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27/02/2009

Níger enfrenta a presença da Al-Qaeda

Le Monde
Christophe Châtelot
Em Niamei
"Vestido como um parisiense", diz Adamou, que se funde ao cenário de um restaurante perto de Niamei, onde a clientela local mais abastada se mistura aos expatriados que vêm sentir um relativo frescor à beira das ondas preguiçosas do rio Níger. Jovem negro, sedentário, pacífico e empregado, ele contradiz os clichês sobre os tuaregues, que complicam sua integração na sociedade nigerina.

Todavia, no sábado (21), Adamou está de cara fechada. A Al-Qaeda no Magreb Islâmico (AQMI) acaba de reivindicar seus primeiros sequestros em Níger: o dos diplomatas canadenses Robert Fowler e Louis Guay, desaparecidos no dia 14 de dezembro, e o dos quatro turistas europeus levados no dia 22 de janeiro. "Éramos tidos como escravagistas e bandidos. Agora, também vão nos acusar de cumplicidade com a Al-Qaeda", lamenta Adamou.

Mudança de cenário em um subúrbio da capital nigerina, mas o temor é idêntico e a vontade de anonimato é a mesma. "O governo não gosta dos tuaregues, a menos que abramos mão de nossas particularidades. Uma palavra a mais e temos problemas. Na falta de justiça independente, nós e todos os nigerinos vivemos em liberdade condicional", denuncia esse quinquagenário estirado nobremente em uma cama de campanha arqueada, em uma cabana surrada armada em seu local de trabalho.

Moustapha sobrevive, como tantos outros tuaregues, de pequenos trabalhos de jardinagem na capital nigerina. Longe, muito longe de seu deserto natal e da secura que dizimou seu bando e o forçou ao êxodo. Sua tez clara e seus olhos penetrantes emergem de um turbante enrolado em torno da cabeça. "Essa reivindicação é ruim para nós", ele diz.

Robert Fowler, diplomata e africanista experiente, enviado especial do secretário-geral da ONU em Níger, e seu assistente e motorista nigerino Soumana Mounkaila desapareceram misteriosamente em um dia de dezembro de 2008 na estrada de Tillaberi, a cerca de 50 quilômetros a oeste de Niamei. Seu veículo, com a sigla do Pnud (Programa das Nações Unidas pelo Desenvolvimento), foi encontrado vazio, com as portas abertas, motor e pisca-pisca ligados, no dia 14 de dezembro de 2008.

O canadense, que havia chegado em Níger alguns dias antes, devia fazer contato com movimentos - muito minoritários no meio da população tuaregue (menos de um milhão de pessoas em 12 milhões de nigerinos) - que entraram novamente em rebelião em 2007 contra o poder de Niamei. "(Robert) Fowler não havia nos avisado sobre seu deslocamento, e escapou de nossos agentes de segurança encarregados de protegê-lo. Mas ele andava em uma estrada segura", se defende Mohammed Ben Omar, porta-voz do governo.

Em um primeiro momento, o Front des Forces de Redressement (FFR), uma facção rebelde tuaregue dissidente do Movimento dos Nigerinos pela Justiça (MNJ), reivindicou essa operação conduzida em uma zona afastada do teatro de operações habitual dos rebeldes, no norte do país. O FFR rapidamente se retratou.

Em 19 de fevereiro, foi o braço norte-africano da Al-Qaeda que finalmente publicou fotos de quatro pessoas que ele apresentou como sendo o casal de suíços, a alemã e o britânico sequestrados em janeiro. Na véspera, uma mensagem de áudio de um porta-voz da Al-Qaeda no Magreb Islâmico (AQMI), Salah Abu Mohammed, havia afirmado também estar detendo os dois diplomatas canadenses.

Um homem abatido, descabelado e com os olhos fechados, sentado ao lado de uma mulher que usava um turbante, cujo rosto foi queimado, aparece em uma das fotos. Uma outra imagem mostra um homem sem os cabelos, também de olhos fechados, aparentemente em um estado de sofrimento. Nas duas fotos, consegue-se ver homens armados, de turbantes e mascarados no fundo da paisagem desértica. "Os reféns provavelmente estão em Mali", diz um diplomata.

Segundo uma fonte próxima do dossiê citado pela sucursal de Mali da Agence France-Presse (AFP), os seis reféns estariam sendo retidos pelo argelino Mokhtar Belmokhtar, conhecido como "Belaouar". Esse veterano do Afeganistão, membro do Grupo Salafista para a Pregação e o Combate (GSPC), antes mesmo da nomeação do grupo pela Al-Qaeda, foi condenado em 2007, à revelia, a 20 anos de prisão na Argélia.

"O emir Belaouar" pediria, para soltar os reféns, "a libertação de dois mauritânios, membros da Al-Qaeda (...) atualmente detentos em um país da faixa saeliana", informava essa fonte da AFP. "Se isso se confirmar, marcará a primeira ação do tipo conduzida em Níger pela Al-Qaeda e, talvez, seus laços com certos elementos da rebelião tuaregue, pouco inclinados, no entanto, para um islamismo radical", se preocupa um diplomata europeu.


"Multidão de bandidos"

As autoridades nigerinas, constrangidas por essa questão, caminham sobre um fio. Para elas, certamente existe um problema tuaregue, mas ele se restringe a uma dimensão criminal, e não política ou social, entre essa população que pede por uma melhor distribuição das riquezas provindas especialmente do urânio extraído pelos franceses do grupo Areva em sua região de origem.

"Uma multidão de bandidos divide o Grande Saara, da Mauritânia ao Sudão, nessa zona sem lei aberta a todos os tráficos: de armas, de drogas, de pessoas, de carros roubados... Os ocorridos se tornaram um de seus fundos de comércio e, nesse sentido, um diplomata da ONU vindo de um grande país é uma presa muito valiosa", diz com firmeza o ministro Mohammed Ben Omar. Está fora de questão tentar fazer contato com os "bandidos".

Quanto à Al-Qaeda, a questão também é rapidamente dispensada. "Os reféns não estão em Níger, e não existe a Al-Qaeda em nosso país", afirma o ministro. Na terça-feira (24), o poder prorrogou em três meses a "mise en garde", espécie de estado de alerta, em vigor há dois anos no Norte, na região de Agadèz.

Um povo nômade

Nomadismo. Divididos em diversas confederações e tribos, cerca de 1,5 milhão de tuaregues vivem em cinco países do continente africano (Argélia, Líbia, Níger, Mali, Burkina Faso), unidos por uma língua (o tifinagh) e uma escrita comum (o tamashek), e a prática de um islamismo moderado. Nômades do Sahel e do Saara dedicados ao comércio e à busca de pastos, são em grande parte sedentários agora.
Rebelião. Considerando-se marginalizados e submetidos a uma assimilação cultural forçada, grupos de tuaregues entraram em rebelião, principalmente em Mali e em Níger, várias vezes ao longo das últimas décadas.
Reivindicações. Os tuaregues pedem por uma melhor divisão das riquezas produzidas em sua tradicional zona de origem, e uma melhor representação política. Em Níger, no entanto, eles ocupam três ministérios no atual governo.

Tradução: Lana Lim

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