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04/03/2009

Quando o Sol nascente desperta para o vinho

Le Monde
Philippe Mesmer
Em Tóquio
As imagens rodaram o mundo: o ministro japonês das Finanças, Shoichi Nakagawa, com olhar perdido, procura desesperadamente por alguns instantes de lucidez para responder às perguntas dos jornalistas reunidos para a coletiva de imprensa final dos ministros das Finanças do G7, em Roma. Em 14 de fevereiro, ainda que na sequência ele tenha se defendido, Nakagawa parece ter demonstrado mais uma vez seu amor pela divina garrafa. No caso, pelo vinho Chianti oferecido por seus anfitriões italianos.

Sua inclinação pela bebida é conhecida de longa data. Suas aparições públicas em estado de embriaguez alimentam com regularidade as crônicas de Nagatacho, centro da política japonesa em Tóquio. Desta vez, a questão lhe custará seu cargo. Ela vai enfraquecer um pouco mais um primeiro-ministro em apuros.

Nakagawa não é o único político japonês a gostar de beber, tanto que o arquipélago possui suas tentações: uma cerveja saborosa, uma ampla variedade de saquês, mas também um vinho cada vez mais apreciado. Assim, os dirigentes dos países do G8 reunidos em Hokkaido em julho de 2008 fizeram um brinde degustando algumas taças de Cuvée Yoshiko, um vinho branco preparado segundo o método champenoise na vinícola Takeda, na província setentrional de Yamagata. Eles também puderam apreciar brancos da província de Yamanashi, situada no centro da ilha de Honshu.

Ainda que a imagem do Japão permaneça associada ao saquê, essas libações refletem os progressos vitícolas do arquipélago, conhecido por suas importações maciças de vinho (mais de 60% dos 250 milhões de litros colocados no mercado a cada ano). E também demonstram o conhecimento aprofundado do universo do vinho do único país não europeu a poder se orgulhar de ter um "melhor sommelier do mundo"; no caso, Shinya Tasaki, eleito em 1995.

Os vinhos japoneses interessam aos inúmeros aficionados do Japão, onde o consumo chega perto de 3 litros por pessoa ao ano, contra 0,3 litros, há 25 anos. A essa atenção se junta, nos últimos tempos, o sucesso de um mangá, "Kami no shizuku" (editado pela Glénat com o título "Les Gouttes de Dieu", ou "As Gotas de Deus"), que trata da história de dois meios-irmãos em busca dos doze melhores vinhos do mundo. Sua publicação em episódios semanais atrai 500 mil leitores, principalmente entre 30 e 49 anos.

Esse público também se encontra nos inúmeros cursos sobre vinho. O mais conhecido, sem dúvida, é o oferecido pela Académie du Vin (Academia do Vinho), equivalente à de Paris, mas em Tóquio. Aberta em 1987, ela atrai cerca de 4 mil estudantes por ano.

Mais guiado pelo prazer da descoberta, a Cinq Sens ("cinco sentidos") garante seminários de descoberta do vinho e já atraiu 700 pessoas desde sua criação há cinco anos. "Nossos alunos vêm de ambientes abastados", explica Naoko Matsuura, fundadora e diretora-geral. "Para eles, é um passatempo agradável. 70% deles são de mulheres".

Os vinhos japoneses, das vinícolas Takeda, Obuse ou ainda Sakaori, ocupam um lugar cada vez mais importante nesses seminários, como nas adegas de Tóquio, onde eles se afirmam lado a lado com uma oferta muito concorrida, importada de aproximadamente trinta países.

Prova da qualidade atingida pela viticultura nipônica, depois de ter penetrado no mercado americano, o vinho japonês agora é exportado para a Europa. Para isso só faltava se comprometer a respeitar as regras da União, ou seja: provar que 100% das uvas utilizadas realmente foram colhidas na zona de produção. "No Japão, não há uma regra rígida sobre esse assunto", explica Matsuura. "Pode-se tranquilamente misturar as uvas, mesmo as importadas". O que certos industriais, como Mercian ou Suntori, não resistem a fazer, inundando o mercado japonês com vinhos a baixos preços.

Também faltava a criação de redes. O avanço foi facilitado pelo número de estudantes japoneses saídos das universidades de Bordeaux e da Borgonha. "O universo do vinho funciona muito por relações", lembra Matsuura, formada em enologia na universidade de Borgonha e em degustação na de Bordeaux. Sem uma ligação com algum restaurante conhecido ou uma personalidade do mundo vitícola, exportar seria ainda mais difícil, uma vez que o governo não ajuda o setor".

O sucesso internacional da cozinha japonesa facilitou as coisas. Em dezembro de 2008, o Shizen Koshu Cuvée Denis Dubourdieu apareceu nas adegas da França. Desde março ele figura no cardápio do Umu, restaurante japonês de Londres que possui uma estrela no guia Michelin. Antes, 480 garrafas de Magrez Aruga Koshu, vinho branco seco de aroma cítrico, haviam zarpado em direção à Europa.

Os dois vinhos ficaram conhecidos graças a colaborações internacionais. Professor da universidade de Bordeaux, Denis Dubourdieu é, ao mesmo tempo, especialista em vinhos brancos e apaixonado pelo Japão. Bernard Magrez possui diversos vinhedos em Bordeaux (sendo um deles o do Pape Clément) e diversas vinícolas em todos os continentes. Os dois se associaram e investiram em Katsunuma, cidade no leste da região de Yamanashi. Essa região comporta 90% dos 90 milhões de litros de vinho japonês produzidos a cada ano.
A produção se faz a partir de diferentes cepas, Delaware, Cabernet Koshu, a uva local, e sobretudo a partir de uvas importadas.

Katsununa, onde 80 vinícolas exploram 170 hectares de vinhas, é o centro da produção vitícola japonesa por terem se interessado por ela muito cedo.
Até a Era Meiji (1868-1912), os agricultores locais cultivavam a uva de Koshu para as melhores mesas do Japão. O país só descobriu o vinho durante a Era Meiji, quando as autoridades de Katsunuma enviaram para a França dois jovens, Ryuken Tsuchiya e Masanari Takano, que entre 1877 e 1879 aprenderam nas regiões de Champagne e Borgonha o francês e os segredos do vinho.

Mas, até os anos 1950, o vinho foi uma bebida para pobres. "Era a época do vinho doce, do vinho de fermentação interrompida pela metade, do açúcar e do álcool forte", observa Shigekazu Misawa, diretor da Grace Winery, fundada em 1923.

A popularização do "verdadeiro vinho" começou nos anos 1960. Em 1975, Katsunuma se guarneceu com um centro de promoção da cultura do Koshu, o Budo no oka ("monte da uva"), que recebe a cada ano 600 mil visitantes. De seu terraço, o visitante descobre o vale, colcha de retalhos de videiras que crescem como trepadeiras.

Em busca de reconhecimento, as autoridades criam "appellations" (denominações de origem). Alguns entraram no jogo. A Grace Winery chegou a pedir por uma mudança de administração das vinhas, passando das trepadeiras para um sistema europeu. Para Shingen Kashihara, "maître de chai" (mestre de adega) formado na universidade de Bordeaux, "com a trepadeira você obtém até 700 cachos por pé. É bom para a uva de mesa, não para a uva de tonel, que precisa de mais energia".

Outros modelos se desenvolvem. "Só produzimos 38 mil garrafas por ano", explica Shintaro Furuya, que dirige a cave Haramo. "Se exportássemos, nosso vinho seria vendido caro demais. Preferimos incentivar as pessoas a virem". Para isso, ele organiza seminários e administra um café instalado na casa centenária da família, toda reformada.

"A reputação dos vinhos japoneses progride bem há cerca de uma década", nota Matsuura. A busca por qualidade se generaliza no conjunto da zonas de cultura vitícola. A produção da região de Nagano, por exemplo, está melhorando. "Ela pode ameaçar a de Katsunuma, pois ali o clima é melhor", observa Naoko Matsuura. E o futuro parece promissor. "É preciso trabalhar três vezes mais no Japão do que na França para produzir um vinho de qualidade, mas os japoneses não têm medo disso", ela diz com um sorriso.

Tradução: Lana Lim

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