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06/03/2009

"Consumidor americano" é o responsável pelo narcotráfico, diz Calderón

Le Monde
Jean-Pierre Langellier e Joëlle Stolz
Antes da visita oficial de Nicolas Sarkozy ao México, na segunda-feira (9), o presidente mexicano concedeu uma entrevista ao Le Monde.


Le Monde: A respeito da luta contra o tráfico de drogas, o sr. disse: "São eles ou nós!" Um ministro levantou a hipótese de que o próximo presidente mexicano poderia ser um traficante. O Estado perdeu o controle de uma parte do território?

Felipe Calderón:
É claro que não. Nosso esforço visa exatamente preservar a autoridade do Estado, ou seja, o monopólio do uso da força e também o da lei, frente a um fenômeno que, de fato, havia começado a se estender para diversas regiões. Mas não há um único ponto do território nacional que escape ao controle total do Estado. E nós o preservamos porque agimos em tempo, e com muita firmeza.

O crime organizado exerce pressões sobre as autoridades políticas, por cooptação, corrupção ou intimidação. Ele teve uma certa influência em nível local e municipal. Intervir agora permite evitar que a ação criminal afete um escalão mais alto.

Le Monde: Quem é o responsável por isso?

FC:
Melhor do que apontar responsáveis é assumir suas responsabilidades. Falemos de causas. A primeira é o consumidor americano. Se os Estados Unidos não fossem o maior mercado consumidor de drogas do mundo, não teríamos esse problema.

Existe também o comércio de armas. Em dois anos, apreendemos 33 mil delas, das quais 18 mil eram de grosso calibre, lança-mísseis, milhares de granadas, explosivos capazes de perfurar blindagens. Bem, a esmagadora maioria havia sido comprada nos Estados Unidos, incluindo material que é propriedade exclusiva do exército americano. Em 2004, [a administração Bush] retirou a interdição de venda que recaía sobre as armas muito perigosas.

Há outro fator: a forma como os cartéis operam mudou. Antes, eles só faziam o transporte da droga para os Estados Unidos. Hoje, e é uma mudança significativa, eles procuram desenvolver um mercado interno, então precisam controlar o território, a vida de comunidades inteiras.

Le Monde: O crime organizado estendeu suas atividades para além das drogas?

FC:
Sim, ele também está associado às extorsões, aos sequestros, às ameaças.
Todos os níveis de poder devem agir para conter os efeitos nocivos e destruidores do crime organizado. Não é uma obsessão pessoal do presidente da República. Nas regiões onde intervimos, 95% das pessoas aprovam nossa ação.

Le Monde: Algumas pessoas gostariam de chegar a uma negociação com os cartéis para reduzir a violência, como sob o Partido Revolucionário Institucional (PRI), que ficou no poder até o fim de 2000?

FC:
É uma ideia incrivelmente ingênua, para não dizer estúpida. Na velha cultura política, se pensava assim. Mas fazer um pacto com o crime não resolve nada. Pelo contrário, isso permite que ele se espalhe como um câncer, uma enorme infecção, pois ele se beneficiaria da cumplicidade de muitas autoridades. Isso acaba lhe abrindo a porta da casa.

Le Monde: E a descriminalização do uso de certas drogas, como propõe o ex-presidente mexicano Ernesto Zedillo?

FC:
Algumas pessoas acreditam que isso reduziria os lucros do mercado ilegal. Eu sou da teoria de que legalizar é se resignar a perder muitas gerações de mexicanos. A droga é a escravidão do século 21. Além disso, se os Estados Unidos não modificam sua própria legislação, isso seria absurdo. Nós faríamos de nosso país o paraíso da droga e do crime.

Le Monde: A crise econômica atinge duramente o México através dos Estados Unidos, seu principal parceiro. O que o sr. espera do presidente Barack Obama?

FC:
Espero que ele vá rapidamente ao cerne do problema: a crise bancária e financeira. É preciso restabelecer o fluxo do crédito, que é o sangue da economia. Minha preocupação é de que o governo americano demore demais para se recuperar do enfarte. Mas o México possui vários trunfos. As finanças do Estado estão sadias. O sistema de previdência social foi reformado. Os bancos estão sólidos. A taxa de câmbio favorece o turismo e compensa a queda das transferências em divisas dos imigrantes. A crise de 1995 nos afetou bem mais gravemente.

Le Monde: Obama havia criticado o Acordo de Livre Comércio da América do Norte (Nafta), que une o México, os Estados Unidos e o Canadá. O sr. aceitaria uma reforma parcial desse tratado?

FC:
Um neoprotecionismo seria um retrocesso para a zona do Nafta. Fui claro com o presidente americano. Ele reconheceu que nossos países haviam se beneficiado com o crescimento gerado pela abertura do comércio: somos o segundo maior comprador de produtos americanos. Se os Estados Unidos tomassem medidas protecionistas, eles perderiam ainda mais em competitividade. Esse foi o grande erro do New Deal de Franklin Roosevelt.

Le Monde: O que o sr. espera da visita de Sarkozy?

FC:
Gosto muito do presidente Sarkozy. Sua liderança revitalizou não só a política europeia, mas também a mundial. Ele será recebido com muito afeto, pois nossos países podem ser pontes entre a América Latina e a Europa.

Tradução: Lana Lim

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