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25/02/2009

Aproximação entre os curdos do Iraque e os turcos

Le Monde
Guillaume Perrier
Em Erbil (Iraque)
A cena teria sido inimaginável há alguns meses. O cônsul-geral da Turquia em Mossul participava, havia alguns dias, de uma conferência para promover o diálogo entre turcos e curdos. Uma reunião organizada por iniciativa de uma poderosa confraria religiosa turca, instalada em Erbil, a capital da região autônoma curda do Iraque.

O diplomata havia deixado sua escolta de soldados turcos na porta do centro de conferências para se misturar aos intelectuais de Istambul ou de Diyarbakir, aos chefes de clãs e aos políticos curdos, convidados pelo governo local, e exprimir o desejo de "que a Turquia se torne a porta europeia do Iraque".

Falavam-se as duas línguas, o turco e o sorani (idioma utilizado no Curdistão iraquiano).

"É uma janela que se abre", observou Samir Salha, especialista em relações internacionais na universidade de Kocaeli, na Turquia. "Uma etapa" entre o Curdistão iraquiano e a Turquia, acrescenta o intelectual curdo Altan Tan. "Não se acertará tudo de uma vez: nem sempre houve consulado turco aqui. É preciso abrir postos alfandegários, bancos, promover as trocas culturais, educativas..."

O cônsul turco se recusa, a exemplo de seu governo, a empregar a expressão "Curdistão do Iraque" para designar a região dirigida por Massoud Marzani, preferindo dizer "Iraque do Norte". O premiê Recep Tayyip Erdogan também havia proibido, de última hora, que quatro de seus deputados comparecessem a esse simpósio. Mas se o acontecimento esteve longe de cumprir todas suas promessas, ele marca uma flexibilização das relações entre Ancara e Erbil.

Os interesses de tal diálogo são mútuos, explica-se à presidência de Erbil. "Nós já temos trocas diplomáticas em alto nível".

A segurança da região e as apostas econômicas incentivam as duas partes a se aproximarem. Alguns dias antes, o presidente curdo do Iraque, Massoud Barzani, recebia um alto diplomata turco para lembrar o estabelecimento, próximo a Erbil, de um centro de comando tripartite encarregado de coordenar a informação e a luta contra os rebeldes do Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK), refugiados nas montanhas iraquianas. Cerca de 2 mil homens, o suficiente para envenenar as relações entre vizinhos turcos e curdos iraquianos. Esse centro associará a Turquia, o Iraque e os Estados Unidos. Para Ancara, trata-se também de apaziguar essas relações de vizinhança. "Torna-se difícil alegar exercer um papel de arbítrio entre Israel e a Palestina, sem conseguir resolver seus próprios problemas", diz Sami Shoresh, ex-ministro da Cultura do Curdistão iraquiano, em uma alusão à "diplomacia da mediação" da Turquia no Oriente Médio.

Até o comandante do Exército turco, Ilker Basbug, admite agora que a solução para o problema curdo não pode ser unicamente militar. "O governo turco deve promover uma solução política e cultural", continua Sami Shoresh. "A paz entre curdos e turcos também é do interesse dos americanos, do ponto de vista de uma retirada das tropas do Iraque".

A região curda do Iraque também se aproveita de sua atração aos capitais estrangeiros. Há muitos anos a cidade de Erbil é um canteiro de obras ininterrupto. Sob a citadela, um antigo bazar de pequenas lojinhas que acabam de ser demolidas logo dará lugar a um imenso centro comercial. E na periferia, as villas à moda italiana ou inglesa proliferam no meio dos campos.

Mais de 1.200 companhias turcas participam ativamente desse crescimento econômico, segundo o presidente da Câmara de Comércio de Diyarbakir, Galip Ensarioglu, que ressalta que a região curda da Turquia, mais pobre que o resto do país, é a principal beneficiária das trocas entre fronteiras.

Além disso, um segundo posto fronteiriço deve ser aberto na primavera, para acelerar o fluxo de caminhões que transitam em direção ao Iraque. Os países europeus, a exemplo da França e da Alemanha, voltam a entrar na região, e o vizinho Irã já age ali. Ancara não quer perder a oportunidade de competir com eles.

As confrarias islâmicas também tiveram um papel importante nessa reaproximação entre turcos e curdos. O clã Barzani e Erdogan seriam próximos da confraria dos Nakshibandi, observa um "negociador", ligado ao Partido Democrático do Curdistão (PDK), o partido de Massoud Barzani.

Acima de tudo, os adeptos do califa turco Fethullah Güllen, partidários fervorosos do diálogo e organizadores da conferência de Erbil, se esforçam há dois anos para promover a fraternidade em nome do Islã, que une turcos e curdos. Essa poderosa confraria já abriu escolas em toda a região, em Süleymaniye e Kirkuk, além de uma universidade e um hospital em Erbil. No colégio particular Ishik ("a luz"), decididamente multiétnico, o ensino é feito em inglês e os alunos também falam árabe, curdo e turco. As crianças da burguesia de Erbil e os filhos dos figurões curdos e dos diplomatas árabes se encontram nas mesmas classes.

Essa medida deixa alguns observadores céticos. "No sistema de pensamento autoritário turco, esse conceito multicultural é uma manipulação", avalia o advogado de Diyarbakir, Mustafa Güçlü. "É na Turquia que o problema deve se resolver. Para poder viver juntos, é preciso uma igualdade entre os cidadãos".


AS RELAÇÕES EM ASCENÇÃO


Os negócios turco-iraquianos. Segundo o balanço da Câmara de Comércio de Diyarbakir (Turquia), as trocas comerciais entre a Turquia e o Iraque aumentaram 37,5% em 2008, em relação a 2007.
No ano anterior, elas haviam avançado 9,9%. O montante das trocas atingiu US$ 7,5 bilhões (quase 5,7 bilhões de euros) em 2008.

Os principais setores envolvidos. Os hidrocarbonetos, o setor de construção, os bens de consumo.

Movimento da população. 50 mil cidadãos turcos e 1.200 empresas trabalham na região do Curdistão iraquiano, beneficiando outras dezenas de milhares, no sudeste da Turquia.

Diyarbakir. Nessa cidade turca, de maioria curda, 55% do comércio é feito na direção do vizinho iraquiano.

Um posto fronteiriço. Em 97 pontos de entrada sobre o território turco, existe somente um posto fronteiriço com o Iraque. Ele se situa em Habur, perto da cidade iraquiana de Zakho.

Transportes rodoviários. Pela cidade de Zakho, transitam a cada ano 20 mil caminhões, de 200 empresas de transporte turcas.

Ligações aéreas. Voos também ligam Istambul a Erbil e Bagdá.

Tradução: Lana Lim

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