UOL Notícias Internacional
 

03/03/2009

Indústria na faixa de Gaza foi destruída pelo bloqueio e pela guerra

Le Monde
Michel Bôle-Richard
Em Gaza
Sentado sob um toldo de plástico, diante de um braseiro, Jamil Abu Eida passa o tempo sorvendo chá. "Aonde você quer que eu vá? Não tenho mais nada. Os israelenses demoliram tudo, arrasaram tudo", ele diz.

Jamil Abu Eida tinha quatro fábricas de cimento e sete casas na zona industrial perto do ponto de passagem de Karni. Não restou nada, exceto uma casa que serviu de refúgio e de ponto de observação para os soldados das Forças de Defesa de Israel. Os F-16, os helicópteros Apache e as escavadeiras nivelaram tudo. Esse negócio de família, que produzia 35% a 40% do cimento da faixa de Gaza, é só um amontoado de ruínas.

Jamil Abu Eida avalia os prejuízos em pelo menos US$ 10 milhões (€ 7,9 milhões). "Das 27 cimenteiras da faixa de Gaza, sete foram completamente destruídas e dez outras, danificadas. Foi uma destruição sistemática. Essas usinas não representavam nenhum perigo. Nós até tínhamos boas relações comerciais com os israelenses. Durante muito tempo, fomos associados. Essa guerra foi conduzida contra os civis e contra a indústria, e não contra o Hamas", constata Jamil Abu Eida, perambulando entre os transportadores de correia no chão, os silos derrubados, os caminhões quebrados, os carros esmagados.

O espetáculo é o mesmo em toda a zona industrial, situada a cerca de dois quilômetros da fronteira. Não resta mais nada de pé ao longo da rota oriental da faixa de Gaza. Algo em torno de sessenta empresas de todos os tipos, da fábrica de sorvete até uma fábrica de cerâmica, passando ainda pela usina elétrica, foram destruídas de forma deliberada, metódica. As Forças de Defesa de Israel apagaram a indústria de Gaza. Até mesmo o posto de gasolina foi reduzido a um monte de escombros.

Shaban al-Jaal não se conforma. Ele chegou com dois caminhões-tanque para recuperar o que restou de combustível nos reservatórios. "Os israelenses querem que vamos embora. Eles acham que estamos perto demais deles. Querem evacuar o local, estender a zona de segurança ao máximo, nos matar de fome. Faz trinta anos que trabalho aqui. Agora, não tenho mais nada".

A vontade israelense de estender a zona de segurança ao longo da fronteira é incontestável. Mas o objetivo das Forças de Defesa de Israel parece ter sido também de atingir a indústria da faixa de Gaza. É o que mostram os imensos danos causados à fábrica de moagem Al-bader, situada no norte de Beit Lahiya, a oeste da faixa de Gaza.

"Era a única em atividade entre as sete existentes no território. Os israelenses miraram voluntariamente nas máquinas, mas preservaram os estoques de cereais. Eles sabem exatamente o que estão fazendo. Eles destruíram para destruir", constata Amdan Hamada, um dos quatro sócios dessa empresa. O fogo provocado pelos mísseis destruiu todas as instalações. Só restam ferragens carbonizadas e muros fendidos pelo incêndio. "Vocês não impedirão nossos sonhos", escreveu uma mão anônima em um muro, um pouco mais ao longe.

O sonho da faixa de Gaza desde o rompimento israelense no verão de 2005 era o de dar uma nova vida a esse território superpovoado, uma vez que fosse libertado da ocupação. Surgiram os projetos mais loucos. O bloqueio e os conflitos entre palestinos os transformaram em pesadelo. A operação "Chumbo Fundido" seguiu esse trabalho de estrago da economia de Gaza, começado pela imposição cada vez mais drástica de um estrangulamento que só aumentou em três anos, ou seja, desde a vitória do Hamas nas eleições legislativas do dia 25 de janeiro de 2006.

Três semanas de guerra contribuíram para essa empreitada de enfraquecimento. "O que os israelenses não conseguiram com o cerco, eles atingiram com as escavadeiras", explica Amr Hamad, presidente da câmara da indústria palestina.

E ele acrescenta: "Antes, 97% da população industrial estava paralisada pelo bloqueio. Agora, os 3% restantes foram reduzidos a nada. O objetivo é claro: primeiro, fazer com que a economia de Gaza dependa inteiramente da boa vontade de Israel, e enviar uma mensagem à população segundo a qual o Hamas é responsável pelo que aconteceu.

Amr Hamad avalia que são 300 as usinas e as oficinas destruídas, durante as três semanas de ataque aéreo. Esse empresário ressalta que os alvos foram escolhidos intencionalmente, todas as empresas que funcionam de forma quase autônoma utilizando produtos de base vindos do Egito foram demolidas.

Quanto às outras, aquelas que funcionam com a matéria-prima provinda de Israel quando os pontos de passagem funcionam, elas sofreram muito menos. "É a prova de que os israelenses querem controlar tudo, a construção e a reconstrução", diz Hamad. O setor privado também deve se submeter às suas vontades. Tudo foi perfeitamente planejado. Eu nunca vi tantas escavadeiras utilizadas durante uma operação militar. Isso tudo não tem nada a ver com o terrorismo. Em Karni, é uma zona totalmente aberta. Nenhum combatente do Hamas jamais se aventurou lá".

Amr Hamad ainda não conseguiu calcular o montante dos prejuízos. São sem dúvida centenas de milhões de dólares. A maior parte dos industriais encontrados permanecem convencidos de que os laços econômicos com Israel são essenciais e naturais. Mas hoje, mais do que nunca, eles estão totalmente à mercê de seus vizinhos para tentar reerguer as ruínas.

Jamil Abu Eida recusou os € 4 mil que o Hamas lhe deu pela perda de sua casa."Não sou um mendigo. Quero pôr minhas cimenteiras em funcionamento. Quero trabalhar", ele diz. Quando lhe perguntam se ele tem ódio contra os israelenses, ele se contenta em baixar a cabeça em silêncio.

Tradução: Lana Lim

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