos bombardeios "antiterroristas" supostamente "mirados".

Muçulmano xiita praticante, eclético o suficiente para ter em seu quarto um pôster de Che Guevara, Muntazer al-Zaidi é hoje famoso como um herói, um precursor, até no mundo sunita. Do Egito à Palestina, passando pela Indonésia e pelo Paquistão, milhares de cidadãos se manifestaram em seu favor.

Desde sua prisão, com um olho roxo e um dente quebrado, em meados de dezembro de 2008, dizem que ele foi espancado e torturado. "É mentira", diz o juiz-instrutor. "Muntazer está com excelente saúde e está sendo bem cuidado". No dia 16 de janeiro, seu irmão Dhirgha revelou que, na véspera, para comemorar seu aniversário de 30 anos, "guardas patriotas lhe trouxeram na cela um bolo com velas". Se o gesto do jornalista envergonhou muito o governo - especialmente o premiê, que não é especialmente conhecido pelo seu senso de humor -, secretamente, os oficiais não deixam de confessar com um sorriso "uma certa admiração pela beleza do arremesso".

Milhares de iraquianos se manifestaram pela sua libertação. Até pouco antes do Natal, houve disputas no Parlamento nacional entre os deputados que queriam um debate sobre seu caso e os outros. Poetas cantaram sua glória nos jornais. Em janeiro, Maith al-Amari, um famoso escultor de Bagdá, lhe dedicou uma obra: um sapato gigante em couro e fibra de vidro exposta em uma praça pública de Tikrit, cidade onde nasceu Saddam Hussein. As autoridades logo ordenaram que ela fosse retirada. Mas o acontecimento fez barulho. O jornalista lançou uma moda universal de expressão, que deu origem a centenas de jogos e produtos derivados on-line. E ele provocou um temor entre os poderosos da terra. Agora é fundamental obrigar os jornalistas convidados às coletivas de imprensa de altos dirigentes, no Oriente Médio e em outros lugares, a tirarem os sapatos antes de entrar.

Ou tornar o uso de sapatilhas de pano obrigatório...

Da condição de funcionário obscuro de uma rede de televisão iraquiana desconhecida chamada Al-Bagdadiya, transmitida exclusivamente por satélite a partir do Cairo, Muntazer al-Zaidi se tornou um ícone dos oprimidos da terra, ídolo das multidões árabes, o vingador dos muçulmanos do planeta, o redentor festejado por todos os jornalistas não ouvidos do universo. Trata-se sem dúvida de uma agressão, mas para exprimir a rejeição de uma política ou de um político, a televisão mostrou de uma vez por todas que um calçado bem mirado vale mil fotos de horrores de guerra, ou 10 mil editoriais habilmente argumentados.

Originário de Nadjaf, a cidade sagrada do islamismo xiita, Al-Zaidi morava de aluguel em um modesto quarto no bairro xiita histórico de Khadhamiyah, em Bagdá. Formado em comunicação, ele era funcionário da Al-Bagdadiya desde setembro de 2005. Dois anos mais tarde, enquanto a guerra civil avançava entre as duas grandes "capelas" muçulmanas do Iraque, ele foi feito refém por jihadistas sunitas, espancado e libertado três dias mais tarde sem muitos danos. Em janeiro de 2008, uma nova interpelação; desta vez, pelos americanos, durante uma batida militar em seu prédio. Seu irmão mais velho Dhirgham conta que, libertado no dia seguinte, ele professava "um ódio visceral pela ocupação americana, e até uma rejeição total do que ele chama de 'ocupação iraniana virtual'". "Para ele", continua seu irmão, "a influência iraniana no Iraque é o reverso da moeda americana".

"Meu cliente", disse seu advogado Me Dhiya al-Saadi, "é um patriota que quis manifestar sua recusa à ocupação estrangeira. Seu ato foi simbólico e não pode ser, de forma alguma, comparado a uma tentativa de assassinato. Desde quando sapato mata? "De qualquer forma, o objeto do delito não poderia mais ser apresentado como prova documental: o sapato - de fabricação turca ou iraquiana segundo fontes - foi destruído pelos serviços de segurança, encarregados de determinar se ele continha ou não explosivos. O exame deu negativo.

Muntazer al-Zaidi não tentou matar George Bush. Ele simplesmente quis lhe transmitir seu desprezo, sua frustração, seu sofrimento de iraquiano. "Ele espera ser inocentado e libertado", explicou Me al-Saadi. Seu gesto equivale a uma forma de expressão bem conhecida no Ocidente: lançar tomates ou ovos poderes em dirigentes detestados". Zaidi seria um "atirador de tortas" à moda árabe, de certa forma...

Tradução: Lana Lim

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h58

    -0,53
    3,128
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h20

    -0,28
    75.389,75
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host